Thursday, October 23, 2014
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Os vencedores (relativos) da nova economia mundial

CAMBRIDGE - A economia mundial enfrenta uma incerteza considerável a curto prazo. Será que a zona euro conseguirá resolver os seus problemas e evitar uma dissolução? Será que os Estados Unidos construirão um caminho para um relançamento do crescimento? Será que a China encontrará uma forma de reverter o seu abrandamento económico?

As respostas a estas perguntas irão determinar como é que a economia mundial evoluirá ao longo dos próximos anos. Mas, independentemente da forma como esses desafios imediatos são resolvidos, está claro que a economia mundial está também a entrar numa nova fase difícil a longo prazo - uma fase que será substancialmente menos hospitaleira para o crescimento económico do que possivelmente qualquer outro período, desde o final da Segunda Guerra Mundial.

Independentemente da forma como irão lidar com as suas dificuldades actuais, a Europa e os EUA sairão da situação com dívidas elevadas, baixas taxas de crescimento e políticas internas contenciosas. Mesmo no melhor cenário, no qual o euro permanece intacto, a Europa ficará atolada na árdua tarefa de reconstruir a sua união desgastada. E, nos EUA, a polarização ideológica entre democratas e republicanos continuará a paralisar a política económica.

De facto, em praticamente todas as economias avançadas, os altos níveis de desigualdade, as tensões na classe média e o envelhecimento da população irão alimentar conflitos políticos num contexto de desemprego e de escassez de recursos fiscais. À medida que estas velhas democracias se concentram cada vez mais nelas próprias, elas tornar-se-ão parceiras menos úteis a nível internacional - menos dispostas a sustentar o sistema de comércio multilateral e mais prontas a responder unilateralmente às políticas económicas, em qualquer lugar suspeito de ser prejudicial aos seus interesses.

Enquanto isso, os grandes mercados emergentes, como a China, a Índia e o Brasil não são susceptíveis de preencher o vazio, uma vez que se manterão empenhados em proteger as suas soberanias nacionais e os seus espaços de manobra. Como resultado, as possibilidades de cooperação mundial, no que diz respeito a questões económicas e outros assuntos, ficarão mais longínquas.

Este é o tipo de ambiente mundial, que diminui o potencial de crescimento de cada país. A aposta segura é que não veremos um retorno do tipo de crescimento que o mundo - especialmente do mundo em desenvolvimento - vivenciou nas duas décadas anteriores à crise financeira. É um ambiente que irá produzir profundas disparidades no desempenho económico em todo o mundo. Alguns países serão muito mais prejudicados do que outros.

Aqueles que serão menos prejudicados irão partilhar três características. Primeiro, não serão sobrecarregados com elevados níveis de dívida pública. Segundo, não estarão excessivamente dependentes da economia mundial e o factor impulsionador dos seus crescimentos económicos serão internos, em vez de externos. Finalmente, serão democracias resistentes.

Ter níveis de dívida pública baixos a moderados é importante, porque os níveis de dívida que atingem os 80-90% do PIB tornam-se num grave empecilho para o crescimento económico. Imobilizam a política fiscal, conduzem a graves distorções no sistema financeiro, originam lutas políticas em assuntos de tributação e incitam conflitos de distribuição dispendiosos. Os governos que estão preocupados com a redução da dívida, não são susceptíveis de realizarem os investimentos necessários para a mudança estrutural a longo prazo. Com poucas excepções (como a Austrália e a Nova Zelândia), a grande maioria das economias avançadas do mundo está ou estará em breve nesta categoria.

Muitas economias de mercado emergentes, tais como o Brasil e a Turquia, conseguiram controlar o crescimento da dívida pública, desta vez. Mas não impediram uma orgia de empréstimos nos seus sectores privados. Uma vez que as dívidas privadas têm maneira de se transformarem em passivos públicos, um baixo nível do fardo da dívida pública pode, na verdade, não dar a estes países a almofada que eles julgam ter.

Os países que dependem excessivamente dos mercados mundiais e das finanças globais para alimentarem os seus crescimentos económicos também ficarão em desvantagem. Uma economia mundial frágil não será hospitaleira para o grande número de devedores estrangeiros em termos líquidos (ou o grande número de credores estrangeiros em termos líquidos). Os países com elevados défices da balança de transacções correntes (como é o caso da Turquia) permanecerão reféns do sentimento nervoso do mercado. Os que têm elevados excedentes (como é o caso da China) estarão sob crescente pressão - incluindo a ameaça de retaliação - para controlarem as suas políticas “mercantilistas”.

O crescimento, induzido pela procura interna, será uma estratégia mais segura do que o crescimento induzido pelas exportações. Isso significa que os países com um grande mercado interno e com uma classe média próspera terão uma vantagem importante.

Finalmente, as democracias funcionarão melhor, porque têm os mecanismos institucionalizados para a gestão de conflitos, que os regimes autoritários não têm. As democracias semelhantes à da Índia podem, às vezes, parecer caminhar muito lentamente e terem predisposição para o imobilismo. Mas elas fornecem espaços de troca de opiniões, de cooperação e de "dar e receber" entre grupos sociais adversos, que são cruciais nos momentos de turbulência e de confrontos.

Na ausência de tais instituições, o conflito distributivo pode facilmente passar a protestos, tumultos e desordem civil. É neste ponto que a democracia da Índia e da África do Sul tem vantagem sobre a China ou a Rússia. Os países que têm caído nas garras de líderes autocráticos - por exemplo, a Argentina e a Turquia - estão também, cada vez mais, em desvantagem.

Um importante indicador da magnitude dos desafios da nova economia mundial é o facto de haver tão poucos países que satisfaçam os três requisitos. De facto, algumas das mais espectaculares histórias de sucesso económico do nosso tempo - da China em particular - não cumpre mais do que um. Serão tempos difíceis para todos. Mas alguns - creio que o Brasil, a Índia e a Coreia do Sul - estarão em melhor posição do que os restantes.

Tradução: Deolinda Esteves

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  1. CommentedZsolt Hermann

    I think the key to the question the article tries to answer is in the understanding what a global, interdependent world means.
    Can we talk about individual nations, countries succeeding, or losing independently from others in an integral, interdependent system?
    Today we exist in such a tightly interlocked network that our fate is totally tied together.
    The three characteristics mentioned in the article do not work in this system.
    Due to the excessive overproduction/over consumption economic, that fully relies on credit, everybody, individuals and nations alike are already in debt or are heading that way.
    Our finances, economies and other human institutions are so much interdependent, globalization is so deep that there is no country that would not be dependent on world economy, nobody is capable of being independent, sustaining itself today.
    Regarding "democracies" we also learn that western style democracy is also basically serving a small dominant minority, probably in a less obvious way than other governing structures, but still causing the same or even bigger social inequality than other structures inevitably leading to tensions, breaking points within society.
    As many times mentioned these days, we are all sitting on the same boat. Either we all figure out what caused this global crisis and how we all need to change, working together, each element supporting the others and the whole system corresponding to the laws of integral systems, or we are all going to sink deeper into crisis until the intolerable suffering will force us to start changing ourselves.

  2. CommentedMoctar Aboubacar

    This point looks like it could use a little more support. What specifically about recent changes in the global economy makes democracy a critical factor in determining which countries will do relatively better down the road?

    Are distributive conflicts that much more intense? And if so, are democratic processes currently showing good results in curbing these conflicts and civil disorder?

    Are the spaces of discussion that strong democracies provide crucial... in overcoming turbulence and shocks?

    I have a hard time seeing on one hand, countries with democratic traditions using them to overcome the current financial crisis, and also, that same space managing to play a crucial role in recovery from crises. In the South Korean case it seems that the rapid recovery from crisis 15 years ago was done in large part at the expense of principles of consultation and cooperation. I wish nothing more than to be convinced.

  3. CommentedPaul A. Myers

    I disagree with the "three characteristics" hypothesis. Rather the relative winners tomorrow will be those countries that are able to borrow today publicly and privately to fund infrastructure and social investments in tomorrow's international comparative advantages for their countries. These countries will come out of this slow growth period with tremendously strengthened international trade advantages that can power strong domestic growth.

    Today is a time when shrewd countries will place down large investments on tomorrow's opportunities.

    Which countries "see" their opportunities and how they invest in them will be fascinating to watch.

    Yes, countries mired down in high levels of public consumption will wallow around and fall behind. One can guess who they will be. But who will win? Much harder to discern.

      CommentedDaniel Samsic

      Interesting point, I totally agree with Mr. Myers:

      'Today is a time when shrewd countries will place down large investments on tomorrow's opportunities.
      Which countries "see" their opportunities and how they invest in them will be fascinating to watch.'

      By risking a lot of boo-ing from the P-S audience because all the economists have learned in the university the principle of the "big bang for the buck" NOW, not tomorrow or next generation, by contrary, a "sustainable development" (sorry to use this cliché hated by the economists) is based on another principle: "a half buck for the bang now and a half buck tomorrow or next generation".

      The good news is that addressing the long-term "sustainable" problems would actually help to solve the short-term economic problems.
      Indeed... 'Which countries "see" their opportunities and how they invest in them will be fascinating to watch'.
      See:
      http://world-at-a-crossroads.blogspot.ca/

      Thanks.
      ds

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