hausmann95_TIMOTHY A. CLARYAFP via Getty Images_vaccine protest TIMOTHY A. CLARY/AFP via Getty Images

Procura-se liderança global nas vacinas

CAMBRIDGE – Em equipa que ganha não se mexe, diz o conhecido rifão. Mas o actual plano de vacinação do mundo não está propriamente a “ganhar”, e ninguém parece estar a mexer nele, apesar das consequências desastrosas para as vidas, as subsistências e a economia global.

Supostamente, este seria o ano da recuperação. Mas, numa perspectiva epidemiológica, está a caminho de ser pior que 2020, e a dinâmica actual sugere que 2022 não será melhor.

Isto não precisa de ser assim. Mas mudar para um melhor caminho obrigará a uma liderança global forte, que de uma vez por todas se abstenha de esperanças vãs.

Olhemos para os factos. Os números diários de casos e mortes confirmadas estão acima dos 800 000 e dos 12 000, respectivamente. E estão prestes a ultrapassar os máximos atingidos em Janeiro de 2021. Não é só a Índia que é assolada por um surto devastador do vírus; outros países, que até agora foram em grande medida poupados, nomeadamente na Ásia e em África, provavelmente também enfrentarão surtos importantes.

O mundo dispõe de várias vacinas eficazes. Mas não está a administrá-las a um ritmo suficientemente veloz: hoje, cerca de 18 milhões de doses são administradas diariamente, comparativamente aos 18,6 milhões de há duas semanas. Dado que a maioria das vacinas tem de ser administrada em duas doses, isto significa que demorarão dois anos para vacinar 80% da população mundial.

Muito provavelmente, estes dois anos não serão agradáveis. A campanha de vacinação altamente bem-sucedida de Israel foi responsável por uma descida drástica do número de casos e de mortes, e permitiu a reabertura quase completa da economia. Mas outros países que se destacaram na vacinação (como os Estados Unidos, o Reino Unido, os Emirados Árabes Unidos, o Chile, o Uruguai, a Hungria e a Sérvia) ainda não registaram efeitos semelhantes.

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No Reino Unido, o número de casos diminuiu significativamente, mas isto deveu-se principalmente a um confinamento rigoroso e dispendioso. O Chile também passou por um confinamento severo, mas os seus níveis de infecção ainda não desceram de forma significativa. Os novos casos nos EUA e nos EAU continuam em valores teimosamente elevados.

Isto pode explicar-se pela matemática do contágio. Os casos diminuem quando a taxa de reprodução (R) – o número de pessoas infectadas por cada pessoa infectada – é inferior a um. Assumindo (de forma optimista) que nem os vacinados nem os recuperados transmitem o coronavírus, a parte remanescente da população tem de ser inferior à taxa de reprodução do vírus (R0) que, sem distanciamento social, anda à volta de quatro.

Por outras palavras, a não ser que pelo menos 75% da população esteja imune, o R será superior a 1, e os casos continuarão a crescer exponencialmente. Por conseguinte, a manutenção das regras de distanciamento social continuará a ser essencial para limitar a transmissão. Mas os confinamentos são dispendiosos, e investigações recentes sugerem que estão a tornar-se menos eficazes, devido à “fadiga do confinamento”.

Mesmo depois de 75% do mundo estar vacinado, porém, a tarefa não estará concluída. Segundo o CEO da Pfizer, Albert Bourla, será provavelmente necessária uma terceira dose de “reforço” da vacina dentro de um ano, para garantir a imunidade continuada a novas variantes do vírus. Em termos simples, deveríamos estar a planear a vacinação anual do mundo, e estamos a caminho de demorar o dobro desse tempo. Isto é uma receita para um vírus endémico.

E, contudo, não nos encontramos propriamente numa situação impossível. Pelo contrário, os aspectos económicos da solução são evidentes e surpreendentemente pouco controversos, pelo menos entre os economistas.

O desenvolvimento de uma nova vacina – incluindo a comprovação da sua segurança e eficácia – acarreta custos fixos elevados. A produção de cópias dessa mesma vacina implica um custo variável muito menor. Actualmente, uma empresa que desenvolva uma nova vacina (o “desenvolvedor”) recuperará os seus custos fixos através da venda de doses. Ao mesmo tempo, patenteia a sua invenção para impedir que outras produzam a sua vacina. O resultado são preços elevados e uma oferta condicionada: a última coisa de que precisamos durante uma pandemia.

Uma solução muito melhor passaria pelos desenvolvedores receberem um grande pagamento global por troca da propriedade intelectual. Qualquer empresa com capacidade poderia depois produzir a vacina ao abrigo de um licenciamento livre, o que aumentaria a oferta e diminuiria os preços.

Como a vacinação de pessoas beneficia outras (em economês, tem “externalidades positivas”), há espaço para subsidiar doses – e até para distribui-las gratuitamente. Alguém – sejam os EUA, a União Europeia ou um consórcio de países ricos – deveria assumir o pagamento aos desenvolvedores. O custo da produção das doses não deveria ser um obstáculo, a não ser para os países mais pobres. Com efeito, os custos para o mundo são insignificantes, especialmente quando comparados com os benefícios que os países ricos colheriam de uma campanha de vacinação global bem-sucedida.

Esta solução não deixaria os desenvolvedores numa pior situação. Mas, ao tornar o processo de vacinação muito mais rápido e eficiente, deixaria o mundo numa situação muito melhor.

Infelizmente, esta não é a abordagem seguida pelo mecanismo de Acesso Global às Vacinas contra a COVID-19 (COVAX), uma louvável mas modesta aliança internacional empenhada em garantir um acesso generalizado às vacinas contra o coronavírus. Com efeito, os objectivos do COVAX são demasiado modestos e inadequados para as necessidades do mundo, especialmente se forem necessárias novas vacinas à medida que o vírus sofrer mutações. Também não preconiza pagamentos de montantes a desenvolvedores nem a livre entrada no fabrico. Tem mais a ver com a questão de organizar uma fila justa, dadas as limitações na oferta.

Como nos devemos preparar para um mundo que necessitará periodicamente de novas vacinas, precisamos de ter empresas farmacêuticas sólidas e lucrativas que consigam angariar o capital e assegurar os recursos necessários ao seu desenvolvimento. Isto deveria garantir-se com a realização de concursos para aquisição da propriedade intelectual das referidas vacinas e mesmo com o apoio técnico para assegurar a produção de acordo com as adequadas normas de qualidade. As empresas concorreriam a estes procedimentos, que seriam organizados com o máximo de informações sobre a genética das variantes emergentes do vírus, algo que requer um esforço global de vigilância.

Mas o mundo também precisa de reforçar a capacidade de produção, de modo a apoiar uma vacinação com um ritmo duplo do actual. Além disso, dada a experiência recente com países que açambarcam vacinas e proíbem exportações, é essencial que se permita a entrada livre na produção de vacinas, para que os estados consigam assegurar o aceso à vacina através do reforço da sua própria capacidade produtiva.

O mundo precisa de mais vacinas contra a COVID-19. Mas, antes disso, precisa da liderança política global que tomará as medidas simples mas necessárias para garanti-las.

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