Wednesday, July 30, 2014
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Revolução no Vazio

MADRID - A Guerra Fria pode ter acabado, mas a rivalidade entre as superpotências está de volta. Como consequência, a capacidade da comunidade internacional para se unir perante os grandes desafios globais continua tão deficitária como sempre.

Este facto é mais evidente na Síria do que em qualquer outro lugar. O que era suposto ser um esforço coordenado para proteger os civis da repressão impiedosa e para promover uma transição pacífica - o plano desenvolvido pelo antigo Secretário-Geral Das nações Unidas, Kofi Annan - degenerou numa guerra por procuração entre os Estados Unidos e a Rússia.

Os líderes da Rússia (e da China) procuram manter um sistema internacional que depende da soberania incondicional dos Estados e rejeita o direito de ingerência humanitário, de inspiração ocidental. Receosos de que as rebeliões árabes radicalizem as suas próprias minorias reprimidas, recusam-se a permitir que o Conselho de Segurança das Nações Unidas seja utilizado para promover mudanças revolucionárias no mundo árabe. E a Síria, o último posto avançado russo da Guerra Fria, constitui uma vantagem para o Kremlin, que tudo fará para a manter.

Mas a Rússia e a China não são o único problema. As grandes democracias emergentes como o Brasil, a Índia e a África do Sul têm sido especialmente decepcionantes na sua resposta à Primavera Árabe. Todos são verdadeiros paladinos dos direitos humanos quando se trata de condenar qualquer ataque-defensivo israelita em Gaza, considerando-o como "genocídio", mas mantêm-se igualmente unidos numa posição contra a acção do Conselho de Segurança na Síria, mesmo estando a repressão a tornar-se cada vez mais aterradora naquele país. As insurreições árabes ou entraram em contradição com o seu compromisso de inviolabilidade da soberania nacional, ou aumentaram o seu receio de que uma "intervenção humanitária" seria apenas mais uma ferramenta da supremacia do Norte.

A resposta do Ocidente tem apoiado muito mais as aspirações árabes, mas também tem sido contraditória e errática. Durante anos, os EUA e a Europa envolveram-se numa obra monumental de hipocrisia política, pregando o evangelho da mudança democrática, enquanto davam o seu apoio aos tiranos árabes. Não é de admirar que tenham ficado sem ferramentas para lidar com as revoluções árabes.

De facto, em momento algum, desde o início da Primavera Árabe, tem sido possível discernir uma estratégia coerente por parte do Ocidente para resolver os inúmeros desafios e incertezas. Cada caso suscitou uma resposta diferente, quer devido às limitações da política de poder internacional, como é actualmente o caso no que diz respeito à Síria, ou a considerações económicas e estratégicas, como na Arábia Saudita e no Bahrein.

Os EUA, por sua vez, não abandonaram de imediato os seus aliados autoritários como Hosni Mubarak no Egipto e Zine el Abidine Ben Ali na Tunísia. Se estes tivessem sido mais rápidos e eficazes na repressão dos protestos em massa, poderiam ainda hoje estar no poder - com a aprovação dos Estados Unidos. Os EUA viraram-se contra eles não pelo facto de serem autocratas, mas por serem autocratas incompetentes.

Entretanto, a Europa está paralisada por uma crise financeira que ameaça a própria existência da União Europeia. As ferramentas tradicionais da política externa da UE - "promover a sociedade civil" e "incentivar o comércio" - não podem substituir uma estratégia para enfrentar o novo jogo de poder no Mediterrâneo. E, no entanto, a Europa provou ser absolutamente incapaz de desenvolver uma resposta adequada à forma independente que os regimes islâmicos estão usar para moldar as suas prioridades e os intervenientes externos - Qatar, Arábia Saudita, Turquia, Rússia, China e talvez até o Irão - disputam influência com uma extraordinária combinação de poder financeiro e de força política.

A Europa não se pode dar ao luxo de ficar à margem. A "Operação Protector Unificado" (Unified Protector) na Líbia constituiu um enorme êxito para a aliança, mas a decisão dos Estados Unidos de permitir que a Europa assuma um papel de liderança foi igualmente um sinal da sua intenção de "reequilibrar" as prioridades globais. Com a intenção dos EUA de desviar a sua atenção da esfera de interesses vitais da Europa, o Mediterrâneo e o Médio Oriente, para a Ásia e para o Pacífico, já não se pode esperar que assumam a liderança na resolução de crises no "quintal" da Europa.

De facto, os grandes projectos para o Médio Oriente já não figuram na agenda dos Estados Unidos. Desde a sua vitória na Guerra Fria, a hegemonia dos EUA no Médio Oriente tem-se revelado uma história de frustração e de investimento de sangue, suor e fundos sem recompensa. Espera-se agora uma mudança para uma política externa mais realista e a reunião que teve recentemente a Secretária de Estado Hillary Clinton com o presidente islâmico do Egipto, Mohamed Morsi, é uma indicação clara da nova orientação dos EUA.

As implicações de uma tal mudança são extremamente abrangentes. Após os ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001, os EUA viam o mundo islâmico quase exclusivamente sob o prisma da "guerra global contra o terrorismo". No entanto, actualmente, os políticos admitem que o que incentivou o terrorismo islâmico foi precisamente a persistência das autocracias seculares árabes.

Como resultado, a premissa fundamental da actual política norte-americana é que a perda de confiança por parte dos islamitas no processo democrático teria consequências negativas e que a restauração dos antigos regimes poderia constituir uma ameaça maior para os interesses ocidentais do que um governo da Irmandade Muçulmana. Os EUA estão agora sabiamente a construir relações de trabalho com os novos líderes islamitas, na esperança de que estes não ponham em risco os acordos de paz da região mediados pelos EUA (Israel-Jordânia e Israel-Egipto) nem interfiram na intenção norte-americana de deter as ambições nucleares iranianas.

Tornar esta esperança uma realidade não é tarefa fácil. Os tumultos nas sociedades árabes irão certamente persistir nos anos vindouros e é de esperar que as potências regionais e mundiais explorem a fragmentação da ordem internacional para defender os seus interesses na região. Com a Europa em desordem e com a resistência da crise nuclear do Irão a uma solução diplomática, o novo realismo da política externa norte-americana poderá implicar que os EUA, embora de forma relutante, acabarão por se ver forçados a rever a sua "estratégia de reequilíbrio."

Shlomo Ben Ami, antigo ministro dos negócios estrangeiros Israelita, desempenha as funções de vice-presidente do Centro Internacional de Toledo para a Paz. É autor do livro Scars of War, Wounds of Peace:The Israel-Arab Tragedy(Cicatrizes de Guerra, Ferimentos de Paz: A Tragédia Israelo-Árabe, ndt).

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  1. Commentedprashanth kamath

    Whats stopping the west from its "humanitarian droit d’ingérence" at Saudi Arabia, Bahrain, Kuwait, UAE, Oman or Qatar?
    There are friends of the west.
    Charity should begin at home.

  2. CommentedZsolt Hermann

    Unfortunately the article's assessment is very biased towards western style diplomacy.
    The truth is there are no "good guys" or "bad guys" here.
    There is not one nation, or individual who is not seeking self benefit, how to exploit any situation for its own sake 100% of the time.
    The western countries might be shrewder, less obvious, while China and Russia is more like obvious cartoon characters.
    But there is absolutely no differences in terms of purposes and intentions.
    This simply comes from our inherent, subjective, self centred nature.
    What we should learn though is that in today's global, integral and fully interdependent human network this polarized, fragmented, "friend/enemy" approach, diplomacy, politics is causing more and more damage, threatening to unravel into global scale conflicts, wars.
    And we do not even talk about what happens when the economical, financial or natural resource situation worsens further.
    Either we learn how to function in a mutually responsible, supra-nationally connected and considerate manner, or we take vast steps backwards in our evolution to the "survival of the fittest" stage.
    With today's technological advances, and hatred among nations that stage would highly unpredictable and disastrous for all of us.

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