Saturday, August 23, 2014
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O Novo Rumo da Turquia

CHICAGO – A Turquia tem estado recentemente na vanguarda dos debates económicos e políticos internacionais. Por um lado, apesar da crise económica que subjuga a vizinha Europa, a Turquia permanece a segunda economia com mais rápido crescimento no mundo, depois da China. Por outro lado, quase não existem questões na agenda global – do Iraque e Afeganistão, à Somália, Irão, e à Primavera Árabe, e do desenvolvimento sustentável ao diálogo entre civilizações – em que a Turquia não represente um papel visível.

Este é um fenómeno bastante recente. Até há uma década, a Turquia era vista como não mais que um firme aliado da OTAN. Isso começou a mudar em 2002, quando nasceu uma era de estabilidade política, dando origem a uma visão para uma Turquia mais forte – e um firme compromisso na realização dessa visão.

Para tal, os governos da Turquia desde 2002 implementaram reformas económicas ousadas, que prepararam o caminho para o crescimento sustentável e forneceram uma barreira de protecção contra a crise financeira de 2008. Como resultado, em menos de uma década, o PIB triplicou, fazendo da Turquia a 16ª maior economia do mundo. Além disso, o país beneficia de finanças públicas fortes, política monetária prudente, dinâmica de dívida sustentável, um sistema bancário sólido e mercados de crédito que funcionam bem.

Ao mesmo tempo, aumentámos o âmbito dos direitos individuais, que tinham durante muito tempo sido subordinados a preocupações de segurança. Simplificámos as relações entre civis e militares, garantimos os direitos sociais e culturais, e encarregámo-nos dos problemas das minorias étnicas e religiosas. Estas reformas transformaram a Turquia numa democracia vibrante e numa sociedade mais estável, em paz consigo, e capaz de observar o seu ambiente externo a uma nova luz.

Muito simplesmente, deixámos de ver a nossa geografia ou história como uma maldição ou uma desvantagem. Pelo contrário, começámos a encarar a nossa localização na encruzilhada entre a Europa, a Ásia e o Médio Oriente como uma oportunidade para interagir simultaneamente com múltiplos intervenientes.

Como resultado, começámos a contactar países na nossa vizinhança e para além dela. Tentámos expandir o diálogo político, melhorar a interdependência económica, e fortalecer o entendimento cultural e social. E, embora dez anos sejam muito pouco para uma avaliação definitiva de uma política tão ambiciosa, cobrimos sem dúvida terreno considerável. Por exemplo, só com os nossos vizinhos, quadruplicámos o nosso volume de comércio.

Em várias ocasiões, também temos sido instrumentais na facilitação da paz e da reconciliação. Mas, o que é mais importante, a Turquia tornou-se um modelo de sucesso que muitos países à nossa volta tentam agora imitar.

E no entanto, até há um ou dois anos, alguns peritos políticos perguntavam, “Quem perdeu a Turquia?” ou “Para onde vai a Turquia?” – partindo da tese que a Turquia mudara o seu eixo da política externa para longe do Ocidente. De facto, a orientação externa da Turquia permaneceu constante, porque assenta nos valores que partilhamos com o mundo livre. O que mudou foi a crescente assertividade nos nossos esforços para assegurar maior estabilidade e bem-estar humano na nossa região, evidente no nosso apoio à liberdade, à democracia, e à responsabilização não só para nós, mas também para outros.

Esta abordagem reflectiu-se na Primavera Árabe, que a Turquia apoiou ardentemente desde o início. Não hesitámos em ficar do lado dos que lutavam pelos seus direitos e dignidade. Na verdade, para países como a Tunísia, o Egipto, a Líbia e o Iémen, que tentam agora institucionalizar a mudança, a Turquia é o seu parceiro mais activo, partilhando a nossa própria experiência e fornecendo assistência tangível na forma de cooperação económica e de construção de capacidade política.

Na Síria, por outro lado, a revolução ainda não se concretizou, devido à repressão brutal do regime sobre os seus oponentes. Todos os dias, dezenas de pessoas morrem aí em busca da dignidade. A Turquia está a fazer tudo o que pode para aliviar o sofrimento do povo Sírio. Infelizmente, até agora a comunidade internacional como um todo não tem conseguido fornecer uma resposta eficaz à crise.

A posição da Turquia quanto ao programa nuclear do Irão tem sido analogamente clara: opomo-nos categoricamente à presença de armas de destruição massiva (ADM) na nossa região. Tentativas para desenvolver ou adquirir ADMs poderão desencadear uma corrida regional aos armamentos, levando a maior instabilidade e ameaçando a paz e segurança internacionais. É por isso que temos sempre pedido a criação de uma zona livre de ADMs no Médio Oriente, incluindo tanto o Irão como Israel.

Apoiamos o direito Iraniano de usar a energia nuclear para fins pacíficos. Mas o programa do Irão deve ser transparente, e os seus líderes devem garantir à comunidade internacional a sua natureza não-militar. A chave reside em colmatar a falta de confiança e preparar o caminho para um diálogo consequente. Em Abril, acolhemos a ronda inaugural das conversações retomadas entre a comunidade internacional e o Irão.

Sejamos claros: não há uma solução militar para este problema. A intervenção militar apenas complicaria ainda mais o assunto, ao criar novos focos de conflito na nossa região e para além dela.

Neste e noutros assuntos, a Turquia tenta agir como uma “potência virtuosa,” o que nos obriga a alinhar os nossos interesses nacionais com valores como a justiça, a democracia, e a dignidade humana, e a conseguir os nossos objectivos de política externa através da cooperação mútua em vez da coerção.

O multilateralismo eficaz constitui uma faceta chave desta visão. A Turquia foi membro do Conselho de Segurança das Nações Unidas em 2009-2010, e procura agora outro mandato em 2015-2016. Dada a importância crucial dos acontecimentos na nossa parte do mundo, a contribuição da Turquia para o trabalho do Conselho promete ser altamente valiosa.

Em 2015, além disso, assumiremos a presidência do G-20, e estamos empenhados em usar os nossos meios e capacidades para torná-lo um órgão de governo global mais eficaz.

A transformação interna da Turquia na última década colocou-a numa posição ideal para beneficiar a região – e consequentemente a comunidade global. Embora tenhamos já conseguido muito, ainda se exige mais de nós. Dados os desafios da nossa vizinhança, e o papel central da região nos assuntos globais, a Turquia não se absterá de assumir novas responsabilidades.

Traduzido do inglês por António Chagas

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  1. CommentedGregory Marthews

    So why refuse to protect one of the last green areas in the metropolitan area? It would seem that there is a problem with overly centralised power if your population is unable to protest against such an impact on the local quality of life.

      CommentedMurat ASLAN

      Mr. gregory please tell me what do you know about turkey? there are more terrorists than the protesters in taksim square!!!! DHKP-C which is called a terrorist group by the usa, DHKP-C just terrorize the area but unfortunately foreign press do not express those events. if you need more information about this event let me know ı will inform you gladly. but ı think you should look at the whole country even the population of istanbul almost 14 million and the protestors not much than 50 thousand for sure. this is just a disgusting game!!!!

  2. Commentedmehmet öz

    if you fervently look for hypocrisy on the world stage, you are likely to encounter such a human vice on the territory of a country located in Asia Minor. it might seem to to you that i am exaggerating the approach Turkey is taking on against its neighbourhood and its citizens at home. it is evident that democracy in Turkey is still in its infancy. Much of what mr. Gul saying concerning Turkey and its vision lacks truth. Because kurdish problem is still on its zeniths. this is a clear indication that Turkey has yet much to go in the way of realizing democracy. Furthermore, Turkey's orientation towards the west is experiencing vital breakups because of the romantic neo-ottoman political views prevalent in the AKP,the ruling party of Turkey.

  3. CommentedShan Jun Chang

    Turkey is probably the best model that exists of a overwhelmingly muslim country with a rights-respecting, open and democratic government. Hopefully other muslim countries in the region see from its success that the benefits of good governance and stability are economic growth, market access, credibility and more leading roles in IGOs. However, no mention of Turkey's EU membership bid in this article, and that's probably because with the ongoing Cyprus spat it's looking unlikely to happen; let's wait and see because the negotations should test the government's professed commitment to justice, freedom and non-coercion.

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