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O revolucionário final de ano para Europa e China

NOVA YORK – Parabéns à Comissão Europeia por finalizar um novo acordo de investimento com a China. A diplomacia ativa da Europa também desempenhou importante papel no recente compromisso da China de alcançar a neutralidade de carbono até 2060 – decisão que foi rapidamente seguida pela promessa do Japão de se descarbonizar até 2050. A diplomacia apresenta agora mais um grande sucesso.

O novo acordo de investimento UE-China beneficiará a Europa, a China, o mundo e até os Estados Unidos, apesar de suas advertências contrárias. Em termos gerais, o acordo significa a intenção da UE e da China de continuar a aprofundar as relações econômicas, assegurando a cada uma das partes acesso mais garantido a investimentos na economia entre elas. A indústria europeia terá melhor acesso ao enorme mercado interno da China no momento em que a China embarca em uma década de reestruturação econômica verde e digital, e em um momento em que a Europa se esforça para permanecer na vanguarda tecnológica nessas áreas. 

O acordo vem diante de tentativas profundamente equivocadas – na verdade, perigosas – do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não apenas de cortar laços econômicos com a China nas indústrias de alta tecnologia, como também de conter o crescimento da China, forjando uma aliança liderada pelos EUA que Trump esperava ser apoiada pela UE e países da Ásia-Pacífico, incluindo Austrália, Índia, Japão e Coreia do Sul. Parece que o novo governo Biden pode muito bem se inclinar na mesma direção, embora certamente com mais sutileza e tom menos bombástico do que Trump. 

O objetivo ostensivo da política dos EUA é restringir a beligerância da China e as violações dos direitos humanos, ou assim dizem os EUA. Mas é importante notar que a política é fortalecida por um estabelecimento bipartidário da política externa dos EUA que mantém cerca de 800 bases militares no exterior e que repetidamente deflagrou guerras ilegais, impôs sanções unilaterais ilegais e se recusou a cumprir a Carta das Nações Unidas, tratados e decisões do Conselho de Segurança. Certamente, fica difícil argumentar que a China é a parte beligerante aqui. 

A China, sem dúvida, deveria melhorar seu histórico em direitos humanos – especialmente para lidar com as questões levantadas pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos com relação à situação na Região Autônoma Uigur de Xinjiang. Mas vamos ser claros: EUA, Europa, Índia e muitos países ocidentais deveriam fazer melhorias semelhantes. Nos últimos 20 anos, em especial, as populações muçulmanas no Oriente Médio e na Ásia do Sul e Central sofreram repetidamente com guerras brutais travadas por potências ocidentais, repressões internas, sanções unilaterais dos EUA e outros abusos.

O fato é que poucos países acatam adequadamente a Declaração Universal dos Direitos Humanos e os EUA, para sua enormevergonha, ainda não ratificaram o Pacto das Nações Unidas sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, enquanto a China e os 27 Estados membros da UE o fizeram há muito tempo. A resposta correta às preocupações genuínas sobre  direitos humanos é abordá-las de maneira séria e construtiva, sem acusações hipócritas, exageros ou interrupções no diálogo, na diplomacia e nas relações econômicas. Que o país sem pecado atire a primeira pedra.

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Mas a real intenção dos EUA em se opor à China não tem nada a ver com direitos humanos. Particularmente sob a administração sem lei de Trump, as políticas dos EUA foram motivadas pura e simplesmente por sua fome de domínio. Os Estados Unidos estão tentando impedir a ascensão tecnológica e econômica da China para preservar a própria predominância. O sistema econômico mundial, no entanto, não pode e não deve operar em benefício da hegemonia dos EUA, especialmente considerando-se que os EUA representam apenas 4% da população global.

Após as tragédias de 2020, o mundo precisa de uma renovada cooperação global, não de uma nova guerra fria alimentada pelos EUA. É hora de colocar a pandemia sob controle e traçar um novo curso em direção à recuperação e ao desenvolvimento sustentável. A China pode e deve estar envolvida como um parceiro pleno no enfrentamento desses desafios.

Afinal, a China, ao contrário dos EUA e da Europa, foi bem sucedida em conter sua epidemia de COVID-19 em 2020 (assim como a maioria de seus vizinhos na região da Ásia-Pacífico). Agora, a China e seus vizinhos devem ajudar o resto do mundo a implementar as intervenções não farmacêuticas (teste, rastreamento de contato e quarentena) que tiveram sucesso onde as políticas dos EUA e da Europa falharam. E desde que as novas vacinas da Sinovac e da Sinopharm sejam comprovadamente seguras e eficazes com dados revisados ​​por colegas, a China deveria começar a produzir e distribuir em massa essas vacinas em todo o mundo. 

A EU, a China e a administração do presidente eleito, Joe Biden, dos EUA também deveriam unir forças para mapear uma recuperação global verde e digital. Com os principais emissores agora buscando a neutralidade de carbono e com Biden planejando levar os EUA de volta ao acordo climático de Paris e comprometer o país com a descarbonização até 2050, temos os ingredientes para uma recuperação verdadeiramente verde de base ampla. 

Além disso, o desenvolvimento e a implantação de novas tecnologias verdes – energia renovável, veículos elétricos (VE) e armazenamento de bateria – se beneficiarão imensamente da cooperação global. Por exemplo, apenas esta semana, o Grupo Yahua da China, grande produtor de hidróxido de lítio, assinou contrato para fornecer cinco anos de insumos para a produção de baterias na Tesla, fabricante de veículos elétricos com sede nos Estados Unidos. 

Oportunidades semelhantes estão disponíveis com tecnologias digitais. Em um mundo onde o acesso digital é crucial para a participação econômica, as tecnologias baseadas em 5G prometem soluções inovadoras para uma série de desafios, desde melhorar a eficiência energética até expandir o comércio eletrônico e a saúde eletrônica. Felizmente, o tratado de investimento UE-China ajudará a impulsionar a cooperação digital, o que pode dar um grande impulso ao desenvolvimento sustentável.

Ainda assim, será importante para a Europa continuar resistindo à pressão dos EUA contra a China. A principal arma de Trump contra a China tem sido interromper a exportação de tecnologias avançadas na esperança de colocar de joelhos a Huawei e outras grandes empresas chinesas de tecnologia. Esse movimento vem diretamente do manual de hegemonia dos EUA e foi aplicado contra a União Soviética durante a Guerra Fria.

A administração de Trump justifica sua abordagem em relação à Huawei com o argumento de que a China pode espionar terceiros usando o equipamento 5G da Huawei. Um motivo mais plausível é que o equipamento da Huawei tornaria mais difícil para o governo dos EUA espionar terceiros, incluindo cidadãos americanos. Uma razão ainda mais provável é que os EUA ingenuamente pensam que podem manter a superioridade tecnológica indefinidamente cortando os insumos avançados para a China. Entretanto, a China provavelmente será capaz de rapidamente fechar as lacunas tecnológicas restantes na produção de semicondutores avançados. 

A Europa está certa em se engajar ativa, profunda e construtivamente com a China, ao mesmo tempo que atende às suas permanentes e admiráveis preocupações ​​sobre os direitos humanos em todo o mundo. O governo Biden deve resistir ao impulso hegemônico e, em  vez disso, reiniciar relações construtivas com a China. 

Por enquanto, o novo acordo de investimento UE-China é uma boa maneira de encerrar um ano sombrio. A UE está expressando suas adequadas, prerrogativas de política externa independentemente dos EUA. Porém, mais desafios nos aguardam em 2021, quando o mundo precisa urgentemente mudar de rumo para acabar com a pandemia e entrar no caminho do desenvolvimento sustentável. 

Tradução de Anna Maria Dalle Luche, Brazil

https://prosyn.org/u5DjEAPpt