2

O LBW* da Índia

NOVA DELI – Um leitor casual dos jornais Indianos nas últimas semanas seria perdoado por se interrogar se o país estaria a ser subitamente privado de controvérsias políticas, de escândalos sexuais, ou de corrupção pública – o padrão normal das parangonas locais. As primeiras páginas dos jornais apenas têm tido espaço – sob cabeçalhos imponentes – para um tópico reservado habitualmente às páginas desportivas: o críquete.

A causa disto não é uma partida especialmente excitante. Em vez disso, o público tem-se indignado com acusações chocantes relativas à Primeira Liga Indiana (PLI) – subornos para decidir partidas, proprietários de clubes a apostar em jogos, e jogadores seduzidos por aspirantes ao estrelato e acompanhantes pagas. Revelou-se que o capitão da selecção nacional tinha um conflito de interesses, e que o genro do funcionário mais poderoso do críquete Indiano estava envolvido numa operação de jogo ilegal, administrada por uma sinistra rede de agentes de apostas.

Chicago Pollution

Climate Change in the Trumpocene Age

Bo Lidegaard argues that the US president-elect’s ability to derail global progress toward a green economy is more limited than many believe.

A polícia, cujas escutas telefónicas conduziram a uma onda de detenções, apresentou queixas que alegam o envolvimento de figuras bem conhecidas do crime organizado. Ligaram até um jogador da equipa nacional Indiana ao fugitivo Dawood Ibrahim, suspeito de ter arquitectado os bombardeamentos de 1993 em Bombaim, que tem estado a monte no Paquistão.

Há muito tempo que a comunicação social Indiana não tinha tanta sorte. Depois de anos de escândalos de corrupção, de dramas políticos, e de marchas de protesto, isto foi um maná do céu – uma história que combina o críquete, a obsessão nacional, com o vício, a fraqueza nacional. Os mais de 300 canais noticiários Indianos não foram melhores que a imprensa escrita, consagrando quase todo o seu tempo a analisar todos os pedaços de informação revelados ou anunciados pela polícia. Um país que tradicionalmente paralisa durante uma partida excitante de críquete foi levado à submissão pela sua antítese – o lento desfazer de ilusões sobre um jogo que captura a imaginação dos Indianos como nenhum outro.

Há cinco anos, escrevi uma coluna sobre o apelo fenomenal da PLI e como transformou o críquete, inspirada na televisionada agitação do desporto Americano. A Índia não trouxe apenas animação a um jogo originalmente inventado na rígida e decorosa Inglaterra Vitoriana; também trouxe o jogo para o século vinte e um, juntamente com a comercialização exuberante. “Pausas estratégicas” de dois minutos e meio interrompem agora o fluxo do jogo, permitindo aos anunciantes apregoar os seus produtos a centenas de milhões de espectadores fascinados.

O sociólogo Ashis Nandy escreveu uma vez, de forma memorável, que “o críquete é um jogo Indiano acidentalmente descoberto pelos Britânicos.” Qualquer espectador da PLI, no entanto, pode ser tentado a concluir que o críquete Twenty20, a forma “instantânea” do jogo, é na verdade um jogo Americano deliberadamente redescoberto pelos Indianos.

Outros países seguiram esse exemplo, tendo brotado torneios modelados a partir da PLI por todo o mundo do críquete. Para observadores entusiastas, a PLI representou mais do que uma liga desportiva; assinalou nada menos do que a emergência de uma nova Índia.

No brilho, encanto e excesso da PLI residia um antídoto para a inflexível mentalidade estatal que produziu a estagnação económica na Índia do passado. Aqui estava uma actividade que abria novas perspectivas para os negócios, e incendiava as imaginações dos jovens para emular as energias empreendedoras demonstradas por proprietários, promotores, jogadores, e fãs. A PLI sugeria uma nova orientação a um país inspirado pela fascinação do seu próprio sucesso.

Compreensivelmente, a exposição da PLI como um pântano de enganos, desacreditado por episódios de resultados viciados e maquinados por agentes de apostas sem escrúpulos e jogadores mercenários, esvaziou essas noções arrebatadoras. O críquete continua a encantar muitos Indianos, mas muitos outros abandonaram-no no rescaldo das revelações sobre a PLI. O paroxismo da flagelação dos meios de comunicação reduzir-se-á dentro de pouco tempo, mas a excitação com que o público seguia a PLI não voltará.

Mentes conservadoras encararão provavelmente o espalhafatoso lado negativo da PLI como emblemático do capitalismo de compadrio e da mentalidade empresarial imediatista da Índia pós-liberalização. Mas é sempre perigoso procurar no desporto grandes metáforas para o declínio nacional, e por isso a tentação de encarar a PLI como sintomática de tudo o que está errado com a Índia de hoje deve ser contrariada.

Inicialmente seduzido pela ideia de que a PLI expunha a face atraente de uma admirável e nova Índia empreendedora, tenho relutância em abraçar instantaneamente a visão oposta. Mas não há dúvida de que as falhas expostas diariamente na comunicação social – cupidez numa escala colossal, quase suicida, a busca de dinheiro fácil, a viragem para a ilegalidade, e a falta de padrões éticos aos mais altos níveis – revelam traços perigosos no nosso carácter nacional.

A PLI pode continuar como entretenimento desportivo, adequado a uma noite divertida com as crianças em frente da caixa idiota. Mas o que revelou aos Indianos sobre eles próprios é muito menos divertido. O apelo à reforma do críquete é na verdade um apelo à reforma do modo como a Índia faz os seus negócios. As falhas de carácter desnudadas na PLI têm que ser refreadas se a Índia quiser alguma vez cumprir a sua promessa óbvia e tomar o seu lugar dianteiro no palco internacional do século vinte e um.

Fake news or real views Learn More

*LBW – Leg Before Wicket – Movimento faltoso no críquete, que consiste em tapar o “wicket” (alvo) com a perna e que ocasiona a expulsão do batedor (NdT).

Traduzido do inglês por António Chagas