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Vitória do Partido do Chá, Derrota Global

CAMBERRA – Não se esperaria muito interesse para além dos Estados Unidos, ou mesmo para além do seu próprio estado, quando um octogenário legislador conservador, que já serviu seis mandatos, perde o apoio do seu partido para se candidatar ainda mais uma vez. Mas a derrota esmagadora do Senador Richard Lugar nas recentes primárias Republicanas do Indiana, numa campanha de chocante insensatez apoiada pelo Partido do Chá, reverberou em capitais à volta do mundo, incluindo na minha.

Na maior parte dos assuntos, Lugar é e sempre tem sido um conservador natural. Recentemente, opôs-se a toda a principal legislação interna do Presidente Barack Obama, incluindo o pacote de estímulo económico, a reforma do sistema de saúde, e a regulação dos serviços financeiros, e tem consistentemente apoiado legislação antiaborto. Com o seu registo de 36 anos no Senado dos EUA, a sua estatura nacional, e um círculo eleitoral essencialmente conservador, certamente teria ganho outra vez em Novembro. Mas nada disto foi suficientemente persuasivo para os eleitores das primárias do Indiana, que elegeram o seu rival, o Tesoureiro Estadual Richard Mourdock, por uma espantosa margem de 20 pontos percentuais.

O problema de Lugar era duplo. Primeiro, pertencia à velha guarda que instintivamente procurava o compromisso ao longo das linhas do partido no Senado em assuntos cruciais, de modo a evitar o tipo de impasse que é sempre potencialmente endémico num sistema presidencial (ao contrário de um parlamentar), onde o executivo eleito não tem a maioria garantida na legislatura. Se as linhas do partido forem estritamente seguidas, os presidentes dos EUA podem ser impedidos de fazer aprovar qualquer legislação, ou de fazer nomeações judiciais ou de outro tipo.

Lugar, por exemplo, votou para confirmar as nomeações de Obama para o Supremo Tribunal. A posição de Mourdock, em contraste, era que, “O bipartidarismo devia consistir em Democratas a chegarem ao ponto de vista Republicano.”

Segundo, e de modo mais alarmante para aqueles à volta do mundo que anseiam por liderança internacional dos EUA que seja decente e inteligente, Lugar foi escarnecido pelos seus oponentes pela sua experiência em política externa e pela reputação como um estadista notável, que durante décadas desempenhou um papel absolutamente central no controlo de armas e em questões de desarmamento. A sua realização mais relevante foi a autoria conjunta com o então Senador Democrata Sam Nunn do Programa Cooperativo para Redução de Ameaças em 1992 (universalmente conhecido como “Nunn-Lugar”), que garantiu a segurança e o desmantelamento de armas nucleares e outras de destruição massiva nos antigos estados Soviéticos.

Para além disso, Lugar apoiara completamente a visão de Obama, como a de Ronald Reagan antes dele, de um mundo sem armas nucleares, e o seu apoio ao tratado New START com a Rússia, reduzindo o número de armas estratégicas instaladas, foi crucial em assegurar a sua estreita ratificação pelo Senado no ano passado. Mas, para Mourdock e os seus apoiantes, “O tempo para ser colegial passou – é tempo para confrontação.”

Um anúncio de televisão disse tudo sobre o cinismo de baixo nível da campanha promovida pelo Partido do Chá. Continha dois excertos de Obama dizendo, “Trabalhei com o Senador Republicano Dick Lugar para aprovar uma lei,” e, “O que eu fiz foi ir ter com o Senador Dick Lugar.” O contexto não foi explicado, mas o que Obama disse realmente foi isto: “Trabalhei com o Senador Republicano Dick Lugar para aprovar uma lei que conterá e destruirá algumas das armas mais mortíferas e desguardadas do mundo,” e, “O que eu fiz foi ir ter com o Senador Dick Lugar, um Republicano, para me ajudar a apanhar armas nucleares soltas.”

Com a derrota de Lugar, e a simultânea saída dos últimos Republicanos moderados, como a Senadora Olympia Snowe do Maine, que estavam preparados para pôr os interesses nacionais à frente dos partidários, o Senado não deverá produzir os 60 votos necessários para ratificar futuros tratados de controlo de armamento entre os EUA e a Rússia, caso venham a ser negociados. Além disso, o Tratado de Interdição Completa de Ensaios Nucleares, que substituiria uma frágil moratória internacional, não pode entrar em vigor sem ratificação do Senado dos EUA.

A um nível pessoal, receio também que a derrota de Lugar seja o fim de uma era de civilidade enormemente atractiva e distinta no modo como os legisladores mais experientes da América se comportavam. Como ministro dos negócios estrangeiros da Austrália, e responsável global de ONG, encontrei-me muitas vezes com Lugar, e, independentemente de concordarmos ou não nas questões, ele foi sempre um modelo de cortesia gentil.

Não consigo evitar comparar isso com a ocasião, ainda não há muito tempo, quando acompanhei o meu então co-presidente da Comissão Internacional para a Não-Proliferação e Desarmamento Nuclear, o antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros Japonês Yoriko Kawaguchi, a uma reunião com Jon Kyl, o oponente ideologicamente mais feroz do Senado ao controlo de armamento ao estilo de Obama. Quando cheguei ao seu gabinete, um funcionário de Kyl, depois de consultar o senador, disse bruscamente: “Só concordámos falar com os Japoneses, não consigo. Fazia o favor de sair?”

Não houve nada como um perfeitamente compreensível, “Desculpe, entendemos mal, e só estamos preparados agora para uma sessão bilateral. Podemos ver se será possível reagendar uma reunião conjunta para mais tarde?” Suponho que eu deveria ficar grato por ele ter “pedido por favor”. Mas é o tipo de experiência que eu nunca tinha tido em Washington, e temo que não seja única.

No passado, a angústia doméstica e internacional sobre a qualidade do governo dos EUA – a sua arrogância aparente, o seu paroquialismo insensato, e a sua incapacidade de produzir resultados coerentes, credíveis e decentes – tem essencialmente provado ser de curta duração. Talvez seja esse o caso outra vez. Mas o afastamento de Richard Lugar da cena nacional fez soar adequadamente novos sinais de alarme não apenas entre Americanos preocupados, mas também entre decisores políticos bastante afastados dos EUA e das suas batalhas partidárias.

Traduzido do inglês por António Chagas