Friday, November 21, 2014
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Os Maus Ventos do Ocidente

NOVA DELHI – Há quatro anos, no nadir da crise financeira, muitos governos Asiáticos acreditaram que o seu crescimento robusto levara a uma quase-“dissociação” das suas economias relativamente ao Ocidente e aos seus problemas persistentes. Mas agora, à medida que a zona euro vacila e a recuperação da América enfraquece, também a Ásia mostra sinais de fraqueza.

Alguns políticos asiáticos culparão, convenientemente, o Ocidente por quaisquer abrandamentos do crescimento. Mas o seu falhanço em concretizar as necessárias reformas estruturais e oportunidades económicas é igualmente responsável, se não mais, pelas crescentes dificuldades da região.

Consideremos a Índia. De acordo com o boletim International Market Assessment (Avaliação Internacional de Mercados – NdT), “os fluxos de capital que secaram não são… um reflexo das condições de mercado globais,” mas de uma perda de confiança entre investidores, decorrente principalmente da má gestão fiscal, que levou a “instabilidade de preços, investimentos em queda e eventualmente a um declínio no… crescimento.” Com o “governo em dormência,” conclui o IMA, “A Índia está rapidamente a perder o rumo.”

A situação da Índia é deveras preocupante. A inflação de dois dígitos no preço dos produtos alimentares tem sido acompanhada pelo debate sobre a parte de Indianos que vive abaixo da linha de pobreza e, até, sobre onde a linha da pobreza deveria ser traçada. As estatísticas oficiais usam um rendimento diário médio de 32 rupias (0,57 dólares) para separar os meramente pobres dos desesperadamente empobrecidos.

Em vez de abordar o paradoxo central da sociedade Indiana contemporânea – pobreza no meio da abundância – o governo da India enterrou a cabeça na areia. Proclama reformas ousadas, que depois repudia antes de a tinta secar. Ainda pior, a crescente corrupção oficial está a minar o dinamismo do sector privado.

Mas a India não é a única em dificuldades. A China, também, teme um abrandamento do crescimento e uma inflação salarial crescente. Em resposta, o banco central da China está a diminuir as taxas de juro para incentivar o investimento interno, e a resultante desvalorização da taxa de câmbio do renminbi tem ajudado a manter o nível das exportações. Mas os números das importações Chinesas para a primeira metade deste ano chegaram a um patamar, sugerindo que as empresas Chinesas não estão a investir em novos equipamentos – e que a economia da China pode estagnar em breve.

Embora os seus sistemas políticos sejam opostos especulares, há paralelos marcantes em alguns dos mais profundos problemas estruturais da China e da Índia. Ambos os países encetaram reformas – a China na década de 1980 e a Índia na década de 1990 – que descentralizaram a tomada de decisão, e ambos progrediram rapidamente. A Índia foi compelida pela sua democracia a perseguir uma rota politicamente descentralizadora, enquanto muita da autoridade de tomada de decisão económica permaneceu implantada na burocracia ossificada de Nova Delhi, atrasando o crescimento. Em contraste, a China conseguiu a descentralização económica, mas preservou o poder político centralizado, transferindo as responsabilidades da gestão económica em grande medida para funcionários provinciais, o que criou os seus próprios desequilíbrios.

Portanto, mesmo quando a China é compelida a reorientar-se das exportações para o consumo interno de modo a sustentar o crescimento, a Índia continua a depender no investimento interno, exportação de serviços e matérias-primas e menores défices fiscais e de contas correntes para manter o seu crescimento. Mas o seu défice mais danoso reside no governo, tal como no caso da China, onde o escândalo de Bo Xilai expôs a patológica face obscura da apregoada liderança tecnocrática da China.

No resto da Ásia, os problemas estruturais também estão a crescer. No Vietname, a inflação tem pairado pelos 20% ou mais, com o governo aparentemente relutante a abraçar reformas mais profundas. O interminável imbróglio político da Tailândia deixou a sua economia em velocidade zero; o zelo reformista do Presidente Indonésio Susilo Bambang Yudhoyono tem vindo a desaparecer no seu segundo mandato, após a partida do Ministro das Finanças Sri Mulyani Indrawati; e o Japão parece continuar num estado de animação suspensa.

O mal-estar da Europa, e o resultante aumento de políticas populistas, sugere que os governos da Ásia não se possam dar ao luxo de aproveitar os louros do seu crescimento. Na verdade, deviam atentar num recente comentário de Pavlos Eleftheriadis, da Universidade de Oxford, sobre um eleitorado Grego “lívido por ser conduzido por aqueles que desonestamente causaram o problema.” Na verdade, de acordo com Eleftheriadis, os cobradores de impostos na Grécia deparam-se hoje com cidadãos armados de chicotes. Essa situação é parecida com a que se vive hoje na Índia.

Há ideias usadas a circular pela Ásia que poderiam sustentar e promover o crescimento. A decisão recente dos líderes da China, do Japão e da Coreia do Sul para iniciar conversações num acordo trilateral de comércio livre entre, respectivamente, a segunda, terceira e décima-segunda maiores economias mundiais é certamente audacioso, embora conseguir um acordo entre duas das grandes democracias da Ásia e a China certamente fará parecerem simples as conversações falhadas da Ronda de Doha sobre o comércio global.

Mas a Índia não é vista em nenhum destes cenários. Na verdade, com a economia da Birmânia a abrir-se ao mundo, a Índia devia estar a tomar a dianteira na procura do estímulo do crescimento e da integração económica da Ásia Meridional, pois apenas fazendo isso poderá ancorar o seu vizinho na região. Contudo, quando o Primeiro-Ministro Manmohan Singh visitou recentemente a Birmânia, tinha pouco a oferecer para além das propostas de investimento usuais. Uma iniciativa ousada na direcção do Bangladesh também provocaria um impacto fortemente positivo no crescimento, e no entanto também nada está a acontecer aí.

Com os maiores países emergentes, especialmente a China e a Índia, já em apuros, a Ásia pode esperar ser duramente atingida se o euro afundar. Antes de isso acontecer, os governos devem tomar a iniciativa política, fortalecendo assim a confiança dos mercados financeiros globais na capacidade da Ásia em suportar os maus ventos do Ocidente.

Traduzido do Inglês por António Chagas

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    1. Commentedcaptainjohann Samuhanand

      The real problem in India is the reckless Crony capitalism practiced by so called nationalist leadership of NDA and world bank leadership of UPA.The recent case of King fisher Airlines is a point where the owners profligacy is condoned and not punished.He continues to have his placial yachts and F1 teams while not paying salaries to his employees while asking the state owned banks for bail out. One can find similar cases in NPAs of state controlled banks.this is the real structural reform which should be done and not FDI in wholesale retail or rate cuts by RBI

    2. CommentedYoshimichi Moriyama

      It is true that "many Asian governments came to believe that robust growth had led to a near-"decoupling" of their economies from the West and its ongoing problems."

      It was not true that robust growth had led to a near-"decoupling" of Asian economies from the West and its ongoing problems."

      It was all journalistic hype.

      Let's learn to decouple ourselves from hype, whether journalistic or governmental.

    3. CommentedZsolt Hermann

      The ill wind is not coming from the West.
      The ill wind is everywhere, because the whole thinking, system everybody tries applying is wrong.
      Structural reforms, austerity, stimulus, different governing systems cannot help here, at the end of the day we are enslaved by the same problem: our own insatiable, self centered, exploitative nature.
      We are all the same driven by this nature, our differences only come by the size of the desire, the size of the hunger, how far are we willing to go to get what we want, who and what are we willing to sacrifice for our own pleasure.
      This nature drove us through our history, and finally drove us into this dead end we find ourselves today in.
      The whole process is not even anybody's fault, humans simply instinctively, automatically followed this basic nature until today.
      But now as we face this global crisis that has no solution within the same framework it was created in, with the same thinking, with the same instincts we used so far, we have the obligation to try to understand to the greatest depth why we are here, what our true nature is and how we could adjust our nature to the new conditions of the global, interdependent reality, especially with the increasingly receding resources and opportunities around us.
      Humans are different from animals as they can evaluate themselves critically and moreover humans can actually change their inherent nature.
      So instead of analyzing who caused this crisis, where the ill wind comes from, how certain regions, nations could escape and pull ahead of someone else (which is of course impossible in an integral, interconnected system) we finally need to understand who we are, the system around us, and how we can adapt to the system.
      This vast natural system around us with its unbreakable laws of harmony and homeostasis is not going to change, only we can change.

    4. CommentedAlok Shukla

      Externally the extent of globalization has introduced the inter dependencies which would be good for every country in the long run and will promote peace among the countries.

      Internally as with most of the Asian countries at political level it is a one man show and at common populace as well as at political level it is the expectation that government is solution to every problem and knows the best. This lead to too much regulation, miss-allocation of resources and stifles innovation.

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