BRIAN OTIENO/AFP/Getty Images

A tempestade perfeita do Quénia

NAIROBI –É o fim da época das chuvas no Quénia e as tempestades deste ano foram quase bíblicas, lavando não só a boa disposição das pessoas como também as suas pontes, os seus autocarros, o seu gado e as suas plantações. Mas a culpa pelos danos não pode ser só atribuída ao clima.

As estradas foram particularmente atingidas; buracos do tamanho de carros atafulharam as autoestradas da capital. Perto dos escritórios das Nações Unidas, na Limuru Road, por exemplo, o tráfego está cerca de 800 metros em fila parada, enquanto os veículos acotovelam-seem sentido contrário para evitarem um específico buraco enorme cheio de água. Noutros sítios, os veículos movem-se lentamente, “saltando” de cratera em cratera, enquanto os que não têm carro são atirados de um lado para o outro em miniautocarros matatu durante os trajetos de ida e volta para o trabalho.

Poderá questionar-se sobre o porquê de o governo não fazer nada quanto a isto. Afinal de contas, os buracos são um indicador básico e altamente visível do bem-estar social e económico de um país. Estradas boas são um indicador de eficiência governamental, enquanto as más sugerem incompetência. Qualquer governo que procure manter o apoio dos eleitores, geralmente faz todos os possíveis para tornar as estradas transitáveis. Porque é que isso não acontece no Quénia?

A razão é a economia bruta: o governo não tem dinheiro para pagar. Considere-se o estado do orçamento queniano. Atualmente, praticamente metade de todas as receitas destina-se a financiar os salários e as regalias dos funcionários do governo, incluindo parlamentares, governadores, burocratas locais e nacionais, e legiões de administradores intermináveis.

Outros 40% vão para o pagamento de juros sobre a crescente dívida internacional do país, que agora excede metade do PIB anual do Quénia –um sinal de alerta para as agências de avaliação de crédito. Se adicionarmos a isso a misteriosa tendência de um terço do orçamento nacional simplesmente desaparecer todos os anos, presumivelmente para os bolsos de políticos venais, o Quénia tem todos os ingredientes de uma grave crise económica que está rapidamente a atingir o auge.

A boa notícia é que o caos no Quénia relacionado com o clima coincidiu com os esforços renovados para enfrentar as barreiras administrativas e orçamentais. Para começar, o presidente Uhuru Kenyatta anunciou recentemente uma enorme campanha anticorrupção que, ao contrário de tentativas anteriores, já está a produzir resultados. Vários altos funcionários do governo foram investigados e acusados; alguns já estão a ser julgados, enquanto outros perderam os seus empregos e foram colocados em prisão domiciliária. Tudo isto é inédito e a razão é óbvia: reduzir o roubo por parte dos compinchas do governo está entre as formas mais rápidas e eficazes de aumentar as receitas.

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É claro que acabar com a corrupção é também uma boa forma de tranquilizar os credores e a altura que o Quénia escolheu para limpar a casa não é por acaso. Em setembro, responsáveis do Fundo Monetário Internacional irão regressar a Nairobi para avaliarem o desempenho financeiro do Quénia –especificamente, a sua elegibilidade para uma linha de crédito intercalar de 1,5 mil milhões de dólares. Os dirigentes quenianos estão visivelmente preocupados, uma vez que o FMI já colocou o Quénia na sua lista de referência de dívidas, e irá certamente exigir mais restrições. No preciso momento em que o Quénia precisa de mais empréstimos para suprir um enorme fosso orçamental, os seus líderes esbarram no cálculo insensível das finanças internacionais.

Se ampliarmos ainda mais a lupa, o Quénia, tal como a restante África, está a aproximar-se de um ponto crítico demográfico que também tem de ser resolvido. De acordo com o Salih Booker e Ari Rickman do Center for International Policy, sediado nos EUA, até 2035 África terá mais jovens no mercado laboral do que todo o resto do mundo junto e, até 2050, um em cada quatro seres humanos será africano. Se forem criadas oportunidades de emprego suficientes para esta onda de jovens, as vantagens para as economias africanas serão significativas. Mas se as gerações futuras não conseguirem encontrar saídas produtivas para as suas competências, as consequências sociais poderão ser graves.

Os líderes do Quénia entendem este cenário e é por isso que o governo tornou a manufatura, os cuidados de saúde, a educação e a habitação económica, as prioridades principais no seu programa de desenvolvimento Vision 2030. Mas, por mais louváveis que estes objetivos sejam, as ambições das autoridades são difíceis de conciliar com as realidades de uma rua de Nairobi durante a época de chuvas.

Caminhando aos solavancos ao longo de uma estrada esburacada que funciona como uma grande avenida urbana, os quenianos estão bem cientes de que um buraco não é simplesmente um buraco; é uma janela para as crises mais profundas, para as quais o Quénia, tal como a maioria de África, adia a reparação há demasiado tempo.

http://prosyn.org/u9zTS9w/pt;

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