Wednesday, October 22, 2014
15

Devemos viver até aos mil anos?

PRINCETON – Em que problemas devemos concentrar a investigação na medicina e nas ciências biológicas? Há um forte argumento para se combater as doenças que matam mais pessoas, como a malária, o sarampo e a diarreia, que matam milhões de pessoas nos países em desenvolvimento, mas muito poucas no mundo desenvolvido.

Os países desenvolvidos, no entanto, dedicam a maior parte dos seus fundos para a investigação, nas doenças que os seus cidadãos sofrem. É provável que este cenário continue num futuro previsível. Tendo em conta essa coacção, que descoberta importante na medicina contribuiria mais para melhorar as nossas vidas?

Se o seu primeiro pensamento for “uma cura para o cancro” ou “uma cura para a doença cardíaca”, pense novamente. Aubrey de Grey, geneticista e director da Fundação SENS e o mais proeminente defensor de todo o mundo da investigação anti-envelhecimento, argumenta que não faz sentido gastar a maior parte dos nossos recursos médicos na tentativa de combater as doenças do envelhecimento, sem combater o envelhecimento em si. Se curarmos uma destas doenças, aqueles que poderiam morrer por causa dela podem esperar sucumbir por uma outra em poucos anos. A vantagem é portanto modesta.

Nos países desenvolvidos, o envelhecimento é a causa final de 90% de todas as mortes humanas; assim, o tratamento do envelhecimento é uma forma de medicina preventiva para todas as doenças da velhice. Além disso, antes mesmo de o envelhecimento conduzir à nossa morte, ele reduz a nossa capacidade de desfrutar das nossas próprias vidas e de contribuir de forma positiva para a vida das outras pessoas. Então, em vez de atacar doenças específicas que têm muito mais probabilidade de ocorrerem quando as pessoas atingem uma certa idade, não seria uma melhor estratégia tentar prevenir ou reparar os danos causados no nosso corpo pelo processo de envelhecimento?

De Grey acredita que até mesmo o progresso modesto nesta área, nos próximos dez anos, poderá levar a um impressionante prolongamento da vida humana. Tudo o que precisamos de fazer é alcançar aquilo que ele chama de “velocidade de fuga da longevidade” – ou seja, o ponto em que podemos prolongar a vida o suficiente para permitir que haja tempo para que mais progressos científicos autorizem prolongamentos adicionais e, assim, mais progresso e uma maior longevidade. Recentemente na Universidade de Princeton, de Grey disse: “Não sabemos quantos anos tem hoje a primeira pessoa que irá viver até aos 150 anos, mas a primeira pessoa que irá viver até aos mil anos é quase de certeza 20 anos mais jovem”.

O que mais atrai de Grey em relação a esta perspectiva não é o facto de se viver para sempre, mas sim o prolongamento da vida saudável e jovem que viria com um grau de controlo sobre o processo de envelhecimento. Nos países desenvolvidos, permitir àqueles que são novos ou de meia-idade de permanecerem jovens durante mais tempo, iria atenuar o indefinido problema demográfico, com uma proporção historicamente sem precedentes, de a população atingir a idade avançada – e tornando-se muitas vezes dependente de pessoas mais novas.

Por outro lado, ainda temos de colocar a questão ética: Estamos a ser egoístas ao tentarmos prolongar as nossas vidas de forma tão dramática? E, se conseguirmos, o resultado será bom para uns, mas injusto para outros?

As pessoas dos países ricos já podem esperar viver cerca de 30 anos mais do que as pessoas dos países mais pobres. Se descobrirmos como retardar o envelhecimento, podemos ter um mundo onde a maioria pobre terá de enfrentar a morte na mesma altura das suas vidas em que os membros da minoria rica ainda estarão num décimo do caminho da sua esperança de vida.

Essa disparidade é uma razão para acreditar que vencer o envelhecimento aumentará o stock de injustiça no mundo. Outra razão é que se as pessoas continuarem a nascer, enquanto as outras não morrem, a população do planeta irá aumentar a uma velocidade ainda mais rápida da que ocorre agora, o que irá fazer de igual modo a vida de alguns muito pior do que seria se isso não acontecesse.

A nossa capacidade de superar essas objecções depende de nosso grau de optimismo em relação aos futuros avanços tecnológicos e económicos. A resposta de Grey à primeira objecção é que, embora o tratamento anti-envelhecimento possa ser dispendioso inicialmente, o preço é susceptível de cair, como aconteceu com tantas outras inovações, desde os computadores até às drogas que impedem o desenvolvimento da SIDA. Se o mundo puder continuar a desenvolver economicamente e tecnologicamente, as pessoas tornar-se-ão mais ricas e, a longo prazo, o tratamento anti-envelhecimento irá beneficiar toda a gente. Então porque não começar e torná-lo agora numa prioridade?

Quanto à segunda objecção, ao contrário do que a maioria das pessoas assume, o sucesso em vencer o envelhecimento poderia dar-nos espaço de manobra para encontrar soluções para o problema da população, uma vez que também iria atrasar ou eliminar a menopausa, permitindo às mulheres terem o seu primeiro filho muito mais tarde do que agora. Se o desenvolvimento económico continuar, as taxas de fertilidade nos países em desenvolvimento irão cair, como acontece nos países desenvolvidos. No final, a tecnologia também pode ajudar a superar o protesto da população, fornecendo novas fontes de energia que não aumentem a nossa pegada de carbono.

O protesto da população levanta uma questão filosófica mais profunda. Se o nosso planeta tem uma capacidade finita para suportar a vida humana, é preferível haver menos pessoas a terem vidas mais longas, ou mais pessoas a terem vidas mais curtas? Uma razão para achar que é preferível ter menos pessoas a terem vidas mais longas é que somente aqueles que nascem agora sabem do que é que a morte os priva; aqueles que não existem não podem saber o que estão a perder.

De Grey criou a Fundação SENS para promover a investigação na área do anti-envelhecimento. Em quase todos os aspectos, os seus esforços de captação de recursos têm sido bem-sucedidos, uma vez que a Fundação tem agora um orçamento anual de cerca de 4 milhões de dólares. Mas esse valor é ainda lamentavelmente pequeno para os padrões das fundações de investigação médica. De Grey pode estar enganado, mas se houver uma pequena hipótese de estar certo, as enormes recompensas fazem da investigação anti-envelhecimento uma aposta mais acertada do que as áreas da investigação médica que estão actualmente muito melhor financiadas.

Tradução: Deolinda Esteves

Hide Comments Hide Comments Read Comments (15)

Please login or register to post a comment

  1. Commentedhari naidu

    From a purely ethical and moral perspective, birth and death are categorical imperatives of the Creator.

    Aging per se is not the physiological issue but a symptom.

    @+75 I've found that prevention of pain - due to aging - is more critical and provides for a healthy and long life. Of course, diet and exercise is essential; but good health is defined by lack of muscular pain in an aging body.

    Now, after remarkable success with ailing foot of racing horses and sportsman, there is medicinal recourse to interleukin plasma from human body to remedy orthopedic pain.

    Only fools waste their time on longevity - without recognizing preconditions for a life without pain.

  2. CommentedAyse Tezcan

    More important question is evolutionary plausibility. Unless we find other planets to inhabit and resources to sustain, our evolutionary drive will result in new ways of ending our existence to open space and resources for our offsprings. Of course unless we lose this trait.

  3. CommentedGary Mezo

    LIVE TO 250+ ??? WE AGREE THAT Basic human life processes/systems are programmed to live 250+ years as Aubrey de Grey states, but the declination of health leading to premature demise is principally secondary to a life-long systemwide cascade of events caused by arteriosclerosis. Stop arteriosclerosis early on in the 20's-30's or reverse arteriosclerosis to that stage and man can continue to live to ~250. Our R&D shows that arteriosclerosis is primarily a waxing-waning inflammatory cascade reaction to secondary to a lifelong infectious burden. We believe that we have isolated the pathogen, have done research on this endovascular problem for 20+ years and have developed a therapeutic to reverse the arteriosclerotic plaque burden.....we even have IRB-Monitored, peer-reviewed, published clinical trials conducted by cardiologists.....Our physicians usually treat themselves and their families first. Read about it and address your own mortality-issues! http://www.nanobiotech.us/nanobactx

  4. CommentedKennita Watson

    People may feel less need to cram when they have no time limit. At that point the obsessive behavior will be fully unmasked as the pathology it is, and can be treated accordingly.

  5. CommentedJames Flint

    Until we dismiss our toxic, bronze age religions our progress will be fitful and difficult. Ethics should not be based on fairy stories.

  6. CommentedTom Shillock

    I seems to me that in order to biomedically target the aging process as opposed to the diseases of aging it would help to have a biologically compelling definition of aging process that that distinguishes it from the diseases of aging and that guides experimental research. That would seem to be a job well suited to an analytic philosopher.

  7. CommentedNathan Coppedge

    In my conceptual studies of immortality, I think it is worth underscoring that there are multiple strategies to achieving longevity.

    One is a path to wisdom, minimal fitness and no terrible mistakes, symbolized by age before youth, eliminated by some sort of chronic effort, producing a pragmatic remainder.

    Another is sheer fitness, which has been more popular, but poses the problem of strain and rest, which can cause fatty accumulations, as has often been experienced by athletes. I think stress is under-represented amongst studies of athletes.

    A third method is more similar to vampirism, and represents stimulating the body with drugs, or refurbishing the blood through artificial means. In the best cases it might involve genetic treatments.

    A fourth method involves exceptional adaptation such as having an 'immortality threshold', that is, highly specific responses to environment gradually 'affect' immortality. This may be prone to sudden changes, eliminating it's long-term benefit, but may supplement other methods.

    I suspect that if there are other primary methods than these (and 'drug' may fit under multiple of these categories ultimately) then it involves nobility or grace of some kind, perhaps resulting from specific lessons learned in older age.

    Certainly an interesting subject. I hope that I've been helpful in clarifying genii (Four Genii !) related to immortality.

  8. CommentedJerry Russell

    The trend suggests we actually need longevity to survive as a species. Studies show an increase in quality of life decreases our fertility rate, and the world is on a trend to dip below sustainability within a generation. Forget those that scream overpopulation, it's foolish to look at our raw population surpassing 7 billion and suggesting runaway growth.

    Bonus thought, when we dramatically increase our longevity and quality of life we could end up as some race mostly composed of thousand+ year old elders who rarely breed. Which in all honesty is better for the universe, greater chance of other species thriving and joining us.

    Info and extra reading:
    The rate of sustainability for developed societies is 2.1 kids, today we have Australia at 1.92, US at 1.9 and UK is 1.94 (wiki: http://en.wikipedia.org/wiki/Total_fertility_rate#Replacement_rates)

      CommentedKennita Watson

      The universe is nice and all, but I do NOT volunteer to die for its sake. Besides, you _way_ overestimate your significance, and even the significance of the entire planet, if you think that the universe will care, or even notice, anything we do, no matter how dire? We just discovered a black hole the mass of around 30 billion suns, about 250 million light-years away. Our sun could go nova and it would have immeasurably less impact than one molecule of acid in the Pacific Ocean. The universe will be fine; it's you who are under a death sentence.

  9. CommentedLuke Parrish

    I have a conviction about the potential for cryonics research that is similar in some respects to de Grey's regarding antiaging research. I think that perhaps if we funded research into cryobiology, there would be breakthroughs that would lead to being able to put people's vital status on hold, preventing them from aging or feeling suffering.

    Contemporary cryonics is not quite like that because of the requirement of legal death beforehand (which often involves an extended agonal period), and because the great uncertainty of ever coming back means that most people would not want to enter such a state until in the late stages of terminal illness anyway. True medical suspended animation would consist of something that does no damage beyond our ability to repair, and could be entered much earlier in the process (or even be used for non-terminal illnesses that are otherwise a strain on resources such as a flu pandemic).

    On the other hand, the hope of reanimation and anticipation of actually seeing the future does add something positive and irreplaceable for current cryonics cases -- enlivening an otherwise hopeless terminal illness. This hope of seeing the future (space travel, world peace, and so forth) is one of the things about life extension that I find thrilling, in addition to the hope of escaping near-term death.

  10. CommentedZsolt Hermann

    I think the much more important question is what can we do with those years we spend in this life in a useful, purposeful fashion.
    At the moment all we care about how much pleasure we cram into ourselves in a very self centred, self obsessed manner, fully accepting the marketing messages: "you deserve it", "life is only about pleasure", "you need to have this and that..." and so on.
    The problem is that in the process of chasing as much self-fulfilment as possible we became more unhappy and depressed than ever before, all human institutions are falling apart from the family unit to the global human system. We even lost our hope for a better future, simply hoping to survive.
    If we continue like this, by extending human lifespan we simply create an army of zombies wandering around in a very unhappy life for decades.
    People have to start figuring out what truly gives lasting fulfilment in today's global, interconnected reality, where people are tied together as in a single family.
    If we managed to figure out this "meaning of life" question this might lead to the solution to the global crisis and all the problems humanity is facing today.

      CommentedLuke Parrish

      Depression and the harm of counterproductive/suboptimal lifestyles have huge utilitarian potential, and this is amplified by longer lives. However, I'm not convinced that we are all doing so poorly that we should let it distract us from life extension research. Certainly we can afford to fund the endeavor a bit more. Hope for the future is itself something of an antidepressant.

Featured