Wednesday, August 27, 2014
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A cura errada de austeridade

BERKELEY - O desregramento orçamental não causou a crise da dívida soberana que afecta a Europa; e a austeridade orçamental não irá resolvê-la. Pelo contrário, tal austeridade agravou a crise e agora ameaça derrubar o euro e atirar a economia mundial para uma queda livre.

Em 2007, a Espanha e a Irlanda foram modelos de disciplina orçamental, com rácios de dívida do PIB muito mais baixos do que o da Alemanha. Os investidores não estavam preocupados com o risco de incumprimento da dívida soberana espanhola ou irlandesa; ou com a dívida soberana, cronicamente grande, da Itália. Na verdade, a Itália gabava-se de ter o rácio do défice público, em relação ao PIB, mais baixo da zona euro e o governo italiano não teve qualquer problema no refinanciamento com taxas de juros atractivas. Até mesmo a Grécia, apesar da rápida redução da sua competitividade e da sua trajectória orçamental cada vez mais insustentável, poderia atrair o capital necessário.

Iludidos pela convergência dos rendimentos das obrigações que se seguiram ao lançamento do euro, os investidores alimentaram uma década com um “boom” no crédito do sector privado, nos países periféricos da Europa menos desenvolvidos, e não conseguiram reconhecer as bolhas imobiliárias em Espanha e na Irlanda e o deslize da Grécia rumo à insolvência. Quando o crescimento desacelerou acentuadamente e os fluxos de crédito entraram em colapso na sequência da Grande Recessão, as receitas orçamentais diminuíram, os governos foram forçados a socializar com o passivo do sector privado e a dívida e os défices orçamentais dispararam.

Com a excepção da Grécia, a deterioração das finanças públicas foi um sintoma da crise, não a sua causa. Além disso, a deterioração era previsível: a história mostra que o nível real da dívida pública explode no início das recessões provocadas por crises financeiras.

Sem prestar atenção às evidências, os líderes europeus, dirigidos pela Alemanha, diagnosticaram erroneamente o problema como sendo um do desregramento orçamental para o qual a austeridade dolorosa é a única cura. Neste ponto de vista, as reduções significativas e rápidas nas dívidas e nos défices públicos são uma pré-condição para restaurar a credibilidade do governo e a confiança dos investidores, resultantes de contágio, descendo as taxas de juros e estimulando o crescimento económico.

Há também o aspecto do risco moral para o argumento da austeridade: facilitar os prazos de reembolso para os governos perdulários só vai encorajar um comportamento irresponsável no futuro - perdoar pecados passados perpetua o pecado. Além disso, os credores virtuosos não devem resgatar mutuários irresponsáveis, sejam eles privados ou públicos. Nesta perspectiva, a austeridade é a penitência necessária e justa para os reprovados como a Grécia, a Espanha e a Itália.

Mas a austeridade não está a funcionar; na verdade, é contraproducente. A curto e médio prazo, a consolidação orçamental – seja sob a forma de cortes na despesa pública, seja sob a forma de aumento das receitas – resulta numa menor produção e em menos emprego, o que significa menor cobrança de impostos, défices mais elevados e a escalada da dívida em relação ao PIB. Os investidores experientes, como os eleitores frustrados, reconhecem que o baixo crescimento e o elevado desemprego alargam realmente os défices e agravam a dívida a curto prazo. É por isso que, após mais de dois anos, as taxas de juros estão a subir, e não a descer, nos países esmagados por medidas de austeridade onerosas.

Na verdade, não há nenhuma relação simples entre a dimensão da dívida ou do défice público e a taxa de juro que deve pagar. Os títulos da dívida pública britânica oferecem actualmente taxas de juro mais baixas do que os de França, da Itália ou da Espanha, mesmo que a situação orçamental do Reino Unido seja consideravelmente pior.

A Grécia foi apanhada na clássica armadilha do endividamento, uma vez que a taxa de juro da sua dívida pública aumentou substancialmente para além da sua taxa de crescimento, por uma margem considerável; Espanha está na corda bamba. A austeridade na Europa confirmou o alerta do Fundo Monetário Internacional de que a exagerada consolidação orçamental enfraquece a actividade económica, mina a confiança do mercado e diminui o apoio popular para o ajuste.

No longo prazo, muitos países da zona euro, incluindo a Alemanha, exigem a consolidação orçamental, a fim de estabilizarem e reduzirem os rácios da dívida pública em relação ao PIB. Mas o processo deve ser gradual e concentrado – com grande parte da consolidação a chegar depois das economias da Europa regressarem a uma trajectória de crescimento sustentável.

As reformas estruturais são também necessárias na maioria das economias europeias para reforçarem a competitividade e aumentarem o crescimento potencial. Mas tais reformas levam tempo: A chanceler alemã Angela Merkel parece ter esquecido que demorou mais de uma década e aproximadamente 2 biliões de euros (2,5 biliões de dólares), em subsídios para as reformas estruturais, para tornar a antiga Alemanha de Leste competitiva com o resto do país.

O primeiro-ministro italiano Mario Monti e o presidente francês François Hollande têm razão: A Europa precisa de políticas coordenadas e ousadas para promover o crescimento, juntamente com reformas estruturais baseadas no mercado para promover a concorrência e uma flexibilização das metas orçamentais, até recuperar a produção e o emprego.

Mas como é que novas iniciativas importantes de crescimento podem ser financiadas? A realidade é que o resto da Europa não pode ter êxito na restauração do crescimento sem a Alemanha e a Alemanha permanece fiel à cura de austeridade.

Com um défice orçamental modesto, custos de empréstimos em mínimo recorde e um enorme excedente de conta corrente, a Alemanha tem o poder financeiro para despoletar um estímulo significativo. Mas a Alemanha não vê necessidade em estimular a sua própria economia e está disposta a considerar apenas medidas modestas da zona euro, tais como capital adicional para o Banco Europeu de Investimento, um pequeno programa-piloto de “project bonds” da União Europeia para o investimento em infra-estruturas e uma mais rápida distribuição de fundos estruturais não utilizados da UE. A Alemanha recusa-se até mesmo a permitir que os gastos em projectos de infra-estruturas de prioridade elevada sejam dispensados das metas irrealistas do défice definidas pelo novo “pacto orçamental” da UE.

Apesar dos apelos do FMI e da OCDE, a Alemanha também permanece implacavelmente contra os “Eurobonds”, que poderiam aliviar as restrições de financiamento de outros membros da zona euro e reforçar os recursos do mecanismo europeu de estabilidade, que actualmente não oferece um “firewall” credível contra um contágio da dívida soberana espanhola ou italiana – ou dos bancos europeus que a detêm. Na verdade, o agravamento da crise bancária, com depósitos que fogem da periferia da zona euro, está a asfixiar ainda mais as perspectivas de crescimento da Europa.

Talvez seja tarde demais para salvar a Grécia. Mas uma mudança na direcção de políticas para promover o crescimento, apoiado pela flexibilização das metas do défice e pela emissão de “eurobonds”, é essencial para restabelecer a Europa que se encontra à beira da recessão prolongada, para estabilizar os mercados financeiros da Europa e para evitar outra perturbação significativa nos mercados mundiais de capital.

Tradução: Deolinda Esteves

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  1. CommentedRoss Clem

    The ability of government to repay its debt determines the interest rate on its debt. Government must increase its income by increasing revenue based upon the growth of the private sector; or it must reduce the cost of government.


  2. Commentedjracforr jracforr

    The first sentence of this article stated that fiscal recklessness was not the cause of the debt crisis and it gave examples of the well managed !!?? Spanish and Irish governments. By the third paragraph it gave blatant examples of fiscal recklessness taking place in these countries, which created the the real-estate bubble.
    The governments of these countries derived tax revenues from these speculative investments done by the private sector and were conveniently blind to the
    looming danger they posed .
    The " governments were forced to socialize private-sector liabilities " when the speculative boom collapsed.
    " From this perspective austerity is the necessary and just penance for reprobates like Greece ,Spain and Italy'
    While this approach maybe morally correct it is economically suicidal as the article makes clear, so some burden sharing is inevitable.

  3. CommentedJephtah Lorch

    I beg to differ with Ms Tyson on the basics of the European (and not only) fiscal problem.

    The term 'growth' is used far to easily. Growth depends on household consumption, what is manufactures, shipped, serviced, etc. Yet, household spending is shrinking and has been doing so for many years. This is especially true in Europe where the population is getting older, birth rates are under 1.8 pointing at an inevitable future shrink, many immigrants are net expenses and, very important, a massive shift of jobs to SE Asia took place.

    I fail to understand how investments in infrastructure will provide more future jobs: people lack financial resources to use such infrastructure, it creates only short term government spending (serving very specific sectors), boosts profits of infrastructure contractors and return some of the government's funds as taxes. This will not create long term increase of all households income and respective cosumerism that fuels growth.

    Issuing EURO Bonds is another laundered way to increase public debt. Public debt is huge as is, especially when compared to long term earning potential in shrinking populations and economies. These will affect GDP's mostly due to internal cash transfer 'inside the family', rather than from real manufacturing, production and exports.

    Economists, who don't want to be carriers of bad news, need to face the fact that this balloon has inflated to its limits much like Japans 1990s' real-estate crash which froze the economy for over a decade. A new order will come to life and should be put in place. It should avoid repeating the errors that brought us to where we are. It should consider the realistic posibilty that economies will shrink, standard of living will be reduced and that globalization shifted riches from west to east.

  4. CommentedTh Hsu

    There seems to be an interesting gap between the underlying issues and proposed cures.

    Spain's growth was built on an unsustainable increase in real estate "value". Italy and France's economy are overloaded with regulations and a costly public service. Greece simply cheated it's neighbours throughout years. And Germany was happy too to increase debt beyond agreed levels when needed. So where is the solidarity aspect which has been so oft brought up by the EU leaders? It seems that in this UNION, everyone has been (and will be) maximizing their local interests.

    If this is the underlying problem, it is hard to believe that neither austerity nor the growth "concept" will be a sustainable solution.

    This crisis is an example to the thesis that in the real world, fiscal and monetary union are two parts of the same coin. Pull them apart and ...

  5. CommentedHelmut Kirchner

    Just some info from ITALY

    Nowadays it is usual to say that austerity is the wrong cure that worse the disease. For what I see in Italy I do not see any "austerity". This word, long time ago, means spending more wisely and do more with less.

    What I see in Italy is the same level and the same low quality of public spending but a new and extreme, I repeat extreme fiscal pressure.

    So there is no way to recover! In fact Italy is already in a depression even if no one dime of public spending has been reduced.

    Sorry, but the Germans are right.



  6. CommentedJames Edwards

    In response to Mark Pitts

    While it is true that most of these countries are in need of reform on a range of issues however when you get into the issue of politics, the tendency to skirt responsibility is magnified by the desire to win and pin blame on the other side.

    You ignored the cause of the problem in the first place and that problem stems from issuance of easy credit to finance whatever the wants are which Ms. Tyson addressed here and that has been going on since the late 1980s until the bubble popped in 2007. Many of the banks and Wall Street were eager to do it because it offers them opportunities to make money and securitization provided the avenue to generate all kinds of variable products never mind the risk because it is someone else's problem to solve hence why many governments bailout their financial institutions because letting it fail will cause a bigger problem. What I don't see is the needed reforms the banks should be imposing on itself to correct the defect they created in the first place. Just like Ms Tyson stated: the deterioration was predictable.

    I can understand Germany's view that needed reforms are needed however the EU consist of rich and poor nations, just like what we have in the US but on a different level however the each of the countries are wedded to the Euro and they can not do anything beyond making painful adjustment which is why Merkel's party lost two state elections and Mr. Hollande's victory caused her of modify her stance just to keep the Euro intact. Germany's solution sounds like a one size fits when it is several things going at the same time.

    You state it is a recession when it is really a Depression caused by the financial crisis and even model countries needs a bailout unless they enacted reform to prevent from happening in years prior to 2007.

  7. CommentedMark Pitts

    In rebuttal to Ms. Tyson’s argument, one only needs to reiterate many of the points already made by the Germans. For example:

    1) The issuance of Eurobonds relieves other nations of the need to make painful and unpopular reforms. Eurobonds mean reforms will not be made, interest rates will once again be equalized in the EU, and excessive borrowing in the peripheral countries will resume.

    2) Debtor countries already receive substantial aid or have access to it, but still resist implementing reforms that will lead to growth and competitiveness.

    3) Mr. Hollande, the newest voice for growth and reforms, has pledged to lower the French retirement age back to 60. That will make French public finances worse and add nothing to GDP or competiveness. These are the kind of “reforms” the Germans are worried about.

    4) Ms. Tyson states that Spain and Ireland were models of fiscal rectitude before the recession. She then points out, “The reality is that the rest of Europe cannot succeed in restoring growth without Germany.” There is an obvious contradiction here. Model countries do not require bailouts from other countries when recessions hit.

    To understand the German point of view, Americans need only convert the numbers involved to an equivalent in the US economy. For example, it has been estimated that the cost of bailing Spain’s banks and governmental units will cost around $350B. Would Americans be willing to bail out Mexico at a cost of $1.25 trillion, knowing that other countries in the region would soon line up for their bailouts as well?

    Finally, it is unfair to discredit the German position by equating it to moral or religious vengeance. As a result of their economic history, Germans may have different beliefs about the likely outcomes of certain policies than others do. However, there are many mainstream economists who question the simplistic Keynesian solution as well.

  8. CommentedZsolt Hermann

    The suggestions from the article sound logical.
    One question though: where would further growth come from?
    When will we become brave enough to face the facts that our present constant quantitative growth economic model, that is built on overproducing and over consuming excessive, unnecessary products, buying them beyond means requiring more and more credit, has exhausted itself due to multiple converging factors and this is why we are in a crisis, or more precisely system failure?
    Until we are ready to open up the root cause of the disease we cannot even hope for a cure.

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