Friday, August 29, 2014
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Ato de equilíbrio da Turquia

East Lansing, Michigan - A Turquia tornou-se, ao longo das últimas semanas, a ponta de lança de uma política ocidental-árabe-turca conjunta que visa forçar o presidente Bashar al-Assad a ceder o poder na Síria. Isto é uma grande reviravolta na política turca porque, nos últimos dois anos, o governo do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan desviou-se do seu caminho para cultivar boas relações com a vizinha Síria, com quem compartilha uma extensa fronteira terrestre.

Esta mudança de rumo na Síria também teve um custo para a Turquia em termos das suas relações com o Irão, o principal defensor do regime de Assad, que a Turquia tinha também cultivado como parte da política “zero problemas com os vizinhos” do ministro das Relações Exteriores Ahmet Davutoglu.

Dadas estas novas tensões, vale a pena relembrar que há apenas alguns meses, muitos líderes americanos estavam furiosos com o que consideravam ser a traição da Turquia. No seu entender, a Turquia tinha reorientado a sua política externa para o Médio Oriente muçulmano e afastado do Ocidente - uma mudança de posição que supostamente se reflete na deterioração das relações do país com Israel e no reforço dos laços com o Irão e a Síria.

Muitos políticos e jornalistas americanos, incapazes ou sem vontade de distinguirem as relações turco israelitas das relações turco americanas, interpretaram a condenação de Erdoğan ao bloqueio de Israel a Gaza como uma tentativa de agradar aos seus vizinhos árabes, em detrimento das relações da Turquia não apenas com Israel mas com o Ocidente em geral. A tentativa da Turquia em servir como mediador entre as principais potências ocidentais e o Irão, no que diz respeito à reserva de urânio da República Islâmica, foi pouco valorizada no Ocidente, na verdade, os Estados Unidos destruíram o esforço, precisamente na altura em que parecia começar a dar frutos. E o voto subsequente da Turquia no Conselho de Segurança das Nações Unidas contra a imposição de sanções adicionais ao Irão parecia oferecer mais uma prova de que a Turquia tinha adotado uma política externa “islâmica”.

A ansiedade dos Estados Unidos assumiu que é uma contradição, para a Turquia, procurar boas relações com o Ocidente e com o Médio Oriente muçulmano e que a decisão de Ancara para melhorar as suas relações com os vizinhos muçulmanos foi motivada, principalmente, por preocupações religiosas e ideológicas consideradas importantes pelo Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), atualmente no poder. As recentes relações tensas entre a Turquia e o Irão demonstram esta pressuposta falácia básica e apontam para uma política externa não-ideológica que atende os interesses nacionais turcos, conforme definidos pela elite política do país - incluindo os pós-islamistas que estão hoje no poder.

A divergência entre a Turquia e o Irão [estava] inicialmente centrada nas suas abordagens contraditórias à rebelião interna contra a ditadura de Assad. O Irão investiu fortemente no regime de Assad, o seu solitário aliado árabe e principal via para a distribuição de apoio material a Hezbollah no Líbano. A Turquia, por outro lado, depois de alguma hesitação inicial, decidiu apoiar totalmenteos opositores de Assad, nomeadamente facultando refúgio tanto a eles como aos desertores do exército da Síria. Na verdade, a Turquia tem ido mais longe, ao ajudar a oposição síria dividida a unir-se no seu território, para estabelecer uma frente comum contra o regime de Assad e fornecer uma alternativa credível.

A Turquia alterou abruptamente a sua posição em relação à Síria e alinhou a sua posição com as principais potências ocidentais, por duas razões. Primeira, o Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), atualmente no poder, não se pode dar ao luxo de ser visto como opositor à democracia na Síria, uma vez que sua própria legitimidade depende muito da sua credibilidade democrática. Segunda, uma vez que o governo de Erdoğan concluiu que o regime de Assad estava prestes a cair, pretendeu assegurar os seus futuros interesses na Síria, que são de importância estratégica para a Turquia - mesmo que o preço a pagar seja pôr em risco as relações com o Irão.

O descontentamento do Irão face à “traição” da Turquia a Assad foi agravado pela recente decisão do governo de Erdoğan em instalar radares do sistema antimíssil da NATO - destinados a monitorizar a atividade de mísseis iranianos - em Malatya, no leste da Turquia. De acordo com autoridades iranianas, o sistema da NATO visa neutralizar a capacidade de dissuasão num face a face com Israel, aumentando assim a probabilidade de um ataque israelita ou norte-americano contra instalações nucleares iranianas. As autoridades iranianas chegaram ao ponto de alertar a Turquia de que iriam fazer da instalação em Malatya o seu primeiro alvo, como forma de retaliação por um ataque ocidental ao Irão.

Na realidade, Israel pode controlar a atividade de mísseis iranianos de vários lugares para além de Malatya. A ameaça do Irão é, portanto, mais uma expressão de descontentamento com a Turquia do que uma preocupação genuína perante o facto de que a instalação de Malatya afetará negativamente a sua capacidade de dissuasão.

As tensões turco iranianas refletem três grandes realidades. Primeira, a Primavera Árabe e sobretudo a revolta síria revelaram as rivalidades ocultas, dos dois lados, para a influência no Médio Oriente e no mundo árabe. Segunda, a viragem da Turquia para o leste não tem inspiração ideológica ou religiosa, mas é, em vez disso, baseada numa sólida estratégia e em cálculos económicos; enquanto a situação fluida no Médio Oriente continuar a desenvolver-se, a Turquia adaptará as suas políticas em conformidade. Finalmente, a Turquia tem investido demasiado nas suas relações estratégicas com a NATO e com os EUA em particular, para as desperdiçar em troca de ganhos incertos nas relações com o Irão.

Isto não significa que a Turquia retornará à sua tradicional dependência estratégica com os EUA e os seus aliados, uma abordagem que definiu a política externa turca durante a Guerra Fria e na década seguinte. O governo do AKP está comprometido com a autonomia estratégica do país e com o grandioso ativismo no Médio Oriente. Mas também está consciente de que tais políticas não devem custar a relação da Turquia com a NATO e com os EUA.

A Turquia está envolvida num intrincado esforço para preservar a sua antiga relação com o Ocidente, ao mesmo tempo que constrói novos laços com os seus vizinhos muçulmanos. Os líderes da Turquia entendem que o país pode preservar melhor e reforçar a sua influência com os dois lados, ao manter boas relações com ambos.

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