13

O Milagre Indiano Está Vivo

NOVA DELI – A crer no que algumas pessoas dizem, a rosa económica Indiana deixou de florescer. Considerado até recentemente como a próxima história de grande sucesso, o país tem sido ultimamente assediado por más notícias.

Abundam relatos de fugas de investidores (principalmente devido a uma lei fiscal retroactiva implementada este ano para cobrar impostos sobre as transacções externas das empresas Indianas); de inflação crescente, à medida que sobem os preços dos alimentos e dos combustíveis; e de lutas políticas internas, que atrasaram uma nova política de permissão do investimento directo estrangeiro no sector do comércio retalhista da Índia. Há quem tenha mesmo declarado que a “história Indiana” terminou.

Mas o pessimismo de hoje é tão exagerado quanto era empolado o optimismo de ontem. Mesmo enquanto o mundo enfrenta uma crise económica e uma recessão globais sem precedentes, com a maior parte dos países a sofrer taxas de crescimento negativas em pelo menos um trimestre nos últimos quatro anos, a Índia permanece a potência económica com o segundo crescimento mais rápido do mundo, depois da China.

Têm sido citadas muitas razões para este sucesso. Os bancos e as instituições financeiras da Índia não caíram na tentação de comprar títulos financeiros garantidos por hipotecas e de se envolver no sofisticado comércio de derivados que arruinou várias instituições financeiras Ocidentais. E, embora a exportação de mercadorias da Índia registasse declínios de cerca de 30%, a exportação de serviços continuou a comportar-se bem. Além disso, as remessas de Indianos no exterior permanecem robustas, subindo de 46,4 mil milhões de dólares em 2008-2009 para 57,8 mil milhões de dólares em 2010-2011, com a maior parte provindo da comunidade de operários Indianos expatriados no Golfo.

Finalmente, o sector externo é responsável por apenas 20% do PIB da Índia. A maior parte da economia é um assunto interno: Indianos que produzem bens e serviços para outros Indianos consumirem na Índia.

O sector privado Indiano é eficiente e empreendedor, e compensa as inadequações do estado. (Uma piada antiga sugere que a economia Indiana cresce de noite, enquanto o governo dorme.) A Índia é boa a canalizar a poupança interna para investimentos produtivos, e é por isso que tem dependido tão pouco do investimento directo estrangeiro, e está até a exportar capital para os países da OCDE, onde é perfeitamente capaz de controlar e gerir activos em mercados financeiros sofisticados. Na verdade, a Índia, berço da mais antiga bolsa de valores na Ásia e uma democracia florescente, tem os sistemas básicos de que necessita para operar uma economia do século vinte e um num mundo aberto e globalizante.

Há outras razões para confiar que a Índia ultrapassará a tempestade. Não só a Índia tem recursos próprios consideráveis para canalizar em investimentos; à medida que a persistência da recessão global diminuir os rendimentos no Ocidente, os investidores estrangeiros olharão novamente para a Índia.

Contudo, muitos estão inclinados a comparar desfavoravelmente a Índia com a China, e por isso vale a pena considerar alguns indicadores macroeconómicos. Metade do crescimento da Índia provém do consumo interno, e menos de 10% provém da procura externa; em contraste, 65% do verdadeiro crescimento do PIB da China provém das exportações, e apenas 25% do consumo interno. A China é portanto muito mais vulnerável a choques externos.

Além disso, a Índia tem a mais alta taxa de poupança das famílias na Ásia, com 32% do rendimento disponível. De facto, as famílias são responsáveis por 65% das poupanças nacionais anuais da Índia, comparado com menos de 40% na China. O crédito mal parado atinge apenas 2% das carteiras de crédito dos bancos Indianos, contra 20% na China. E a oferta de mão-de-obra na Índia tem crescido a quase 2% por ano na última década, ao passo que a da China cresceu a menos de 1%.

Pondo de lado a China, a economia da Índia cresceu 6,5% em 2011-2012, com os serviços a subirem 9% e a corresponderem a 58% do crescimento do PIB da Índia – um factor de estabilização numa altura em que um mundo em recessão não pode dar-se ao luxo de comprar mais bens manufacturados.

A McKinsey & Company estima que a classe média Indiana cresça para 525 milhões em 2025, 1,5 vezes o tamanho previsto da classe média dos EUA. De acordo com o recenseamento do ano passado, os 247 milhões de núcleos familiares do país, dois terços dos quais são rurais, registaram um aumento na taxa de alfabetização para 74%, de 65% em 2001. Só nos últimos dois anos, foram abertas 51,000 escolas e nomeados 680,000 professores.

Uns impressionantes 63% de Indianos têm agora telefone, uma subida dos apenas 9% de há uma década; 100 milhões de novas ligações telefónicas foram estabelecidas no ano passado, incluindo 40 milhões em áreas rurais; e a Índia tem agora 943,5 milhões de ligações telefónicas. Quase 60% dos Indianos têm uma conta bancária (na verdade, mais de 50 milhões de novas contas bancárias foram abertas nos últimos três anos, principalmente na Índia rural).

Cerca de 20.000 MW de capacidade adicional de produção de energia foram adicionados no ano passado, com 3,5 milhões de novas ligações eléctricas na Índia rural. Como resultado, 8.000 aldeias tiveram energia pela primeira vez no ano passado, e 93% dos Indianos em vilas e cidades têm agora pelo menos algum acesso a electricidade.

Todas estas tendências são bons augúrios para o futuro económico da Índia. E não estão a abrandar: a Índia está à procura de 1 bilião de dólares para desenvolvimento de infra-estruturas durante os próximos cinco anos, a maior parte sob a forma de parcerias público-privadas. Isto oferece oportunidades altamente excitantes para os investidores.

A verdadeira situação do progresso insistente é muito distante da percepção de um governo afligido pela inacção e paralisia política. Como o Primeiro-Ministro Manmohan Singh define modestamente: “Serei o primeiro a dizer que precisamos de fazer melhor. Mas que ninguém duvide de que conseguimos muito.”

Traduzido do inglês por António Chagas