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As vozes por trás de Angelina Jolie

NOVA IORQUE – No dia 26 de Maio, Debbie Martin, tia de Angelina Jolie, morreu de cancro da mama aos 61 anos. A mãe de Jolie, Marcheline Bertrand, morreu aos 56 anos, vítima de uma doença do mesmo tipo, cancro do ovário. E, duas semanas antes da morte de Debbie Martin, Jolie revelou que tinha feito uma dupla mastectomia preventiva, na sequência de exames médicos que efectuou, com resultados positivos para a mutação do gene BRCA - que está relacionado com o facto de a mulher ter uma probabilidade cinco vezes maior de desenvolver cancro da mama e ser 28 vezes mais susceptível ao desenvolvimento do cancro do ovário.

O teste para a detecção da mutação do BRCA é dispendioso - custa cerca de 3.500 dólares. Nos Estados Unidos, as seguradoras de saúde apenas cobrem os custos do exame se um familiar de primeiro grau, por exemplo, a mãe de uma mulher, tiver registado algum antecedente de cancro da mama ou de cancro do ovário; as restantes mulheres terão de pagar do próprio bolso. Tendo em conta os benefícios dos cuidados preventivos, o teste tornou-se altamente controverso, uma vez que o seu fabricante, a Myriad Genetics, detém uma patente genética que lhe confere o monopólio - e lucros elevadíssimos - de todos os testes.

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A revelação de Jolie veio voltar as atenções para esta questão. De um modo mais amplo, a actriz é uma das raras sex symbols/artistas que, à semelhança de Madonna e de algumas outras mulheres, determina em grande parte a sua própria narrativa a respeito do "significado" da sua condição de celebridade. Para Angelina, este facto significa o recurso frequente ao seu estatuto de ícone para desenvolver uma agenda positiva, quer o problema esteja relacionado com os refugiados sírios na Jordânia ou com a consciencialização relativamente ao cancro da mama.

A revelação sobre a mastectomia levada a cabo, e o apoio visível do seu companheiro Brad Pitt, suscitou uma resposta arrebatadora por parte dos meios de comunicação social populares, incluindo os tablóides que, a dada altura, a condenaram por ser a "outra mulher" que provocou a rotura do anterior casamento de Pitt. Algo nesta história - de uma sex symbol que sacrifica os seus idolatrados seios em prol dos seus filhos, com o apoio do marido- é profundamente reconfortante para as mulheres na cultura ocidental.

 Porém, podemos estar razoavelmente seguros de que a opção de Angelina Jolie irá alterar os papéis que lhe serão atribuídos como actriz. Por mais entusiástica que tenha sido a reacção dos meios de comunicação social globais à decisão da actriz, não deixa de ser extremamente difícil, no Ocidente, uma mulher ser vista como maternal - quanto mais fisicamente "defeituosa" ou "deficiente" - e simultaneamente como um objecto sexual imaginário.

Mas a verdadeira importância da história de Jolie reside no seu contexto: uma vaga de mulheres e homens, em diferentes locais do mundo, que insistem em narrar as suas próprias acepções relativamente a situações relacionadas com os seus corpos - situações essas que, tal como o cancro da mama, eram outrora envoltas em vergonha, silêncio, medo ou culpa. Angelina Jolie recusou-se a considerar a mastectomia como algo assustador ou trágico, ou a sentir-se de alguma forma "menos mulher". Deste modo, a actriz modela a sua rejeição em considerar-se uma mulher vítima e ao fazê-lo, modela igualmente a capacidade de agir relativamente ao seu próprio corpo e à sua "história".

Jolie é importante, mas não é a única. Consideremos as mulheres brasileiras que têm vindo a denunciar publicamente o facto de terem sido violadas em autocarros públicos - agressões que se assemelham às que são cometidas na Índia e no Egipto. Ou atentemos às duas jovens funcionárias das autoridades nova-iorquinas que denunciaram publicamente terem sido alvo de assédio sexual por parte do deputado nova-iorquino, Vito J. Lopez.

De igual modo, os homens que foram vítimas de abuso sexual, na década de 1970, na Horace Mann, uma prestigiada escola privada da cidade de Nova Iorque, recusam-se a perpetuar o silêncio e a "vergonha" da sua vitimização por parte de um círculo de pedófilos (e pelos funcionários da escola que encobriram o comportamento dos agressores). Presentemente, estão unidos numa acção judicial, fortemente divulgada, contra a escola, apresentando-se abertamente com os seus próprios nomes.

Os tempos mudaram - em parte devido a pessoas e a acções como estas. Quando, há vinte e dois anos, Anita Hill acusou, publicamente, de assédio sexual o então candidato ao Supremo Tribunal dos Estados Unidos - Clarence Thomas - foi ela, a alegada vítima, quem foi investigada e quem viu a sua reputação manchada, sendo considerada como "um pouco chanfrada e um pouco promiscua".

Em todos estes casos, pode ver-se a mulher outrora silenciada - ou criança do género masculino ou feminino - assumir a obrigação e o direito de falar da sua situação particular e de reformular a história pública. Apenas estas pessoas podem atribuir um significado legítimo aos seus seios, aos seus corpos e às situações difíceis com estes relacionadas.

Quando, em anos recentes, comecei a insistir que o tradicional silêncio e anonimato atribuídos às vítimas de violação não as protegiam e apenas perpetuavam um quadro vitoriano, no qual os violadores atacam com impunidade e as vítimas são convidadas a carregar o fardo da "vergonha", o meu argumento foi recebido com hostilidade. Mas os acontecimentos estão a dar-me razão: nada muda até tudo mudar - ou seja, até um número considerável de "vítimas" se apresentar com os seus próprios nomes para rejeitar a vergonha que lhes foi conferida por terem uma doença "mutilante" assustadora, por terem sido vítimas de violação, ou por terem sofrido abusos sexuais por parte de pedófilos.

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Angelina Jolie vem colocar um rosto famoso neste fenómeno. Mas muitas outras pessoas já se estão a erguer e a proclamar, em seu próprio nome e autoria: “Eu tenho o direito de relatar publicamente o que me aconteceu e de definir o sucedido nos meus próprios termos; a vergonha não é minha.”

Tradução: Teresa Bettencourt