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O Efeito Snowden

MADRID – A divulgação contínua de informações classificadas pelo antigo funcionário da Agência de Segurança Nacional norte-americana, Edward Snowden, desencadeou um debate aceso sobre privacidade e direito internacional que, infelizmente, ofuscou a dimensão geoestratégica das suas acções. Na verdade, as revelações de Snowden sobre os programas de vigilância dos EUA e a sua luta incansável para escapar à extradição revelam muito sobre o imprimatur do presidente Barack Obama no que diz respeito às relações externas dos EUA.

Mais do que qualquer outro presidente americano que se enquadra na memória recente, Obama criou expectativas em todo o mundo. No entanto, demonstrou estar interessado, sobretudo, ou mesmo unicamente, ​em questões internas, o que resultou numa política externa de reacção. A este respeito, o caso Snowden destaca três elementos: as relações entre os EUA e a Rússia, a influência dos EUA na América do Sul e as relações dos EUA com a Europa.

A forma como o Kremlin tratou o caso indica o estado de tensão em que se encontram as relações entre os EUA e a Rússia. Na sequência do funesto «reinício» das relações bilaterais, a Rússia tem pretendido manter a sua posição global como obstáculo aos EUA, levando muitas pessoas de ambos os lados a mergulharem novamente numa mentalidade de Guerra Fria. Ao cair nesta armadilha, os EUA concederam ao presidente Vladimir Putin uma vantagem infinita, permitindo-lhe marcar pontos políticos e solidificar a sua posição a nível interno.

Para Putin o antiamericanismo é uma ferramenta eficaz para frustrar o descontentamento interno. Medidas como a promulgação da Lei Magnitsky pelo Congresso dos EUA - considerada na Rússia como uma provocação norte-americana - possibilitaram ao Kremlin mobilizar apoio a nível interno, com medidas de retaliação como a proibição de adopções por estrangeiros, garantindo cobertura à repressão de opositores internos.