3

A Crise Auto-Infligida de Erdoğan

PRINCETON – A batalha dramática entre o Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), no poder na Turquia, e o seu aliado de antanho, o movimento religioso “Hizmet” liderado pelo auto-exilado clérigo Fethullah Gülen, começou a expor as enormes violações ao estado de Direito que estes dois grupos utilizaram para consolidar o seu poder. Os acusadores que muitos crêem ser simpatizantes de Gülen lançaram um abrangente processo de investigação de corrupção, que arrastou até agora quatro ministros e que envolve até o filho do Primeiro-Ministro Recep Tayyip Erdoğan.

Agora, Erdoğan e os seus conselheiros ripostaram. Acusam os Gülenistas de montar um “golpe burocrático” e de se envolverem num conjunto alargado de golpes baixos, desde “produzir provas” contra generais que foram acusados no ano passado de conspirar para derrubar o governo de Erdoğan até “escutas extensivas não-autorizadas”.

Os julgamentos de referência dos alegados conspiradores de golpe militar na Turquia são hoje amplamente reconhecidos por aquilo que foram – caças às bruxas baseadas em provas que eram no mínimo frágeis, e muitas vezes apenas inventadas. Os julgamentos foram encenados pela polícia, por procuradores e pelos meios de comunicação Gülenistas. Mas tiveram o apoio crucial do governo de Erdoğan, que os apoiou. O actual esforço do campo de Erdoğan para lavar as suas mãos destes julgamentos e colocar toda a culpa sobre os Gülenistas é desonesto, para não dizer mais.

Erdoğan declarou outrora, famosamente, que era o acusador no caso “Ergenekon”, que supostamente visava expor e combater o “estado profundo” Turco, composto por oficiais militares e nacionalistas seculares, mas que se dirigia a um amplo conjunto de opositores políticos. Quando os aterradores – mas completamente fabricados – documentos que sustentavam o fictício golpe “Martelo” (Sledgehammerno original – NdT) vieram a lume, Erdoğan deu-lhes crédito dizendo que estava ciente dessas conspirações. Os seus ministros atacaram os réus e condenaram em praça pública o único juiz que emitiu uma sentença provisória a seu favor.