asean countries flags Mohd Rasfan/AFP/Getty Images

Poderá a ASEAN transformar a disrupção geoestratégica e tecnológica numa oportunidade?

GENEBRA – Será a Associação de Nações do Sudeste Asiático (NdT: ASEAN, do inglês Association of Southeast Asian Nations) suficientemente resistente para prosperar no meio das transformações regionais e globais que ocorrem na actualidade? Ao mesmo tempo que a economia global continua a sua expansão generalizada, os ganhos da ASEAN em anos recentes podem ser ameaçados por forças económicas, geoestratégicas e tecnológicas de natureza disruptiva. Para sobreviverem, os membros da ASEAN devem tomar importantes decisões sobre o papel da sua comunidade nos assuntos regionais. Com as opções adequadas, a região pode converter a disrupção em oportunidades, para um futuro de resiliência.

A ASEAN registou uma recuperação impressionante nas últimas cinco décadas. Uma região de turbulência, desarmonia e subdesenvolvimento na década de 1960 é actualmente uma região de relativa paz e de êxito económico. Em grande parte, este sucesso deve-se aos esforços de construção comunitária dos países pertencentes à ASEAN. Mas a região também beneficiou grandemente da arquitectura global e das instituições do pós-II Grande Guerra, que promoveram a entrada dos fluxos de investimento e a saída dos fluxos de exportações.

Hoje, este cenário global está a passar por uma profunda transformação. Os benefícios do comércio livre e sem entraves estão a ser questionados, as instituições internacionais estão a ser desafiadas, novas potências geopolíticas estão em ascensão e – apesar dos altos e baixos – a economia global continua a inclinar-se ainda mais para os mercados emergentes. Tudo isto cria uma oportunidade para perspectivas novas e alternativas sobre o modo como o mundo deveria ser organizado e gerido.

Paralelamente à crescente incerteza geopolítica, os países da ASEAN têm de lidar com a Quarta Revolução Industrial. O desenvolvimento exponencial de tecnologias como a inteligência artificial, a robótica avançada, a medicina de precisão e os veículos autónomos está a transformar economias, negócios, e sociedades.

Os membros da ASEAN sentirão os efeitos da Quarta Revolução Industrial de forma acentuada. Pense-se no futuro dos empregos: a população em idade activa deste bloco aumenta em 11 000 pessoas por dia, e continuará a crescer a esta taxa durante os próximos 15 anos. Esta expansão demográfica acontece ao mesmo tempo que muitos dos empregos existentes serão substituídos por automação inteligente e pela IA. Os sistemas de fiscalidade que dependam do rendimento do trabalho sofrerão pressões. Os orçamentos nacionais serão desafiados exactamente no mesmo momento em que os membros da ASEAN devem aumentar o seu investimento no sentido da reconversão da sua mão-de-obra e do desenvolvimento de infra-estruturas para esta nova era.

Ou pense-se no futuro da indústria: tecnologias como a impressão 3D e os robôs industriais baratos estão a permitir que a produção se faça de forma reduzida e altamente personalizada, em vez dos grandes lotes de bens uniformes. Para a ASEAN, a deslocação das cadeias de aprovisionamento globais e centralizadas para os sistemas de produção localizada poderá ter um impacto sério sobre as receitas das exportações e o investimento que as sustenta.

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Confrontada com estas alterações disruptivas, a ASEAN deverá fortalecer a sua comunidade. Economicamente, a resiliência regional pode ser reforçada pela construção de um verdadeiro mercado único: a ASEAN tem 630 milhões de cidadãos, com um poder aquisitivo em rápido crescimento. A implementação completa da Comunidade Económica da ASEAN será instrumental. Com um mercado regional forte, a ASEAN poderá conduzir o seu próprio destino económico, em vez de depender da procura de mercados no exterior, e estará mais bem isolada contra potenciais choques proteccionistas.

A criação de um mercado único para os serviços será crítica. Aqui, especialmente, os membros da ASEAN devem responder à Quarta Revolução Industrial, resolvendo questões como a harmonização dos regulamentos que regem a utilização de dados. As novas tecnologias – que incluem plataformas digitais, a análise de grandes quantidades de dados (NdT: big data analytics, no original), e os serviços baseados na nuvem – não reconhecem as fronteiras nacionais e funcionam melhor quando aproveitam efeitos de escala. Com um mercado digital único, a ASEAN poderá desenvolver serviços verdadeiramente pan-regionais na área das finanças, dos cuidados de saúde, do ensino, e do comércio electrónico.

Claro que a ASEAN não deverá construir uma fortaleza que a isole do mundo. Efectivamente, o bloco tem sido desde há muito louvado pelo seu “regionalismo aberto”, por procurar a integração económica entre os estados-membros sem discriminar as economias que não pertencem à ASEAN. Esta abordagem tem integrado a estratégia económica da ASEAN desde o início, e continua com a Parceria Económica Abrangente Regional, que deverá ser concluída em breve, e que reúne a ASEAN à China, Japão, Coreia do Sul, Índia, Austrália e Nova Zelândia.

O fortalecimento da comunidade política e de segurança é igualmente essencial. Com o desafio actual à arquitectura da governação global, os membros da ASEAN devem fazer-se ouvir, se quiserem um mundo que defenda os seus interesses. Individualmente, os países do Sudeste Asiático têm pouco peso; contudo, colectivamente representam quase um décimo da população mundial e perto de 5% do PIB mundial.

Historicamente, a ASEAN desempenhou um papel de charneira na promoção dos relacionamentos regionais, dando origem à noção da “centralidade ASEAN” na Ásia. Em 1993, o bloco criou o Fórum Regional da ASEAN – hoje com 27 membros – para promover o diálogo sobre preocupações políticas e de segurança. Em 2005, criou a Cúpula do Leste Asiático, actualmente com 18 estados-membros.

Hoje, porém, o contexto geopolítico está a evoluir. À medida que outras potências ascendem, a ASEAN corre o risco de perder o seu compromisso colectivo com uma visão partilhada para a região e com uma postura comum em questões geopolíticas. Muitos observadores acreditam que a unanimidade da ASEAN está a ser abalada por outros países, que desenvolvem dependências com países individuais, assentes no investimento, no comércio, e na assistência. A menos que a ASEAN permaneça unida como um bloco, perderá a sua capacidade de reunir os intervenientes regionais, de mediar litígios, e de moldar princípios de comportamento e interacção internacionais.

A denominada via ASEAN, caracterizada pela tomada de decisões baseada no consenso e pela não-interferência, tem sido útil à ASEAN, e o bloco seria imprudente se a menosprezasse. Mas será necessária uma reavaliação para que a ASEAN possa ter uma voz forte em assuntos regionais, em vez de permitir vozes dissonantes no grupo que tentem evitar a adopção de posições colectivas. Dado que as instituições globais existentes estão a ser desafiadas, e dada a ascensão da Ásia nas questões globais, a ASEAN deve reforçar a sua capacidade de influenciar o debate.

O Fórum Económico Mundial sobre a ASEAN decorrerá em Hanói, no Vietname, de 11 a 13 de Setembro, e proporcionará uma oportunidade para essa reavaliação. Num mundo cada vez mais incerto, a necessidade dos países da ASEAN aprofundarem a sua comunidade e o seu compromisso com a integração e a colaboração é mais forte que nunca.

http://prosyn.org/zlSrc03/pt;

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