Tuesday, September 2, 2014
4

O Sonho Europeu Reinventado

PRINCETON – A crise europeia e o recente Jubileu da Rainha Isabel II parecem não ter nada em comum. Mas de facto, em conjunto transmitem uma lição importante: o poder de uma história positiva - e a impossibilidade de vencer na sua ausência.

No comentário que fez à BBC sobre o cortejo fluvial e desfile equino do Jubileu, o historiador Simon Schama referiu "pequenos barcos e grandes ideias". A ideia maior era a de que a monarquia britânica serve para ligar o passado do país ao seu futuro, de um modo que transcende as politicas mesquinhas e feias do quotidiano. Esta herança real que data de há mais de um milénio - o simbolismo constante de coroas e coches e a personificação literal do estado inglês e agora britânico - une os britânicos numa viagem comum.

Os cínicos podem apelidar esta situação como a velha rotina de pão e circo. Mas o objectivo é o de focar os olhares e os corações numa narrativa de esperança e propósito - para elevar o público, em vez de o distrair. Será suposto os gregos, os espanhóis, os portugueses e outros europeus terem de adoptar um programa de austeridade, porque são considerados perdulários e preguiçosos pelos alemães e por outros países do norte? Esta forma de expressão é conflituosa, cria ressentimentos e divisões, justamente no momento em que a união e a partilha do fardo são mais necessárias.

A Grécia, particularmente, necessita agora de uma forma de ligar o seu passado ao seu futuro, mas não existe nenhum monarca para esse efeito. E, como berço da primeira democracia do mundo, a Grécia precisa de outros símbolos de renovação nacional para além dos ceptros e das túnicas. É através de Homero que quase todos os leitores ocidentais têm o seu primeiro encontro com o mundo mediterrânico: as suas ilhas, costas e pessoas entrelaçadas pela diplomacia, pelo comércio, pelo casamento, pelos óleos, pelos vinhos e pelas embarcações trirremes A Grécia poderá ser novamente um pilar desse mundo, utilizando a sua crise actual para talhar um novo futuro.

Esta visão é mais plausível do que se pode pensar. Calcula-se que os campos de gás natural do Mediterrânico Oriental possam conter até 122 biliões de pés cúbicos de gás, o suficiente para abastecer o mundo inteiro durante um ano. Existem grandes campos de gás e petróleo ao largo da costa grega, nos mares Egeu e Jónico, em quantidade suficiente para transformar as finanças da Grécia e de toda a região. O Chipre e Israel estão a planear uma exploração conjunta; a Grécia e Israel planeiam a construção de gasodutos e oleodutos; a Turquia e o Líbano estão a fazer trabalhos de prospecção e o Egipto tenciona licenciar a exploração.

Mas, como sempre, a política interfere. Todos os países envolvidos têm disputas marítimas e divergências políticas. Os turcos colaboram com zona norte de Chipre, cuja independência apenas eles reconhecem, e queixam-se regularmente de forma agressiva sobre as perfurações que estão a ser efectuadas em conjunto por Israel e pelo governo cipriota grego da República do Chipre. Os cipriotas gregos tomam a UE como refém sempre que surgem quaisquer assuntos que digam respeito à Turquia, a Grécia faz o mesmo. Os turcos não permitem que embarcações cipriotas entrem nos seus portos e cortaram o diálogo com os israelitas desde que morreram nove cidadãos turcos a bordo de uma embarcação que tentava furar o bloqueio imposto por Israel a Gaza. O Líbano e Israel não mantêm relações diplomáticas.

Em resumo, a riqueza, o emprego e o desenvolvimento que poderiam beneficiar todos os países da região, como consequência de uma exploração responsável da energia, poderão estar bloqueados pela insistência de cada uma das partes em obter aquilo que cada um considera a sua quota-parte e em negar o acesso ao seu inimigo.

A visão de uma Comunidade Energética Mediterrânica está assim destinada a ser uma quimera. No entanto, em Julho irá celebrar-se o 60º aniversário da ratificação do Tratado de Paris, que deu origem à Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA), fundada pela França, Alemanha, Itália, Bélgica, Holanda e Luxemburgo seis anos após o final da Segunda Guerra Mundial. Durante os 70 anos precedentes, a Alemanha e a França tinham-se confrontado em três guerras devastadoras, tendo as duas últimas arruinado a economia europeia e dizimado a sua população.

O clima de ódio e de suspeição mútua destes dois países não era inferior nem menos profundo do que o que aflige o Mediterrâneo Oriental. No entanto, o Ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Robert Schuman, com o apoio do seu conselheiro Jean Monnet, anunciou um plano para a criação da CECA em 1950, apenas cinco anos após a retirada das tropas alemãs de Paris, com o intuito de tornar "a guerra não só impensável, como também materialmente impossível". Schuman propôs subordinar o conjunto da produção franco-alemã de carvão e de aço a uma Alta Autoridade, impossibilitando, desta forma, os dois países de utilizarem as matérias-primas de guerra um contra o outro e impulsionando uma economia industrial comum. A CECA tornou-se o núcleo que deu origem à actual União Europeia.

Actualmente, a União Europeia está em apuros, mas apenas são necessárias algumas medidas concretas por parte dos líderes europeus capazes de abrir a porta a uma diplomacia igualmente corajosa que consiga restaurar as economias europeia e mediterrânica e transformar a política energética da Europa e da Ásia. Se o Parlamento Europeu e o Conselho Europeu tomassem medidas no sentido de sujeitar o comércio directo da União Europeia com a zona norte de Chipre ao sistema de votação por maioria qualificada, em vez de consensual (sendo, por conseguinte vetado pelo Chipre), a União Europeia poderia encetar trocas comerciais com a zona norte de Chipre e a Turquia poderia começar a negociar com todo o Chipre. Estas medidas poderiam, por sua vez, conduzir a uma parceria energética entre a Turquia, o Chipre e a Grécia, criando incentivos positivos à reconciliação da Turquia com Israel.

O plano Schuman demorou dois anos a ser delineado e uma década a ser implementado. Mas ofereceu a uma Europa devastada pela guerra e desesperadamente pobre uma visão positiva de um novo futuro, algo de que a Grécia e o Chipre, sem esquecer os países do Médio Oriente e do Norte de África, necessitam desesperadamente. Os líderes europeus não irão ultrapassar esta crise castigando os seus cidadãos com exigências frias de austeridade. Têm que tomar medidas concretas, considerando a Grécia como parceiro em pé de igualdade, de forma a criar uma visão de verdadeiras recompensas oriundas de uma União Europeia rejuvenescida.

A União Europeia não tem uma Rainha Isabel II. O que precisa é de outro Schuman e Monnet.

Tradução: Teresa Bettencourt

Hide Comments Hide Comments Read Comments (4)

Please login or register to post a comment

  1. CommentedAndré Rebentisch

    "Are Greeks... really supposed to embrace an austerity program imposed on them.." - What is so difficult to get when financial markets grant bonds junk status? "Carrots without stick" would be irresponsible for all sides, as is biting the hand that still feeds.

  2. CommentedGary Techentien

    This lady of Princeton, this former Director of Policy Planning for the Department of State at the Obama White House, writes blithely of how the traditions of a thousand year monarchy in Britain as manifested in the Queen’s recent Jubilee enables the people of Britain to form a vision of the future and to, as she puts it, “fix eyes and hearts on a narrative of hope and purpose – to uplift, rather than distract.” Without belaboring the point that, from where I sit, parties like the Queen’s Jubilee are very much intended to distract every bit as much as they are meant to uplift, Professor Slaughter gives the illustration to reinforce the point that to lack such a positive narrative, makes “winning” impossible. She doesn’t say what kind of winning she’s talking about, although I find her choice of operative verb to be intriguing. She chooses “winning” instead of, say, “advancing” “developing” “becoming” “building” or “succeeding”. More on the curious word choice later.

    The upshot on her characterization of the Queen’s party as inspirational is that not only does she choose not to call it the obvious propaganda that it is, she writes as if oblivious of the fact that she is invoking a symbol of empire. It never apparently occurs to her that the august monarchy she sees as providing that “uplifting…positive narrative” was—particularly during the years of empire from the late 15th through the mid 20th centuries—wont to beat untold wealth out of its colonial possessions like a brute master beating work out of a listless slave, while on the home front, the people wearing those very crown jewels and riding in those very carriages Professor Slaughter extols colluded with their captains of industry to ruthlessly exploit the labor of the lower classes throughout the dark and smoke palled industrial revolution. By pointing this out I don’t mean to contend that the British people didn’t wind up loving their monarchy. They did and do, the damn fools. So yes, I appear to be one of those cynics Professor Slaughter anticipated might call the Queen’s Jubilee the “old bread-and-circuses routine.”

    I don’t think she’s so naïve as to think the Queen’s party wasn’t propaganda. But I do understand why she doesn’t want to seem so cynical herself. She’s held an important office in the U.S. empire and so she must not mention such things if she wishes to retain her privileged position.

    Still, she says something that it seems might get her into hot water with her official connections at State. She asks, “are Greeks, Spaniards, Portuguese, and other Europeans really supposed to embrace an austerity program imposed on them because prevailing wisdom in Germany and other northern countries considers them profligate and lazy?” This is a radical thought because, as the Germans are quick to point out, the Greeks, Spaniards, Portuguese and others borrowed the money and they need to pay it back and the interest too. Hence, Professor Slaughter’s statement seems a little rad for two reasons: First, she thinks the obligation to pay arises from how the Germans see the southerners as profligate and lazy; second, she thinks the debt ought to be forgiven for that reason. If you’ll pardon me, her take on this seems a little naïve, maybe even a little disingenuous. The German cultural impressions of the debtor countries is irrelevant to what the German's see as the duty of those countries to pay and the debt ought to be forgiven because to enforce its payment would press the debtor countries into too much misery.

    Next Professor Slaughter gets to the point of her article: the Greeks, Turks and Cypriots could all get a mojo going for the future if they got together and developed their common offshore natural gas reserves. The upshot is that these countries could all profit if they’d find some way, through good faith and diplomacy, to work together in their common interest, and who can disagree with that? Not me.

    Still, the essay bugs me. From its tortured imagery through its obliviousness to presence of EMPIRE in everything it discusses to the choice of the word “winning” to describe what the article assumes in the opening paragraph we all want to do. The type of international cooperation the article suggests is essentially the process of working together toward a common good, which I like, and yet Professor Slaughter chooses to characterize that process by applying the word “winning” to it.

    What is being won? A positive outcome. If such an outcome were to happen, wouldn’t the process really be more one of a building, a creating, a crafting? While the word “win” now is often used as a kind of synonym for things like creating, building or crafting something in the sense that the thing created was won from alternative outcomes that were not so positive, it nonetheless has its roots in contests where entities compete and some win while others lose. Professor Slaughter paints a scenario of Greek-Turkish-Cypriot gas development as a win-win situation, although she ignores the obvious environmental costs of extracting and consuming any fossil fuel.

    I can’t help but be made uncomfortable by our culture’s overweening worship of the idea of “winning” and of Professor Slaughter’s use of it in this essay when there were other better words available. It says something about what the deeper problem is in our society, that we compete too much, that we preserve the perquisites of the winner and, to greater or lesser degrees, ignore the difficulties that result to the loser. As a result of that, we get wealth flowing like rivers to the top of our hierarchical society while the lower levels grow pale and anemic.

    Professor Slaughter occupies a position high in the hierarchy, close to the headwaters of power. And yet, she would forgive the Greek and Spanish debt. She probably wouldn't be making statements like that if she were still at State. But maybe so. It’s enough to suggest some hope.

  3. CommentedProcyon Mukherjee

    A brilliant article and the reference to building partnerships as opposed to playing the same 'austerity' melody harmonized by a 'bail-out' movement looming at large.

    Eastern Coal and Steel Community and the vision of the Mediterranean Energy Community have a lot in common and deference, but a lot to differ as well. The stumbling block for this to succeed, is the lack of vision itself and common sense, which is left in the lurch, for good reason that only time will tell.

    The success of ECSC happened at a time when the world of finance and bond markets had not taken shape and speculation was yet to take root in the annals of forex transactions or even the word 'GDP' was unknown in common language; leadership brought down barriers, whether in trade or in homes and the rules of the market was not hijacked by the powerful for an uncommon good.

    A brilliant attempt to recast our thoughts.

    Procyon Mukherjee

  4. CommentedZsolt Hermann

    Although I do not think the British monarchy works the way the writer describes, this historical connection probably working for a day or two around celebrations, or soccer World Cups, but I agree with her conclusion that only positive motivation is capable of providing people with the drive that is sustainable, requires no trickery or coercion.
    Moreover the motivation has to come from ground up, and not top down as before, in the forms of "great speeches", great leaders urging their masses into something, but we need a motivation everybody understands, feels, and lives through.
    Otherwise it will not work, but we will continue stumbling from crisis to crisis.
    And such positive, general motivation could unite people and drive them to build a fundamentally different human system, that is moving away from excessive consumerism, making decision only based on self calculation, self profit, where people become capable of considering the whole above the fragmented, polarized details, above individual priorities.
    So what can give us such motivation?
    A global, integral education/information sharing program for all, helping all of us understand that the system we evolved into, this global, interconnected network, where a small change on one end of the globe shakes the whole as one, and that we live on top of finite resources and within a fragile natural system, so based on the general understanding with our undisputed talent and ingenuity we could build our new structure that adapts to our 21st century conditions.

Featured