Tuesday, September 23, 2014
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Vitória do Partido do Chá, Derrota Global

CAMBERRA – Não se esperaria muito interesse para além dos Estados Unidos, ou mesmo para além do seu próprio estado, quando um octogenário legislador conservador, que já serviu seis mandatos, perde o apoio do seu partido para se candidatar ainda mais uma vez. Mas a derrota esmagadora do Senador Richard Lugar nas recentes primárias Republicanas do Indiana, numa campanha de chocante insensatez apoiada pelo Partido do Chá, reverberou em capitais à volta do mundo, incluindo na minha.

Na maior parte dos assuntos, Lugar é e sempre tem sido um conservador natural. Recentemente, opôs-se a toda a principal legislação interna do Presidente Barack Obama, incluindo o pacote de estímulo económico, a reforma do sistema de saúde, e a regulação dos serviços financeiros, e tem consistentemente apoiado legislação antiaborto. Com o seu registo de 36 anos no Senado dos EUA, a sua estatura nacional, e um círculo eleitoral essencialmente conservador, certamente teria ganho outra vez em Novembro. Mas nada disto foi suficientemente persuasivo para os eleitores das primárias do Indiana, que elegeram o seu rival, o Tesoureiro Estadual Richard Mourdock, por uma espantosa margem de 20 pontos percentuais.

O problema de Lugar era duplo. Primeiro, pertencia à velha guarda que instintivamente procurava o compromisso ao longo das linhas do partido no Senado em assuntos cruciais, de modo a evitar o tipo de impasse que é sempre potencialmente endémico num sistema presidencial (ao contrário de um parlamentar), onde o executivo eleito não tem a maioria garantida na legislatura. Se as linhas do partido forem estritamente seguidas, os presidentes dos EUA podem ser impedidos de fazer aprovar qualquer legislação, ou de fazer nomeações judiciais ou de outro tipo.

Lugar, por exemplo, votou para confirmar as nomeações de Obama para o Supremo Tribunal. A posição de Mourdock, em contraste, era que, “O bipartidarismo devia consistir em Democratas a chegarem ao ponto de vista Republicano.”

Segundo, e de modo mais alarmante para aqueles à volta do mundo que anseiam por liderança internacional dos EUA que seja decente e inteligente, Lugar foi escarnecido pelos seus oponentes pela sua experiência em política externa e pela reputação como um estadista notável, que durante décadas desempenhou um papel absolutamente central no controlo de armas e em questões de desarmamento. A sua realização mais relevante foi a autoria conjunta com o então Senador Democrata Sam Nunn do Programa Cooperativo para Redução de Ameaças em 1992 (universalmente conhecido como “Nunn-Lugar”), que garantiu a segurança e o desmantelamento de armas nucleares e outras de destruição massiva nos antigos estados Soviéticos.

Para além disso, Lugar apoiara completamente a visão de Obama, como a de Ronald Reagan antes dele, de um mundo sem armas nucleares, e o seu apoio ao tratado New START com a Rússia, reduzindo o número de armas estratégicas instaladas, foi crucial em assegurar a sua estreita ratificação pelo Senado no ano passado. Mas, para Mourdock e os seus apoiantes, “O tempo para ser colegial passou – é tempo para confrontação.”

Um anúncio de televisão disse tudo sobre o cinismo de baixo nível da campanha promovida pelo Partido do Chá. Continha dois excertos de Obama dizendo, “Trabalhei com o Senador Republicano Dick Lugar para aprovar uma lei,” e, “O que eu fiz foi ir ter com o Senador Dick Lugar.” O contexto não foi explicado, mas o que Obama disse realmente foi isto: “Trabalhei com o Senador Republicano Dick Lugar para aprovar uma lei que conterá e destruirá algumas das armas mais mortíferas e desguardadas do mundo,” e, “O que eu fiz foi ir ter com o Senador Dick Lugar, um Republicano, para me ajudar a apanhar armas nucleares soltas.”

Com a derrota de Lugar, e a simultânea saída dos últimos Republicanos moderados, como a Senadora Olympia Snowe do Maine, que estavam preparados para pôr os interesses nacionais à frente dos partidários, o Senado não deverá produzir os 60 votos necessários para ratificar futuros tratados de controlo de armamento entre os EUA e a Rússia, caso venham a ser negociados. Além disso, o Tratado de Interdição Completa de Ensaios Nucleares, que substituiria uma frágil moratória internacional, não pode entrar em vigor sem ratificação do Senado dos EUA.

A um nível pessoal, receio também que a derrota de Lugar seja o fim de uma era de civilidade enormemente atractiva e distinta no modo como os legisladores mais experientes da América se comportavam. Como ministro dos negócios estrangeiros da Austrália, e responsável global de ONG, encontrei-me muitas vezes com Lugar, e, independentemente de concordarmos ou não nas questões, ele foi sempre um modelo de cortesia gentil.

Não consigo evitar comparar isso com a ocasião, ainda não há muito tempo, quando acompanhei o meu então co-presidente da Comissão Internacional para a Não-Proliferação e Desarmamento Nuclear, o antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros Japonês Yoriko Kawaguchi, a uma reunião com Jon Kyl, o oponente ideologicamente mais feroz do Senado ao controlo de armamento ao estilo de Obama. Quando cheguei ao seu gabinete, um funcionário de Kyl, depois de consultar o senador, disse bruscamente: “Só concordámos falar com os Japoneses, não consigo. Fazia o favor de sair?”

Não houve nada como um perfeitamente compreensível, “Desculpe, entendemos mal, e só estamos preparados agora para uma sessão bilateral. Podemos ver se será possível reagendar uma reunião conjunta para mais tarde?” Suponho que eu deveria ficar grato por ele ter “pedido por favor”. Mas é o tipo de experiência que eu nunca tinha tido em Washington, e temo que não seja única.

No passado, a angústia doméstica e internacional sobre a qualidade do governo dos EUA – a sua arrogância aparente, o seu paroquialismo insensato, e a sua incapacidade de produzir resultados coerentes, credíveis e decentes – tem essencialmente provado ser de curta duração. Talvez seja esse o caso outra vez. Mas o afastamento de Richard Lugar da cena nacional fez soar adequadamente novos sinais de alarme não apenas entre Americanos preocupados, mas também entre decisores políticos bastante afastados dos EUA e das suas batalhas partidárias.

Traduzido do inglês por António Chagas

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  1. CommentedNunya Bizness

    We (the TEA Party) have 15,915,036,254,750.35 reasons for refusing to compromise with you and those like you.

    We didn't wake up today and find the national debt sitting there as if a small animal that had wandered in through a hole in the wall during the night. The national debt is a trail littered with broken promises, corruption, and debasement, going back for the better part of most of our lives.

    You and those like you are responsible for creating that massive debt, and I'm sorry if it seems like the rules are changing and the ground is moving beneath your feet - they are, and it is, and it won't stop until everyone is on the same page ... "oh, wait, I think they want us to actually do something about the debt, I don't think they're kidding this time".

    Nothing gets people's attention quite like a few Lugar's being replaced, an admittedly great candidate and representative, but at the wrong place, at the wrong time, and concerned about the wrong issues. Are Americans concerned about non-proliferation and testing ? Sure, you bet, but none of that matters when you're 15,915,036,254,750.35 dollars in debt.

    Once you lower the debt you can have your toys back, until then you're all in timeout.

  2. CommentedBryan Johnson

    Mr. Evans,

    You obviously know nothing about the United States of America...or worse yet, you think you do! Let me bring you up to speed on what has been happening in our great nation and maybe then you will understand why We The People are on the move politically and why we are flushing those like Mr. Lugar. Whatever Mr. Lugar did good for this nation I applaud, however we are in real trouble here mainly due to socialist/marxists like Obama, Reid, Pelosi, and the rest of their thug associates! Over the past 40 years we have watched as these despots have eroded our values, spat upon our constitution, and brainwashed our children in our schools right under our noses....but no more!! We took back our House in 2010 thanks Mr. Evans...to the TEA Party, an organization I am a proud member of and whom you know nothing about except what you have likely heard on our socialist broadcasts on ABC, CBS, NBC, CNN, and their marxist counterparts in todays American journalism. In 2012 we will take the Senate and the White House and on that glorious day we will flush their marxist laws, policies, and mandates right down the political toilet of history which is exactly where they belong. You mentioned that Mr. Lugar would compromise and the TEA Party is unwilling to compromise and this is the one thing you have correct! We do not negotiate with marxist/socialists we fight them and destroy them. ZERO Tolerance...do you get that Mr. Evans?? We are not about to watch as this excuse for a president Obama destroys everything we, our fathers, and their fore fathers fought bled and dide for. So, if in a time of real fear for our nation we decide to retire those who have put us in this situation...we the people will do so. TEA Party Victory, will lead to global salvation!! You are just too damned short sighted to see that.

  3. CommentedDarren Fykke

    Kevin Lim couldn't be more wrong. I challege Kevin to give one example of a Democrat policy or *cough* "sensible solution" that the Tea Party has opposed that didn't require more government spending and/or government intrusion in our lives. In short, Lim is merely engaged in attempting to marginalize the Tea Party, a tried-and-true Democrat strategy.

  4. CommentedPatrick Ferrell

    Awwww, too bad poor DICK got kicked out of his chance to run as a Senator again. For too long we have "reached out" to democrats and gotten burned. Ask Reagan, who was promised $2 in spending cuts for every $1 in tax hikes, but he never got them. G.W. Bush immediately reached out to democrats when he took office, helping Ted Kennedy get his "No Child Left Behind" bill passed into law, but the program, like most democrat feel good programs, was a HUGE FAILURE, and what did our "Bi-Partisan" efforts get us? The Democrats IMMEDIATELY blamed BUSH for this horrible idea. Same with Bush Sr. who, during his first campaign promised "Read my lips, no new taxes", but in an effort to WORK with Democrats, he raised taxes, and what did he get for his effort? Clinton and the DNC running ads showing him saying "READ MY LIPS" and then explaining how George Bush (Sr) LIED, and we lost that election.

    Nope, it's high time REPUBLICANS start being the hard asses and saying NO to new spending, new and bigger government, no matter what the compromise, it isn't worth it.

    Was it "bi-partisan" of democrats when they refused to allow Judge Bork on the seat on the Supreme Court, just because he believed the role of the Supreme Court was to show restraint, and enterpret what the Constitution said and it's original intent, which, had Judge Roberts done that on Thursday, Obamacare would be on the ashheap of history. Instead, Judge Roberts re-defined the meaning of the word IS, by saying something that was not ever called a tax, a tax, but for the purposes of them hearing the case, it had to NOT be a tax, so it wasn't, but in the end, it was. How he was able to wrap his brain around that one is beyond me.

    SCREW getting along with Democrats. For years, compromise TO THEM was republicans agreeing with them, well, LUGAR, now it's OUR TURN. LET THEM be the statesmen and come across the aisle, break their promises so we can use it against them. We need to start playing THEIR game. Sotomyor should have recused herself from this decision since she helped write Obamacare, but she didn't. They have no integrity, so neither should we as far as they are concerned. Only the Tea Party can clean up Congress. Democrats never will, they are tax and spend tax and spend, and never cut anything. Neither will the RINO/moderates who always kiss democrat butt, but when do Democrats come across the aisle?

    During this whole Obamacare ordeal, it was a GIVEN that 4 of the Justices were going to find in favor of Obamacare, there was NO DOUBT about it. It wasn't even QUESTIONED that one of them may be persuaded to vote against a law that is so unconstitutional, it's not even funny. The media and everybody else only pondered whether Justice Kennedy or Roberts could be persuaded to come over to "the dark side" and vote to keep it, and we all know what happened. Why was it never even considered that one of the liberal judges might be persuaded over? Because thats how THEY are, and to chastise the TEA PARTY for being like them, and not "Civilized statesmen" makes you a MORON dude.

    We need to send a LOUD message to Washington, and that's WE ARE NOT GOING TO TAKE IT ANYMORE. No more wasting our tax dollars. Enough is enough already.

  5. CommentedAndrew Purdy

    First of all, ratification of all Treaties requires 67 votes, not 60. Read the Constitution before commenting on such things.

    Second, I randomly encountered 2 people from Indiana a month ago, and they had the same opinion of Lugar - "he is the Senator who hasn't lived in the state for 23 years". He is simply an old pol who outstayed his welcome. Nothing to get all bent out of shape about. He won't be the only one to lose this year either.

  6. CommentedKevin Lim

    Disgusting behavior. and this from the office of the Senate Minority Whip?!? Once upon a time, the Tea Party seemed like it (understandably) only cared about one issue -deficit reduction. Now it is for all intents and purposes a fringe far-right group that reflexively opposes anything the Democrats support even if it has nothing to do with the deficit. The search for sensible solutions has given way to a crusade for idealogical purity. Jon Kyl is exactly the sort of crusader they are looking for - no compromise, disdaining engagement, close-minded.

  7. Commentedjames durante

    The US has a certain penchant for throwing up the worst sorts of demagogues during stressful periods; think of Father Coughlin or Joe McCarthy.

    Now, with inequality, debt, deficits, poverty, and corporate campaign spending at near record levels, you can expect much worse than a few idiotic t.v. commercials.

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