7

Darwin, o Grande Psicólogo

CORONADO, CALIFÓRNIA – A maioria das pessoas não pensa em Charles Darwin como um psicólogo. Na verdade, o seu trabalho revolucionou o campo da psicologia. Antes de Darwin, a forma como entendíamos a psicologia era moldada pela especulação filosófica. Contudo, mesmo os grandes filósofos como Platão, Aristóteles, Hobbes, Hume, Locke, Kant, Schopenhauer, Nietzsche, e outros apenas conseguiam descrever os eventos mentais e os comportamentos actuais, não sendo capazes de explicar as suas causas.

Darwin forneceu uma compreensão aprofundada sobre o facto de a evolução ter influenciado o modelo das nossas mentes com a mesma intensidade com que influenciou a forma do nosso corpo. Tendo em conta que os seres humanos evoluíram do mesmo antepassado primata que os actuais chimpanzés ou os gorilas, Darwin sugeriu que se podia aprender mais através da comparação entre os instintos, emoções e comportamentos dos humanos e dos animais, do que através de conclusões baseadas na especulação subjectiva. Darwin afirmava que, "aquele que compreender o babuíno contribuirá mais para a metafísica do que Locke."

Erdogan

Whither Turkey?

Sinan Ülgen engages the views of Carl Bildt, Dani Rodrik, Marietje Schaake, and others on the future of one of the world’s most strategically important countries in the aftermath of July’s failed coup.

A filosofia é inadequada para compreender as raízes da psicologia humana, porque a auto-reflexão não nos torna conscientes das forças que norteiam a maioria das nossas reacções ao ambiente. Pelo contrário, estamos sujeitos a tendências inatas, que se desenvolvem através das forças reciprocamente influentes da selecção natural e sexual.

A selecção natural é o processo pelo qual as variantes de uma mesma espécie, que melhor se adaptaram para sobreviver no seu ambiente, vencem a competição reprodutiva - pelo menos até que surja uma variante cuja adaptação seja ainda melhor. As características que permitem que as pessoas se alimentem e se protejam aumentam a sua probabilidade de viverem o tempo suficiente para procriarem, sendo capazes de alimentar e proteger a sua descendência até à maturidade.

De certa forma, a selecção sexual é a extensão psicológica da selecção natural. No entanto, a vantagem não se obtém a partir das características que aumentam a capacidade da pessoa para sobreviver, mas sim das qualidades que os potenciais parceiros desenvolveram no sentido de considerar essas características atractivas.

Tendo em conta que as escolhas sexuais dos seres humanos determinam quem se reproduz mais e, por sua vez, quais as características físicas e psicológicas mais valorizadas ao longo do tempo, uma característica que possa não ajudar uma pessoa a sobreviver poderá, contudo, proporcionar uma vantagem em termos de reprodução, que é transmitida à descendência. Por outras palavras, ao escolher um parceiro, estamos a moldar o curso da evolução.

Além disso, o princípio da selecção sexual implica, além da regulação das funções corporais, uma influência indirecta do sistema nervoso no desenvolvimento progressivo das estruturas corporais e mentais, tais como apêndices ornamentais; competências cognitivas como a aptidão musical e características como a coragem e a perseverança. Os pavões evoluíram, desenvolvendo longas penas coloridas, simplesmente porque as pavoas evoluíram no sentido de considerá-las atraentes.

Darwin explicou que tais qualidades são propagadas e melhoradas ao longo de gerações, através "da manifestação de escolha, da influência do amor e do ciúme e da valorização do belo no som, na cor ou na forma." Na verdade, embora a selecção natural seja cega, a selecção sexual reconhece a beleza – ainda que a natureza da beleza esteja sempre nos olhos de quem a vê.

Tendo em conta que a psicologia humana se desenvolveu através de um equilíbrio, por vezes difícil, da selecção natural e sexual, a evolução e a psicologia exercem uma influência e uma interacção mútuas. A contribuição de Darwin para a compreensão da psicologia humana envolveu um estudo minucioso do desenvolvimento da criança, de que o naturalista deu conta através de um artigo publicado em 1877, intitulado "Esboço Biográfico de um bebé." Durante os três primeiros anos de vida do seu filho primogénito, William, Darwin observou-o com o olhar experiente de um naturalista, registando desenvolvimentos tão diversos como a sua capacidade para seguir com os olhos uma vela ou as suas primeiras manifestações de consciência. Darwin foi igualmente pioneiro na utilização de ferramentas experimentais da psicologia científica, tais como fotografias de expressões faciais e estudos para determinar a universalidade das emoções humanas.

Ainda antes de ter identificado a selecção natural como mecanismo de evolução, Darwin já tinha realizado a maioria das suas grandes descobertas a nível da psicologia, mas esperou 35 anos até à sua publicação. Esta decisão pode ser parcialmente atribuída à forma meticulosa como encarava a investigação, que envolvia a recolha e estudo rigorosos das evidências, antes da apresentação das teorias.

Contudo, Darwin também sabia que, se ele próprio precisava de tempo para aceitar as suas conclusões, o resto do mundo não estava preparado para encarar essa visão materialista da humanidade. Darwin evitou o confronto inevitável com os críticos - entre os quais figuravam amigos e colegas.

Quando Darwin morreu, as suas ideias tinham obtido uma influência significativa entre psicólogos e neurocientistas, ainda que nem sempre estes tivessem plena consciência desse facto. Sigmund Freud não conheceu Darwin, mas a maioria dos seus mentores eram darwinistas entusiastas. Do mesmo modo que Isaac Newton revolucionou a astronomia e a física "baseando-se na experiência" dos seus antecessores, Freud inspirou-se nas ideias evolucionistas de Darwin, para compreender os sintomas psicológicos, os sonhos, os mitos, a arte, a antropologia e muito mais. Ernest Jones, biógrafo de Freud, estava enganado ao designar Freud como "o Darwin da mente." O próprio Darwin era o Darwin da mente, Freud foi o seu grande divulgador.

Support Project Syndicate’s mission

Project Syndicate needs your help to provide readers everywhere equal access to the ideas and debates shaping their lives.

Learn more

Desde a época de Darwin, a psicologia académica conheceu uma expansão significativa, enriquecida pelas ferramentas sofisticadas da ciência cognitiva, da cibernética e da imagiologia cerebral. Mas a maioria destes desenvolvimentos foram composições procedentes do grande modelo evolucionista de Darwin. Os fundamentos da nossa concepção da natureza humana podem ser encontrados nos cadernos de apontamentos de Darwin, escritos há 175 anos e antes de seu trigésimo aniversário.

Tradução: Teresa Bettencourt