Saturday, October 25, 2014
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A Agonia da Síria

MADRID - Autor de nacionalidade inglesa e padre, William Ralph Inge, disse uma vez que "Um homem pode construir para si um trono de baionetas, mas não poderá sentar-se nele." No entanto, a dinastia Assad na síria parece acreditar que pode desafiar esta máxima.

Historicamente, poucos autocratas perceberam que a mudança produzida de forma pacífica pelo governo é a solução conservadora mais viável para as demandas populares e a melhor maneira de evitar uma revolução violenta. Esta é a sabedoria que Hosni Mubarak do Egipto, Muammar el-Kadafi da Líbia, Zine El Abidine Ben Ali da Tunísia e Ali Abdullah Saleh do Lémen não conseguiram aprender. É a lição central principal da Primavera árabe e aquela que o presidente sírio, Bashar al-Assad ignorou de forma sangrenta.

Um país cujo peso na política do Médio Oriente resulta mais do seu papel como motor do conflito israelo-árabe do que do seu objectivo militar ou poder económico, a Síria sob o domínio dos Assad sempre receou abandonar o confronto ideológico com o inimigo sionista, por recear que isso prejudicasse o regime. Na verdade, os especialistas explicaram a imunidade inicial da Síria à Primavera árabe, remetendo para a defesa convicta da dignidade árabe por parte do regime, reflectida na sua firme hostilidade em relação a Israel.

Mas, tal como o Assad mais novo foi forçado a reconhecer, os tempos mudaram. A procura da dignidade pela nova geração árabe está enraizada num anseio por um governo e direitos civis dignos, que lhe foram negados durante muito tempo sob o pretexto de conflito com os "cruzados sionistas."

O regime Baath da Síria, um dos mais seculares do mundo árabe (outro era o Iraque de Saddam Hussein), baseado numa trindade de partido, exército e lealdade étnica, arrastou agora o país para uma guerra sectária entre a maioria sunita e a pequena minoria xiita alauita que tem governado nos últimos 45 anos. Desde que o rebelde Exército Livre da Síria, que é maioritariamente sunita, se separou do exército regular, Assad tem recorrido ao núcleo alauita das suas forças e aos shabeeha - um conhecido grupo paramilitar alauita - para levar a cabo a sua campanha implacável pela sobrevivência.

O regime enfrenta agora o seu momento da verdade. A desintegração da mão de ferro do regime de Assad numa guerra civil sangrenta mostra mais uma vez que o colapso desordenado das ditaduras, como a de Josip Broz Tito na Jugoslávia, ou a de Hussein no Iraque, tende a fomentar a guerra interétnica e o desmembramento nacional.

Outras minorias na Síria, como os cristãos, drusos e curdos, têm motivos para temer uma mudança para pior. Em especial os cristãos, anteriormente protegidos por Assad, temem agora sofrer as mesmas consequências que os cristãos no Iraque, caso o regime Baath seja derrubado. Recentemente, a Secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, alertou, e muito bem, a oposição para o facto de, até agora, terem sido incapazes de unir as minorias que os apoiam precisamente porque não está claro para estes grupos que ficarão melhor sem Assad do que com ele.

A Al Qaeda sunita prospera em condições de caos. Vendo negadas as suas bases no Iraque e no Afeganistão por intervenção ocidental, os militantes da Al Qaeda dirigem-se agora para a Síria, a partir da Líbia e do Iraque e são provavelmente responsáveis ​​por alguns dos recentes atentados terroristas em Aleppo e Homs. Ao dirigir-se para a região do Levante, a Al Qaeda ameaça também provocar um confronto importante entre radicais sunitas) alguns dos quais assumiram recentemente o controle de parte da fronteira sírio-libanesa) e o Hezbollah xiita no Líbano. Assad gostaria de estender o conflito ao Líbano como manobra de diversão.

De facto, tal como no Iraque, a luta sectária da Síria assemelha-se cada vez mais a uma guerra religiosa da jihad. Na Síria e por todo o mundo árabe, os clérigos sunitas estão a emitir fatwas para atribuir ao Exército Livre da Síria a auréola de santo guerreiro que luta contra os infiéis alauitas que negaram à Síria a sua verdadeira identidade sunita. Estão a ser ilustremente atribuídos a batalhões inteiros desta célula do exército sunita nomes dos primeiros heróis muçulmanos, como Khalid bin al-Walid, o companheiro do profeta Maomé, que conquistou a região do Levante; Saladino, que reconquistou a Palestina aos cruzados e Moawiyah Bin Abi Sufian, cunhado de Maomé.

Protegido da intervenção estrangeira pela China e pela Rússia, Assad tem agora licença para prosseguir os seus objectivos sem piedade pelos adversários. Tanto a China como a Rússia se sentem traídas pelo comportamento do Ocidente na Líbia, onde claramente excedeu o mandato das Nações Unidas, derrubando o regime de Kadafi. E, dadas as suas próprias tensões políticas e étnicas internas potencialmente explosivas, nenhum dos dois países está inclinado a apoiar a intervenção estrangeira.

Além disso, a Rússia, ainda traumatizada pela derrota da Guerra Fria, quer manter o eixo Síria-Irão como uma moeda de troca fundamental nas suas difíceis relações com o Ocidente. Tanto a Rússia como a China estão simplesmente cansadas da ingenuidade do Ocidente. Do seu ponto de vista, as escolhas imediatas no mundo árabe não são entre a ditadura e a democracia, mas entre a estabilidade malévola e o caos apocalíptico.

E no entanto o Ocidente hesita também em agir, por recear uma repetição do desastre do Iraque. É praticamente impossível transformar o regime Baath da Síria numa democracia funcional, tal como foi o caso com o regime Baathist de Hussein no Iraque. Mas a perspectiva de uma guerra étnica ao estilo da jihad que se estende por toda a região do Levante também não é especialmente apelativa. Também no caso da Rússia e da China, esta não pode ser uma perspectiva feliz.

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  1. CommentedSarchis Dolmanian

    A very thorough analysis of what is happening there, both in and around Syria, except for the second paragraph.
    An autocracy is doomed to fail not because the autocrat is incompetent (unable to understand this or that) but because his understanding is limited: he/she doesn't have enough time nor enough brain power to understand all that is happening around him/her.
    As such, no matter how well intentioned or dedicated to the common good he/she might be (a most unlikely hypothesis anyway since most autocrats are self serving egocentrics) more mistakes will be made than if the decisions would have been adopted democratically.
    After all if change is produced, peacefully or not, by the government then it follows a path chosen by that government. And even if the government has been elected by the people that path only aproximates what the electorate had in mind at election time - which has already passed - and this is why elections are reiterated periodically.

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