Tuesday, July 29, 2014
Exit from comment view mode. Click to hide this space
4

A era da democracia autoritária

MOSCOVO - O mundo está a ser a ser abalado por mudanças tectónicas quase demasiado numerosas para quantificar: a crise económica está a acelerar a degradação da governação internacional, e das instituições supranacionais, e ambos estão a ocorrer paralelamente a uma transferência de poder económico e político para a Ásia. Menos de um quarto de século depois de Francis Fukuyama ter declarado “o fim da história”, parece que chegámos à aurora de uma nova era de agitação social e geopolítica.

Dramaticamente, o mundo árabe tem sido assolado por uma Primavera revolucionária, se bem que está a tornar-se rapidamente num Inverno frio. De facto, na sua maioria, os novos regimes estão a combinar o velho autoritarismo com o islamismo, resultando em mais estagnação social, em mais ressentimento e em mais instabilidade.

Ainda mais notável, no entanto, são as manifestações sociais (e anti-sociais) de base que se multiplicam em sociedades ocidentais prósperas. Estes protestos têm duas causas principais.

Em primeiro lugar, a desigualdade social tem crescido de forma persistente no Ocidente, ao longo do último quarto de século, devido, em parte, ao desaparecimento da União Soviética e, com ele, a ameaça do comunismo expansionista. O fantasma da revolução forçou as elites ocidentais a utilizarem o poder do Estado para redistribuírem a riqueza e estimularem o crescimento das classes médias leais. Mas, quando o comunismo entrou em colapso no seu coração eurasiático, o Ocidente rico, acreditando que não tinha mais nada a recear, pressionado para revertero estado de bem-estar, fez com que a desigualdade subisse rapidamente. Isto era tolerável enquanto a globalidade do mundo se expandia, mas a crise financeira mundial, em 2008, acabou com isso.

Em segundo lugar, nos últimos 15 anos, centenas de milhões de postos de trabalho deslocaram-se para a Ásia, que ofereceu mão-de-obra barata e muitas vezes altamente qualificada. O Ocidente, eufórico com a sua vitória sobre o comunismo e com o seu crescimento económico aparentemente imparável, não conseguiu implementar as reformas estruturais necessárias (a Alemanha e a Suécia foram raras excepções). Em vez disso, a prosperidade ocidental baseou-se no aumento das dívidas.

Mas a crise económica tornou impossível manter uma boa vida com dinheiro emprestado. Os norte-americanos e os europeus estão a começar a entender que nem eles nem os seus filhos, podem supor que se tornarão mais ricos ao longo do tempo.

Os governos enfrentam agora a difícil tarefa de implementar reformas que atingirão a maioria dos eleitores da forma mais dura. Entretanto, é pouco provável que a minoria que beneficiou financeiramente, ao longo das últimas duas décadas, abra mão das suas vantagens sem dar luta.

Tudo isto não pode falhar, mas enfraquecer o encanto da democracia ocidental em países como Rússia, onde, ao contrário do que se passa no Ocidente ou em grande parte do mundo árabe, aqueles que estão a organizar grandes manifestações contra o governo pertencem à elite económica. A eles se atribui um movimento de reforma política - exigir mais liberdade e responsabilidade do governo - não de protesto social, pelo menos não ainda.

Há alguns anos, estava na moda preocupar-se com o desafio que o capitalismo de estilo autoritário (por exemplo, na China, em Singapura, na Malásia ou na Rússia) apresentava ao capitalismo democrático ocidental. Hoje, o problema não é só económico.

O modelo do capitalismo ocidental de uma sociedade baseada na riqueza quase universal e na democracia liberal parece cada vez mais ineficaz, comparado com a concorrência. As classes médias dos países autoritários podem levar os seus líderes rumo a uma maior democracia, como na Rússia, mas as democracias ocidentais também tornar-se-ão, provavelmente, mais autoritárias.

Com efeito, se avaliarmos as medidas segundo os padrões actuais, Charles De Gaulle, Winston Churchill e Dwight Eisenhower foram comparativamente líderes autoritários. O Ocidente terá que readoptar tal abordagem ou arrisca-se a perder a nível mundial, à medida que as suas forças de extrema-direita e de extrema-esquerda consolidam as suas posições e as suas classes médias começam a dissolver-se.

Temos de encontrar maneiras de evitar a polarização política que deu origem aos sistemas totalitários - comunistas e fascistas - no século XX. Felizmente, isto é possível. O comunismo e o fascismo nasceram e enraizaram-se nas sociedades desmoralizadas pela guerra e é por isso que todas as medidas devem ser tomadas agora, para evitar a eclosão da guerra.

Isto está a tornar-se relevante nos dias de hoje, à medida que o cheiro da guerra paira sobre o Irão. Israel, que está a enfrentar uma onda de sentimento hostil entre os seus vizinhos, na sequência das revoltas “democráticas”, não é a única parte interessada. Muitas pessoas, nos países avançados, e até mesmo algumas na Rússia, constituem um apoio cada vez maior a uma guerra com o Irão, apesar - ou talvez devido - à necessidade de abordar a actual crise económica e à falta de governação internacional.

Ao mesmo tempo, enormes oportunidades acenam em tempos de profunda mudança. Milhares de milhões de pessoas na Ásia livraram-se da pobreza. Novos mercados e esferas de aplicação do intelecto, da educação e de talentos estão a surgir constantemente. Os centros de poder do mundo estão a começar a contrabalançar-se, prejudicando as ambições hegemónicas e anunciando uma instabilidade criativa baseada na multipolaridade genuína, com os povos a ganharem maior liberdade para definirem os seus destinos na arena mundial.

Paradoxalmente, as actuais mudanças e desafios mundiais oferecem o potencial tanto para uma coexistência pacífica, como para os conflitos violentos. Felizmente ou infelizmente, cabe a nós - sozinhos - determinar qual será o futuro.

Exit from comment view mode. Click to hide this space
Hide Comments Hide Comments Read Comments (4)

Please login or register to post a comment

  1. CommentedSohaib Malek

    Isn't democracy authoritative by itself?

    When was the last time when a relative majority's decision was overthrown due to the relative minority's reservations in one of the most democratic country? When a majority votes for someone/thing, minority's views, regardless of how serious they are, are overruled "authoritatively".

    Its democracy's paradox that, on the one hand, it denounces non-authoritarian rules, on the other hand, its ensures a headway for majority's decisions when they're suppressing a relative minority's views.

  2. CommentedAlex D.

    I like the analysis of our current western situation:
    "First, social inequality has grown unabated in the West over the last quarter-century, owing in part to the disappearance of the Soviet Union and, with it, the threat of expansionist communism."

    There are many reasons why the western countries are in this mess. First, our politicians believe in the wrong system. It started with Thatcher and spread over almost every western country. Small government but free and ultra capitalism was the motto. We now see the results.

    Lobbyism opened a door to this development. But also in universities we were told that the free market works best. Deregulation was the motto and politicians did what the professional class said. We saw what happened: The workers’ wages decreased rapidly, the taxes for companies and wealthy people went down, unemployment rose, social benefits had to be cut because public revenue went down. And finally deregulation in financial markets has lead to the catastrophe in the financial markets. We saw the results in 2001 and 2008.

    This leads us to the next point:
    "Governments now face the difficult task of implementing reforms that will hit the majority of voters hardest."

    Now politicians have to solve the crisis. But how? Banks had to be saved with public money and now politicians cut the social benefits and wages of regular people. The causers of our financial disaster in 2008 are free and can do business as usual. The game goes on but the regular people have to pay it. In fact the European Union tries to save the Euro since 2008 and the economic situation in the southern countries is getting worse in worse. Instead of realizing that the EU continuous with the same medicine without realizing that the medicine (and thus the economical models that have been used) might be wrong.

    But this is not about democracy! If you would ask the voters they would say regulate the banks, stop the speculation with food and "stop making money with money for Christ’s sakes". Let them pay the bill.
    But as you can see our politicians are caught in Lobbyism. Banks write rules for German politicians for example. That is insane (but true).

    In fact our politicians could easily solve the problems. Use the right economical models, start to create jobs, decrease the inequality which is possible throughout taxation of the upper class or the famous 1%. Let companies finally pay taxes without any exceptions! Close tax loopholes and fight against tax shelters.

    On the other hand we have the more or less authoritarian countries which have no Lobbyism. They have a ruling elite but they are no bankers. Their markets are strictly regulated and often protected. Of course they have many other problems but huge and powerful companies are often government owned or ruled.

    Thus my conclusion:
    Our western democracies seem not to work because most of our political parties think the same way, influenced by the banks and big companies. Take a look at the US. 2 parties with 80% the same thinking.
    Take a look at Germany. We have more or less 5 parties of which 4 do the same. What has the labour party in England become? Why is Hollande called a Socialist?! Objectively they are all capitalists in the name of the big and wealthy and not much different than any other party in the western democracies.

    Perhaps we need more authoritarian leaders in the western countries but in my eyes this is not necessary. What we need is politicians who finally start to serve the people and not the companies and banks. Sweden or Switzerland are a good example that it works.

    Otherwise a very good and eye opening article! Thank you for that!

  3. CommentedZsolt Hermann

    Thank you for this very sharp analysis of our current global situation. Indeed history "did not end", evolution is going on, and it has driven humanity to a very crucial crossroad. We are facing unprecedented times, because we never lived in such a closed, integral and interdependent system as we exist in today, thus we can basically "throw out" all our historic examples.
    Moreover all our history so far can only teach us what systems do not work, as all our previous civilizations, including the present free market, constant growth capitalistic civilazation have run into dead ends, collapsed.
    I completely agree with the conclusion of the article that from this point on we can progress either in a very positive, prosperous, sustainable way, or we can self destruct even to the point of extinction. We have the talent and capability for both.
    So why would we not choose the positive path automatically? Because it goes against our inherent human nature. The positive path requires an altruistic, mutually responsible society, where people take into consideration the whole system before they make self calculations. Only this way can such an interconnected integral system work, where with each move, even with our thoughts we influence everybody else, thus before any plan or action we need to take into consideration the whole structure.
    We can be motivated into accepting such altruistic system in two ways. The first one is the method we followed so far, we only changed, moved on when the suffering on the actual level made it impossible to stay put, thus we moved to another level. Unfortunately in our present situation this would mean colossal suffering, possible atomic world war. The other option is the wise one, where by studying and understanding the structure of the global system, and the laws governing it, we adjust ourselves willingly, with free choice, proactively before the circumstances force us to do so. This is where we stand today as the article concludes.

  4. CommentedAndrés Arellano Báez

    It is the most important change of our species. In the past there were moments like theses, but with a huge difference: the avalaible free information the we can have today. So, it is true what hte authos said: radicals ideologies can come to power but we all have today the tools to avoid that. We need share information and generate the basis for the next step in our evolution: the social awareness. 2012 is a year for a change and it is clear that the actual system is collapsing.

Featured