Friday, October 24, 2014
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Dez razões pela Europa

PARIS - O euro, muitos agora acreditam, não sobreviverá à classe política fracassada na Grécia ou aos níveis crescentes de desemprego em Espanha: esperem só mais alguns meses, dizem eles, o colapso irresistível da União Europeia começou.

As profecias negras estão muitas vezes erradas, mas também podem se tornar auto-realizáveis. Vamos ser honestos: fazer o papel de Cassandra nos nossos dias não é apenas tentador num mundo da comunicação social, onde “a boa notícia é a falta de notícias”, mas parece de facto mais justificado do que nunca. Para a UE, a situação nunca esteve tão séria.

É precisamente neste momento crítico que é essencial “reinjectar” esperança e, acima de tudo, senso comum na relação. Então, aqui estão dez razões para acreditar na Europa – dez argumentos racionais para convencer os analistas pessimistas e os investidores igualmente preocupados, de que é bastante prematuro enterrar completamente o euro e a UE.

A primeira razão para ter esperança é que a boa governação está a regressar à Europa, ainda que em doses homeopáticas. É demasiado cedo para prever o impacto da eleição de François Hollande como presidente de França. Mas, na Itália, um homem, Mario Monti, já está a fazer a diferença.

É claro que ninguém elegeu Monti e a sua posição é frágil e já contestada, mas existe um consenso positivo, quase generalizado, que lhe permitiu lançar reformas estruturais há muito aguardadas. É demasiado cedo para dizer quanto tempo durará este consenso e quais as alterações que ele trará. Mas a Itália, um país que sob o governo arrogante de Silvio Berlusconi foi uma fonte de desespero, transformou-se numa fonte de optimismo real, ainda que frágil.

A segunda razão para acreditar na Europa é que com o sentido de Estado surgem progressos na governação. Monti e Hollande nomearam mulheres para cargos ministeriais importantes. Marginalizadas durante tanto tempo, as mulheres trazem agora uma apetência para o sucesso que beneficiará a Europa.

Terceira, a opinião pública europeia compreendeu, finalmente, a gravidade da crise. Nada poderia estar mais longe da verdade do que a alegação de que a Europa e os europeus, com a possível excepção dos gregos, estão em estado de negação. Sem a lucidez que resultou do desespero, Monti nunca alcançaria o poder na Itália.

Em França, também, os cidadãos não têm ilusões. Os seus votos para Hollande foram votos contra Sarkozy, não contra a austeridade. Eles estão convencidos, segundo os inquéritos à opinião pública publicados recentemente, de que seu novo presidente não cumprirá algumas das suas “promessas insustentáveis” e parecem aceitar esse facto como sendo inevitável.

A quarta razão para a esperança está ligada à criatividade da Europa. A Europa não está condenada a ser um museu do seu próprio passado. O turismo é importante, obviamente, e desse ponto de vista a diversidade da Europa é uma fonte única de atractividade. Mas esta diversidade é também uma fonte de imaginação criativa. Dos carros alemães aos artigos de luxo franceses, a competitividade industrial europeia não deve ser subestimada.

O momento em que a Europa realmente acreditar em si, da forma como a Alemanha acredita, e combinar um planeamento estratégico de longo prazo com investimentos em R&D bem distribuídos, fará toda a diferença. De facto, em certos domínios chave, a Europa possui uma tradição de excelência, reconhecida mundialmente, ligada a uma cultura de qualidade muito profunda.

A quinta fonte de optimismo é ligeiramente paradoxal. Os excessos nacionalistas tenderam a conduzir a Europa a guerras catastróficas. Mas o regresso do sentimento nacionalista na Europa, hoje, cria uma sensação de emulação e de competição, que se revelou, ontem, determinante na ascensão da Ásia. Os coreanos, os chineses e os taiwaneses queriam fazer o mesmo que o Japão. Da mesma forma, logo chegará o momento em que os franceses quererão fazer o mesmo que a Alemanha.

A sexta razão está ligada à própria natureza do sistema político da Europa. A famosa máxima de Churchill de que a democracia é o pior sistema político, com excepção de todos os outros, foi confirmada em todo o continente. Mais de 80% dos cidadãos franceses votaram nas eleições presidenciais. Ao assistirem nas suas televisões à solene, digna, pacífica e transparente transferência de poder do presidente que tinham derrotado, para o presidente que tinham elegido, os cidadãos franceses só se podiam sentir bem com eles próprios e só se podiam sentir privilegiados por viverem num estado democrático. Os europeus podem ser confusos, ineficientes e lentos na tomada de decisões, mas a democracia ainda constitui uma muralha de estabilidade contra a economia e outras incertezas.

A sétima razão para acreditar na Europa está ligada ao universalismo da sua mensagem e das suas línguas. Poucas pessoas sonham em tornarem-se chinesas, ou em aprenderem as suas várias línguas para além do mandarim. Por outro lado, o inglês, o espanhol, o francês e, cada vez mais, o alemão transcendem as fronteiras nacionais.

Do outro lado do universalismo está o oitavo factor que apoia a sobrevivência da UE: o multiculturalismo. É um modelo contestado, mas o multiculturalismo é mais uma fonte de força do que de fraqueza. A fusão de culturas do continente torna os seus habitantes mais ricos em vez de mais pobres.

A nona razão para a esperança deriva dos novos e dos futuros membros da UE. A Polónia, um país que pertence à “Nova Europa”, está a reembolsar a UE com a legitimidade que obteve da Europa durante a sua transição pós-comunista. E a entrada da Croácia, seguida de Montenegro e de alguns outros países dos Balcãs, poderia compensar a saída da Grécia (caso isso ocorra aos gregos).

Finalmente, e mais importante, a Europa e o mundo não têm uma alternativa melhor. A crise grega pode estar a forçar a Europa a avançar para uma maior integração, com ou sem a Grécia. O filósofo alemão Jurgen Habermas fala de uma “realidade transformacional” - uma palavra complexa para uma simples realidade: divididos caímos, enquanto que unidos, à nossa complexa maneira, podemos lutar pela “grandeza”, no melhor sentido da palavra.

Os investidores, é claro, estão a cobrir as suas apostas. Depois de se terem aventurado com sucesso nos países emergentes não-democráticos, cujas fragilidades começam a temer, alguns, por prudência, começam a redescobrir a Europa. Eles podem muito bem ser os sábios.

Tradução: Deolinda Esteves

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  1. CommentedPascal Lieblich

    Mr. Moisi's article is unfortunately making me less, rather than more optimistic about the European enterprise ...

    With regard to the multiculturalism factor raised in the article, hasn't the political integration project, i.e. the creation of a European polity and identitity, faltered because of the emphasis on the need of a multicultural society and in particular the continuous efforts to add Turkey as a member state while it was clear that the citizens of few core states supported this move? (see f.eg., "Why not Turkey? Attitudes towards Turkish membership" , http://tinyurl.com/88swcly)


    Rather than allowing European integration time to deepen, haven't the leaders of the European Union try to shove their definition of a multicultural society down the throats of the Union's citizens? Europe has expanded too much, too quickly in every possible geographic direction. (Worse, the purpose of the expansion was nearly all economic reasons, but that on a side-note). The rapid expansion and emphasis on including Turkey as a member state has slowed down the process of political and fiscal integration, making it now much more difficult to devise appropriate solutions at the European federal level to current problems.

  2. CommentedPaul Ruckert

    Given recent developments, Professor Moisi is clearly fighting an uphill battle with this article. That said, if these are the 10 best reasons to be optimistic, then count me a pessimist.

  3. CommentedShan Jun Chang

    Hmm, let us examine the reasoning here. "Multiculturalism is a disputed model. But it is good. I'm not going to give you any reasons why, it just is, so there. Now, in my final sentence I'm simply going to restate the assertion with different adjectives".

  4. CommentedAndreas Psaras

    The approach of Zsolt Hermann, in his comment, is more to the point as well as to “What Needs to Be Done” taking the global view

  5. CommentedAndreas Psaras

    An interesting analysis by Dominique Moisi, irrespective of an inadequate understanding, in my view, of the Greek misfortune and the positive that can come out of it for the whole of Europe. When and if Europe matures to a level that allows effective solution to the “Greek problem” that is actually not only a Greek problem but also a European and systemic problem of the present economic system, then Europe will move forward.

  6. CommentedProcyon Mukherjee

    As an outsider in Europe, I had been privy to the transformational process at the back of a severe crisis in the period 2007 to 2011. I had seen how Europe reacts, specially Germany and Switzerland, and how the others like Italy and Spain seem like fence sitters, while France is embroiled in its own historicity, for better or for worse. The bondage that came from instincts of trade did not move beyond the confines of the narrow objective. I am not sure what the future holds for this ensemble if it does not go beyond the instincts of trade; evolution of a polity that takes the good with the bad and blends is what humanity makes as a difference, where instincts of trade fails.

    Procyon Mukherjee

  7. CommentedZsolt Hermann

    There is only one truly compelling reason why the European Union needs to survive, improve and provide example for the rest of the world:
    Today we evolved into a global, integral and interdependent humans system where we are all connected by multiple ties. There is no individual or nations that could break away or sustain itself.
    In such a system only a supra national democratic alliance can provide a foundation for a sustainable future.
    In fact if we examine our lives honestly and in detail we already live in a supra national network but our selfish egoistic tendencies manifesting especially in the field of politics, finances, and the media exploit old, historic rejections, hatred for self gain and profit not allowing the natural integration to take part.
    Thus the reasons the article places hope on are mostly not valid.
    Instead of individual statesmanship we need a team of visionary, transparent and selfless, elected public representatives who fulfill the expression "serving" the public above nations and individual benefit for the sake of the whole.
    Instead of European creativity in the form of luxury goods that are excessive and unnecessary, even harmful, we need European creativity in creating a fully integrated multi-national Union above all the cultural characteristics and differences while keeping them and uniting above them.
    Instead of self serving national democracies (which have not been working as true democracies serving the public for a very long time) we need a supra national democracy keeping the well being of the whole Union as priority.
    With the last reason, necessity/no other alternative, I agree with, as the article says: "divided we fall, whereas united, in our own complex manner, we may strive for “greatness” in the best sense."
    But this can only be achieved through a full integration with mutual responsibility, truly becoming a single Union.

      CommentedShan Jun Chang

      I think this analysis is rather shallow; surely the reason we don't simply enter into further union isn't that individual politicians and the finance sector are preserving the status quo for self gain; it's that in order to do so we'd have to cede more of our national sovereignty than we're comfortable with. In general, we identify more strongly with our own nations and believe that our interests are more likely to be served if our own government can act autonomously, and I would think that our politicians have the same reasoning. Don't you think this is a better reason than simply asserting, as usual, that blame lies at the feet of the greedy media, political class and financial sector?

      CommentedJohn-Albert Eadie

      I could not have put things as well as M. Hermann. I would add, that after truly becoming a union, Europe must then lead the rest of us into global unity. Because the globe itself is in dire straits. This is poisonous thinking to much of America, nevertheless it is true, and the quicker we get to being led by virtue, in the people and in their government, the sooner we will avoid incineration. Europe has to be where it happens first. Some time ago thinkers in Canada thought that it was a place to demonstrate unity in multiculturalism but I thought at the time, no, plainly it is Europe. Look at Canada today - we have a mini-Hitler, so it is certainly not happening here for some time. Very sorry for straying from the topic, except in a deep sense, I think I have not.

      CommentedCaitlin Luview

      #2: "Monti and Hollande have both appointed women to key ministerial positions. Marginalized for so long, women bring an appetite for success that will benefit Europe."

      To be clear, I don't think "marginalized women" seeking success in an old system of overconsumption is a benefit to Europe or the world. Although women can provide a new view, it is too little, too late.

      I find it interesting what a commenter here, Zsolt Hermann says, "Instead of individual statesmanship we need a team of visionary, transparent and selfless, elected public representatives who fulfill the expression "serving" the public above nations and individual benefit for the sake of the whole."

      This sounds to me like a similar definition to what motherhood is. If a team of people with the characteristics Zsolt has described can be assembled to steward the true needs and best benefit of the world through care, concern, and compassion in our relationships with one another (as a mother does her vital best to provide for and bring up her child), the world can start repairing and coming out of crisis as we each work to change our relationships into positive care.

      We are one global, interdependent and integral human family. When will we forge policy and practice that leads our human family into conducting our daily lives, attitudes, decisions, and actions in ways that provide the ability for every single human being on the planet to flourish and contribute their vitalness? Europe, within a union, has the chance to model greatness in cooperation and mutual care and concern to the entire world, for the good of all humanity. I so hope for it to rise to this challenge and opportunity... and soon!

  8. CommentedAndrés Arellano Báez

    If this are the ten best reasons to believe in Europe, the true is that "the Eurpean Union's irresistible collapse has started".

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