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A nova fuga de cérebros na esfera científica

DUBAI — Em Dezembro de 2013, o físico Peter Higgs, vencedor do Prémio Nobel, disse ao jornal The Guardian que se estivesse actualmente à procura de emprego no meio académico "provavelmente seria considerado como sendo insuficientemente produtivo". Tendo publicado menos de dez estudos desde seu trabalho inovador em 1964, Higgs acredita que actualmente nenhuma universidade o contrataria.

Os académicos estão bem familiarizados com o conceito de "publicar ou perecer". É cada vez mais frequente a necessidade de publicarem os seus trabalhos em publicações revistas pelos pares para ascenderem na carreira, protegerem o seu emprego e garantirem o financiamento para as suas instituições. Porém, o que acontece aos investigadores e demais académicos, como os do Médio Oriente, que têm preocupações distintas em matéria de investigação das — e escassas ligações às — revistas especializadas que podem construir ou destruir uma carreira académica/científica?

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Os académicos e as instituições que registam elevadas taxas de publicação nas revistas estabelecidas obtêm melhores pontuações a nível de produtividade, que se traduzem em recompensas mais elevadas, em termos de incremento das carreiras e de reforço do financiamento da investigação. Se o trabalho que estão a publicar tem ou não um impacto mensurável na sua área de estudo é, lamentavelmente, com demasiada frequência, uma preocupação secundária. Os incentivos com que se confrontam demonstram que a quantidade surge frequentemente antes da qualidade.

As revistas académicas determinam as várias classificações disciplinares que as instituições académicas são obrigadas a ascender, o que leva as instituições a contratar e manter apenas os académicos que conseguem produzir a um ritmo elevado. Isto deu origem a um duplo problema mais profundo: as revistas académicas tornaram-se desproporcionalmente influentes e além disso privilegiam a investigação empírica.

Relativamente ao primeiro problema, as revistas estão a substituir progressivamente as instituições como árbitros da qualidade no âmbito das comunidades académicas. Os académicos de praticamente todas as áreas que procuram emprego em instituições de topo têm de publicar em meia dúzia de revistas de nível A, que são consideradas como pontes.

Os conselhos editoriais destas revistas privilegiam cada vez mais o trabalho teórico positivista — ou seja, a investigação que se baseia na análise de dados empíricos. A investigação qualitativa (como as etnografias, os estudos participativos e os estudos de caso) é muitas vezes designada como sendo apenas adequada para revistas de nível B e C.

Os académicos que realizam trabalhos de investigação empírica têm uma grande vantagem sobre aqueles que realizam trabalho qualitativo, pois podem recorrer a software eficiente e a computadores potentes para ensaiar as suas hipóteses de forma rápida e contabilizar diferentes variáveis em conjuntos de dados. Este tipo de trabalho pode, além disso, ser menos dispendioso, dado que um único conjunto de dados pode gerar vários artigos de revistas.

É verdade que não há nada de errado na evolução das práticas científicas a par da tecnologia, ou no facto de os académicos utilizarem conjuntos de dados mais abundantes e um software melhor. Mas a adopção desta abordagem quantitativa não deveria ser o critério mais importante para avaliar a excelência científica e decidir as trajectórias de carreira. Afinal de contas, o conhecimento é adquirido de diferentes maneiras, e o positivismo empírico constitui apenas um método num inventário epistemológico mais vasto.

A tendência positivista que se verifica actualmente na esfera científica é particularmente problemática para os países em desenvolvimento, onde os conjuntos de dados são escassos e muitas vezes de fraca qualidade. Assim, os cientistas que trabalham em países em desenvolvimento enfrentam um dilema: ou trabalham os problemas do mundo rico relativamente ao qual existem dados abundantes, ou arriscam deitar por terra a progressão na carreira ao realizarem trabalho qualitativo que não chegará a ser publicado em revistas de nível A.

Os académicos que transitam de países ricos em dados na Europa e na América do Norte para países com deficiência de dados no Médio Oriente e em outras regiões são frequentemente confrontados com este problema. Tal como sabem os investigadores da minha instituição em Abu Dhabi, a realização de estudos para efeitos de investigação qualitativa é viável; mas gerar dados preciosos a partir do zero para uma investigação destinada ao desenvolvimento de teorias é extremamente difícil.

Na Conferência Internacional sobre Indicadores de Ciência e Tecnologia realizada este ano, um académico francês que está a realizar um trabalho de investigação sobre os solos em África informou que apenas 5% dos trabalhos publicados na sua área são obra de investigadores africanos. Ao aprofundar mais a sua investigação, constatou que 50% dos conhecimentos que obtivera sobre os solos africanos eram provenientes de investigadores africanos, que não publicaram ou não conseguiram publicar os seus trabalhos em revistas académicas internacionais.

Os países em o inglês não é a língua franca são particularmente desfavorecidos no plano cientifico, não por falta de excelência académica, mas porque as revistas em língua Inglesa são quem dá as cartas. As revistas académicas cuja língua não é o inglês simplesmente não merecem a mesma atenção na comunidade científica.

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Consequentemente, o leque de temas de investigação que muitos países podem realizar é limitado, e têm de lutar para manter os talentos científicos. Esta constatação é particularmente verdadeira no Médio Oriente, onde os governos estão a envidar esforços para diversificar as suas economias a fim de torná-las mais resilientes. À medida que as revistas de investigação empírica em língua inglesa consolidam o seu domínio sobre os canais que determinam se um investigador terá ou não uma carreira bem sucedida, os países em desenvolvimento terão de investir fortemente nas suas próprias infra-estruturas de dados para colocar os investigadores nacionais numa posição mais competitiva.

No entanto, mesmo que os países em desenvolvimento concretizem tais investimentos (ou especialmente se o fizerem), a ciência perderá muito. Tendo em conta que (em grande medida) as revistas académicas estabelecidas nos EUA dominam a ciência mundial, ninguém tem de se deslocar para fazer parte de uma nova fuga de cérebros, em que as prioridades, os problemas e o métodos de investigação dos investigadores gravitam em torno da epistemologia positivista dominante, em detrimento da todas as alternativas.