mazzucato24_Peter MacdiarmidGetty Images_bbc Peter Macdiarmid/Getty Images

Não acabem com a verba da BBC

LONDRES – Nas PalestrasReith do ano passado – a série anual de rádio da BBC –, o ex-governador do Banco da Inglaterra Mark Carney observa que, desde a crise financeira de 2008, as regras e instituições são definidas cada vez mais por seu valor monetário. O que sempre está ausente desta discussão em que preçoseconfundecomvalor é como capturar o real valor das instituições públicas que nos enriquecem.

É apropriado que Carney levante este ponto em um programa da BBC. Afinal, a BBC foi a primeira emissora pública a incorporar o conceito de "valorpúblico" em sua estrutura de governança. A British Broadcasting Company se tornou, ao lado do Serviço Nacional de Saúde e da Universidade Aberta (National Health Service e Open University, no original em inglês), uma das instituições mais amadas e mundialmente conhecidas do Reino Unido,com uma audiência de cerca de 460 milhões de pessoas por semana.

No entanto, uma minoria barulhenta (em geral liderada pelos veículos de Rupert Murdoch) quer ver a emissora destruída. Estes denunciam como correção política o compromisso da BBC com a inclusão e diversidade, e acusam a emissora de “desencorajar” as empresas de mídia privadas, graças à escala e escopo de seus serviços. Na visão dessas pessoas, cabe ao setor privado criar valor; o Estado deveria focar somente em preencher as lacunas e em consertar o que os economistas chamam de "fracassos do mercado".

Para estes críticos, a solução é simples: acabarcomaverbadaBBC. Isto significaria descriminalizar o não-pagamento da taxa anual obrigatória de licença que financia a emissora. Uma BBC dependente de um modelo de assinatura, porém, tem um futuro muito mais delicado, que pode ser o que querem seus oponentes, uma vez que Murdoch tenta neste momento criarumaversãobritânica de seu canal de direita americano Fox News.

O Reino Unido estaria perdido com uma BBC enfraquecida ou destruída, como mostrado em um novorelatório feito por mim e outros coautores. O valor da empresa vai além da obrigação tradicional de uma emissora, de oferecer acesso universal a um noticiário objetivo, programas confiáveis e artes, que limita o PublicBroadcastingService (emissora pública) dos EUA. A BBC tem sido pioneira também nos formatos comerciais, criando assim novas oportunidades de negócio - atraindo empresas (e não afastando) - ao mesmo tempo em que cumpre metas sociais importantes, como trazer diversidade às telas.

Como a BBC está fazendo isso exige que resgatemos nossa ideia do Estado como criadorcoletivodevalor, e não só como funileiro do mercado. Atuando ao mesmo tempo como plataformaparainvestidores, inovadoreseconsumidores, a empresa vem cumprindo um papel integral no desenvolvimento da infraestrutura britânica de inovação e mídia digital ao longo do último século.

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Das primeiras emissoras de rádio às plataformas de streaming atuais, os investimentos da BBC têm repetidamente catalisado novos mercados entre os setores criativos. A BBC é a maior investidora individual em conteúdo britânico novo. Sua força criativa assume riscos na programação. As vendas de seu conteúdo original no mundo todo ajudam a empresa a gerar uma renda significativa ao mesmo tempo que exibem o talento britânico e atraem os principais talentos do exterior. Todas essas atividades formam mercados em qualquer lugar. Esta renda é novamente investida no desenvolvimento, produção e distribuição de conteúdo.

Além da programação, a BBC tem desenvolvido tecnologias inovadoras, como o iPlayer e o BBC Sounds, estabelecendo assim padrões de tecnologia para o setor de mídia (como os padrões DAB para rádio e DVB-T2 para vídeo), além de criar economias de larga escala para fabricantes de eletrônicos. A pesquisa e inovação da BBC contribuem com o desenvolvimento de um ambiente de internet mais seguro e mais sustentável, por meio de iniciativas colaborativas como a ComissãodeFuturosDigitais, que visa revelar inovações digitais em nome de crianças e jovens, e o projeto Databox, que estabelece os mais elevados padrões da indústria em gestão de dados e privacidade.

Fundamentalmente, os investimentos da BBC têm sido sempre guiados mais por valores sociais do que financeiros. O BBC Micro, sistema de microcomputadores que conseguiu chegar a todas as escolas britânicas, está ajudando a reduzir a exclusão digital. O Micro surgiu de um programa de tecnologia voltado à educação, o projeto BBC Computer Literacy, nos anos 1980. Para viabilizar o projeto, a BBC teve de trabalhar com a Acorn Computers, que usou o investimento da BBC para ganhar escala considerável. A missão social da BBC, por sua vez, criou valor para a indústria.

Mesmo o papel mais básico da BBC - criar e distribuir conteúdo - oferece benefícios sociais que vão muito além disso. Durante a pandemia, com a população confinada em casa, a BBC exibia três horas diárias de conteúdo educacional e de entretenimento. Além disso, a confiança pública depositada na emissora, e em seu alcance, vai na contramão das tendências da desinformação, seja o tema o aquecimento global ou a vacina da covid-19. Manter o alcance da BBC, uma das funções do financiamento da empresa, garante a posição da emissora em um mercado de mídia saturado como fonte legítima e de grande confiança. Além disso, o “progressismo” que os críticos atacam - como, por exemplo, mulheres apresentando programas de esportes - contribui para um clima cultural de mais inclusão e tolerância.

Embora seja difícil medir o “valor público dinâmico” da BBC, sabemos que, a cadadólar do orçamento público investido em produção cultural, a economia cresce em média US$ 5. No setor automobilístico, o efeito multiplicador chega a apenas metade deste valor, não apenas por usar menos mão de obra, mas também por não incentivar nem metade dos novos investimentos em outros serviços, tecnologias e materiais. Novamente, embora a BBC não tenha um foco em valor financeiro, ela cria e o promove de modo bastante eficaz.

Entender as contribuições da BBC a toda a economia - e o conceito de valor público de maneira mais ampla - requer uma nova visão. A tarefa é desenvolver métricas que otimizem a própria responsabilidade da BBC - garantindo que ela amplie as fronteiras dos mercados e aumente a diversidade necessária tanto da programação quanto do grupo de fornecedores ligados a ela. Temos de repensar os indicadores tradicionais de desempenho, que focam em custos e benefícios estáticos, em vez de nos efeitos dinâmicos das decisões de investimento que moldam o mercado. Isto precisa acontecer urgentemente, antes que uma instituição valiosa seja destruída.

E as lições vão além da BBC. Somente repensandoageraçãodevalorpúblico é que podemos nos deslocar dos debates sobre se devemos financiar instituições públicas para as discussões sobre como estruturar e usar estas instituições para fortalecer nosso tecido social e construir uma economia mais criativa. A BBC é um ótimo lugar para começar essa discussão. As lições que podemos aprender abordam as questões-chave: Como e por que nós valorizamos nossas instituições públicas, e de que modo podemos fortalecê-las, em vez de questionar o tempo todo a existência delas?

Tradução por Fabrício Calado Moreira

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