Tuesday, September 2, 2014
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Os custos económicos do medo

BERKELEY - O índice das acções da S&P gera atualmente um retorno real de 7% (ajustado pela inflação). Em contraste, a taxa de juro efectiva anual sobre as obrigações a cinco anos Treasury Inflation-Protected Securities (TIPS) é de -1,02%. Sim, há um sinal de “menos” antes: se comprar as TIPS a cinco anos, o Tesouro dos EUA pagar-lhe-á os juros à taxa de inflação do consumidor, menos 1,02% por ano, nos próximos cinco anos. Mesmo a taxa de juro efectiva anual sobre as TIPS a 30 anos é de apenas 0,63% - e você corre um grande risco de o seu valor cair em algum momento durante a próxima geração, o que implica uma grande perda caso precise de as vender antes da data do seu vencimento.

Então, imagine que investe 10 mil dólares no índice S&P. Este ano, a sua parte nos lucros obtidos por essas empresas será de 700 dólares. Agora, imagine que, desse total, as empresas pagam 250 dólares em dividendos (os quais você reinveste para comprar mais acções) e retém 450 dólares em lucros para reinvestir nos seus negócios. Se os gestores das empresas fizerem o seu trabalho, esse reinvestimento aumentará o valor das suas acções para 10.450 dólares. Acrescente a isso os 250 dólares das novas acções e no próximo ano o portefólio valerá 10.700 dólares - mais, se as valorizações nos mercados accionistas subirem e menos, se caírem.

Na verdade, em relação a qualquer período passado, longo o suficiente para que ondas de optimismo e de pessimismo se anulassem mutuamente, os ganhos de rendimento médio no índice S&P têm sido um bom guia para o retorno da carteira. Então, se investir 10 mil dólares na S&P para os próximos cinco anos, pode razoavelmente esperar (com elevados riscos ascendentes e descendentes) fazer cerca de 7% ao ano, ficando com um lucro composto, ajustado pela inflação de 4.191 dólares. Se investir 10 mil dólares nas TIPS a cinco anos, pode esperar com confiança uma perda de cinco anos de 510 dólares.

Essa é uma diferença extraordinária nos retornos que você pode razoavelmente esperar. Isso, naturalmente, levanta a questão: por que é que as pessoas não estão a movimentar o seu dinheiro das TIPS (e dos títulos do Tesouro norte-americano e outros activos seguros) para acções (e outros activos de risco relativamente elevado)?

As pessoas têm diferentes razões. E o pensamento de muitas pessoas não é muito coerente. Mas parece haver duas explicações principais.

Primeira, muitas pessoas não têm a certeza de que as condições actuais se manterão. A maioria dos economistas prevê que o mundo, daqui a um ano, será muito semelhante ao mundo de hoje, com as taxas de desemprego e as margens de lucro praticamente na mesma, com a média dos salários e dos preços cerca de 1,5% mais elevada, com um aumento na produção total de praticamente 2% e com riscos, tanto ascendentes como descendentes. Mas muitos investidores vêem uma grande possibilidade dos anos 2008 e 2009 regressarem, seja ela originada por uma verdadeira crise do euro ou por algum cisne negro, que nós ainda não vemos, e temem que, ao contrário de 2008 e 2009, os governos não tenham o poder e a vontade de amortecerem o impacto económico.

Estes investidores não vêem o retorno anual de 7% em acções como uma expectativa média, com riscos descendentes contrabalançados por oportunidades ascendentes. Em vez disso, eles vêem um bom cenário de resultados no qual só alguém imprudente confiaria.

A segunda razão é que muitas pessoas vêem o retorno dos 7% nas acções, como uma expectativa razoável e aproveitariam a oportunidade para a agarrar – mais a oportunidade das boas surpresas – mas não pensam que podem dar-se ao luxo de correr riscos descendentes. Na verdade, o mundo parece um lugar muito mais arriscado do que parecia há cinco ou dez anos. O fardo das dívidas existentes é alto e o principal objectivo dos investidores é evitar perdas, não procurar lucros.

Ambas as razões reflectem uma falha enorme das nossas instituições económicas. A primeira razão denota uma falta de confiança de que os governos podem e farão o trabalho que aprenderam a fazer na Grande Depressão: manter o fluxo das despesas estáveis para que as grandes depressões de longa duração e as taxas de desemprego com dois dígitos não se repitam. A segunda revela a incapacidade da indústria financeira de mobilizar adequadamente a capacidade de assunção de risco da sociedade, para o serviço do espírito empreendedor.

Como indivíduos, parece que vemos um risco que tem aproximadamente 50% de possibilidades de duplicar a nossa riqueza e aproximadamente 50% de possibilidades de a reduzir para metade, como sendo digno de consideração – não algo simples, mas tampouco que esteja fora de questão. O bom funcionamento dos mercados financeiros iria mobilizar essa capacidade de risco e utilizá-la em benefício de todos, para que as pessoas que não acham que poderiam correr os riscos de propriedade das acções pudessem diluir esse risco para os outros, por uma taxa razoável.

Como economista, considero esta situação frustrante. Nós sabemos, ou pelo menos deveríamos saber, como construir instituições políticas que aceitem a missão da estabilização macroeconómica e como construir instituições financeiras que mobilizem a capacidade de assunção de risco e espalhem o risco. Todavia, a um nível surpreendente, não conseguimos fazê-lo.

Tradução: Deolinda Esteves

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  1. CommentedGreg Rushing

    "Both reasons reflect a massive failure of our economic institutions. The first reason betrays a lack of trust that governments can and will do the job that they learned how to do in the Great Depression: keep the flow of spending stable so that big depressions with long-lasting, double-digit unemployment do not recur. The second reveals the financial industry’s failure adequately to mobilize society’s risk-bearing capacity for the service of enterprise."


    Yes. That's the problem. Investors are shunning stocks because they are essentially upset that current government policies aren't closer to FDR's New Deal policies.

  2. CommentedJason Cawley

    Yes we know how to build such institutuons, the technical capacity is not a problem. But those running our institutions do not want to use them for those purposes.

    Our macroeconomic policies are run to ensure re-election and reward supporters, and our financial institutions have in the recent past been run, to too large an extent, to extract payments to their operators from their clients.

    Added to the disfunction of each is the greater disfunction from their interaction after each fails - the political system turns to using the banks as a punching bag for blame, and via defaults into dumping ground for socialized losses.

    Everyone knows that the only thing that has ever made capital cheaper is paying on the nail as contracted, yet entire regions use the public credit simply to extract one time transfers from creditors, with no intention of actually repaying. Then regulators wonder why capital flees, when it doesn't evaporate outright.

    You are right to be frustrated, but wrong to imagine that any of it was ever a problem of knowedge. It is a problem of character and of politics, and a very old one.

    Why do so many major banks trade at half or less of book? Hint, check out the bulleyes on their backs...

  3. CommentedDavid Doney

    Regarding the right return rate to use for the S&P 500, I'd be curious what time period and assumptions he is using.

    From January 1990 (S&P at 339) to May 1 2012 (S&P at 1313) we had about a 6.2% nominal annual return, excluding dividends (this is the monthly CAGR x 12). So assuming dividends and inflation offset, he's in the ballpark but a little high.

    However, if you look at the chart below, the S&P 500 is still below its 2000 level. It approached 1,500 in January 2000, then fell to 815. It made it to 1,526 in July 2007, then fell to 797. It got to 1408 recently,
    then fell back again a bit.

    In other words, its been in a trading range with two nearly 50% declines for the past decade! That is a huge amount of risk!

    What does this suggest? Buy stocks with sustainable 4-6% dividend yields (utilities and oil) and hold them. Not much point in trying for growth.

    http://finance.yahoo.com/echarts?s=%5EGSPC+Interactive#symbol=^gspc;range=19900101,20120530;compare=;indicator=volume;charttype=area;crosshair=on;ohlcvalues=0;logscale=off;source=undefined;

      Portrait of J. Bradford DeLong

      CommentedJ. Bradford DeLong

      Yes, there is a lot of risk involved in investing in stocks. But there is also an even much larger possibility of upside gains...

  4. CommentedRichard Foosion

    BTW, didn't Fight the Fed Model by one Clifford Asness include that "traditional p/e is what matters in forecasting long-term stock returns."

      CommentedClifford Asness

      Your comments about 1-year P/Es were reasonable, even if I disagree. I was probably too harsh in my initial comment, I admit. But DeLong doesn't even say "I'm using a figure on the high bullish side of the current debate", he simply presents his method, a flawed method in my eyes (it's amazing how fast the bulls drop 1-year P/Es when E is depressed), as fact and moves on.

      CommentedRichard Foosion

      That's what I get for reading too quickly. At least you didn't push back on my other comments.

  5. CommentedRichard Foosion

    The earnings yield based on one year earnings is around 7%. Shiller's PE10 might be better methodology (and Brad has used it in the past), but regular p/e isn't crazy.

    What we really want to know is the price of future earnings, so we're left with using some imperfect proxies, such as e/p or dividend yield plus growth, which likely have an error well in excess of the extra 2%

  6. CommentedClifford Asness

    The repeat of the argument at the end was a bad cut and paste. The shot at liberals was just mean. Go figure. But DeLong really can't add.

  7. CommentedClifford Asness

    The S&P 500 yields 7% real? How do you get that? You give an example that is just a tautology - returns are 7% real because you give numbers that sum up to 7% real.

    The Shiller P/E is about 21. Most who've looked at this would put the real E[r] of the S&P 500 at about 5% real accordingly. That is not a dangerous level, but it's low versus history (the Shiller P/E is about 60th percentile expensive (high) since 1960 so the earnings yield is low versus history, a bit worse if you look even further back in time).

    Alternatively dividends yields are about 2.3%. If you add in historic real growth of about 1.5% you get almost (rounding up) 4%. If you'd like to add another 1% for super-optimism (like extra growth or buy backs or something else that's never worked) fine, 5%, again that's optimistic but I'll give it to you.

    These are now fairly standard forecasts among academics who look at the ERP. How on Earth do you get an extra 2% (a huge number!) to get to 7%, and how do you do that w/o explanation?

    Your central point, if stocks vs. bonds is your central point, is not wrong, just wildly overdone w/o explanation. While as described above, equities are around historical mean valuation (again, a bit expensive), bonds are indeed very expensive. But looking at the difference between stocks and the 10-year treasury, but NOT using your crazy 7% real for stocks, the differential is indeed pro-stocks, but at about 75th percentile since 1960. That is not an extreme reading and not consistent with the histrionics in your artcile.

    Do better. Explain more.

    http://www.project-syndicate.org/commentary/the-economic-costs-of-fear

    Now, for stocks vs. bonds he's at least directionally right, but w/o giving numbers, he's way off in his rhetoric. Comparing the E[r] through the Shiller E/P to the agreed very low real yield on bonds the difference is in the 75th percentile back to 1960. High, but hardly worth a histrionic article.

    Just thought I'd wax quantitative for a moment.

    LIBERALS CAN'T ADD

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