Workers at Kinross Clothing manufacturers in Maitland RODGER BOSCH/AFP/Getty Images

Um roteiro para a industrialização africana

ABIDJAN –África está numa encruzilhada. Seis das dez economias que mais crescem no mundo localizam-se, atualmente, na região e espera-se que o PIB do continente cresça a uma taxa de 4,1% este ano, acima dos 3,6% em 2017.

Todavia, o crescimento económico de África não tem sido acompanhado por um nível proporcional de criação de empregos, o que tem implicações negativas em particular para as mulheres e para os jovens. Na verdade, o atual crescimento sem emprego poderá até mesmo reverter os ganhos obtidos com a erradicação da pobreza nos últimos anos.

O problema é que o crescimento de África, embora impressionante, tem sido instável, uma vez que tem sido impulsionado principalmente pelos elevados preços dos produtos e não pela manufatura. Os efeitos económicos deste desequilíbrio não deveriam ser subestimados. Entre outras coisas, explica o porquê de uma região que produz cerca de 75% do cacau do mundo, representar apenas 5% dos quase 100 mil milhões de dólares do mercado anual de chocolate.

Apesar dos seus vastos recursos naturais, África continuará à mercê dos preços dos produtos e dos fluxos comerciais enquanto não realizar uma profunda transformação estrutural. Chegou a altura de África desbloquear o verdadeiro potencial da sua economia, seguindo os passos de todas as economias modernas e procedendo à transição da agricultura para a manufatura.

O setor industrial de África é o elo mais fraco na sua integração contínua na economia mundial. Hoje, os produtos primários (matérias-primas) englobam 62% da totalidade das exportações de África, a percentagem mais elevada em todo o mundo. Simultaneamente, a exportação de produtos manufaturados per capita, em 2014, apenas totalizou 218 dólares, valor que está entre os níveis mais baixos do mundo e muito abaixo de outras regiões em desenvolvimento, tais como a Ásia (883 dólares) e a América Latina (1099 dólares). É evidente que África tem de começar a recuperar o atraso.

Felizmente, já existe um consenso global de que a industrialização é importante e de que é do interesse de todos que África se torne a potência mundial da manufatura que deveria ser. Com a sua Agenda High 5(as cinco prioridades de desenvolvimento), o Banco Africano de Desenvolvimento (BAfD) tornou a industrialização uma prioridade máxima. Do mesmo modo, a industrialização é o elemento fundamental da Agenda 2063da União Africana. E, em 2016, a Assembleia Geral das Nações Unidas declarou o período entre 2016 e 2025 a Terceira Década de Desenvolvimento Industrial para África.

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Mas essas declarações não significam nada se não houver iniciativas concretas. Para mudarem a trajetória económica da região, os governantes africanos têm de se focar em três áreas principais: políticas industriais, financiamento de infraestruturas e liderança.

Nós sabemos o quão eficazes essas políticas industriais podem ser na alavancagem do crescimento. A questão é saber se os estados têm a capacidade de implementar as políticas que formulam. Se tiverem, poderão canalizar recursos para a indústria e reunir as tecnologias disponíveis para criar sinergia entre os setores da agricultura e da manufatura.

Diversos países africanos já seguiram nessa direção. A Etiópia, por exemplo, criou zonas económicas especiais, onde baixou os custos de produção ao investir em infraestruturas. Consequentemente, o país emergiu na qualidade de maior centro de África para a indústria têxtil, atraindo intervenientes importantes como a H&M e a Primark. De forma semelhante, a Zona Económica Especial de Kigali, no Ruanda, que isenta as empresas de pagarem taxas durante 10 anos, atraiu um investimento de 20 milhões de dólares da Volkswagen para uma nova fábrica de montagem de veículos.

Mas a industrialização não pode acontecer sem energia, estradas e ferrovias e é por isso que as infraestruturas têm de ser o foco principal. A partir de agora, o BAfD fixa a lacuna infraestrutural de África entre 130 e 170 mil milhões de dólares por ano. Encerrar essa lacuna exigirá não só mais financiamento, como também mais pensamento inovador, especialmente no que diz respeito aos esforços coletivos públicos e privados.

Para alcançar essa meta, o BAfD ampliou a sua carteira para financiar novos projetos de infraestruturas em vários países. Como parte do nosso Novo Acordo sobre a Energia para África”, aumentámos o investimento em energias renováveis e aplicámos 265 milhões de dólares para o desenvolvimento de duas centrais de energia solar em Marrocos. Em Côte d’Ivoire, onde a procura por energia está a crescer até 8 a 9%, anualmente, estamos a investir 60 milhões de dólares para levar uma nova central hidroelétrica a entrar no mercado.

Os países africanos deveriam fazer agora esses investimentos para tirar partido do dividendo demográfico da população do continente que crescerá nos próximos anos. À medida que as atividades de fabrico se expandem, necessitarão de ser apoiadas por um conhecimento mais sólido e por economias baseadas em competências, o que exigirá maior investimento na educação para promover competências técnicas e profissionais, e formação.

Nunca nenhum país se submeteu a uma modernização económica sem indústria. Mas, mais precisamente, nunca nenhum setor industrial funcional despontou sem uma liderança forte e empenhada. Temos o exemplo das Maurícias, que na década de 1970 eram uma economia de monocultura de baixos rendimentos, com um PIB per capita ligeiramente inferior a 250 dólares. Hoje, as Maurícias são um país de rendimentos médios-altos, com uma economia mais diversificada e um PIB per capita de aproximadamente 9600 dólares. É um país que é muitas vezes citado como sendo um modelo de sucesso económico em África.

Como é que isso aconteceu? Tal como o antigo primeiro-ministro e presidente mauriciano, Anerood Jugnauth, disse: Não há milagres. Deve-se simplesmente a trabalho árduo, disciplina e vontade. Os líderes que quiserem desenvolver uma base produtiva sólida têm de ter vontade política para distribuir recursos de forma justa e incitar o setor privado.

As Maurícias vivenciaram a sua quota-parte de desafios ao passarem de uma manufatura de qualidade inferior para produtos e serviços com tecnologia de nível intensivo. Mas presentemente serve de exemplo do que pode conquistar uma liderança empenhada. Outros países africanos fariam bem em fazer o mesmo, enquanto exploram as suas próprias transformações económicas.

Globalmente, África está bem posicionada para agarrar muitas das oportunidades que a economia mundial dá aos mercados emergentes. Já tem os recursos e a mão-de-obra; agora precisa de líderes empenhados, tal como Jugnauth que irá implementar as políticas adequadas.

http://prosyn.org/vsxHJLF/pt;

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