Tuesday, September 30, 2014
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A Imigração e o Poder Americano

CAMBRIDGE – Os Estados Unidos são uma nação de imigrantes. À excepção de um pequeno número de nativos americanos, todos são originários de algum outro lugar e mesmo os imigrantes recentes podem ascender a posições de liderança no domínio económico e político. O Presidente Franklin Roosevelt dirigiu-se certa vez às Filhas da Revolução Americana - um grupo que se orgulhava da chegada pioneira dos seus antecessores - numa expressão que ficaria famosa: “companheiras imigrantes”.

Nos últimos anos, no entanto, a política dos EUA assumiu um forte cunho anti-imigração e esta questão teve um papel importante na disputa da nomeação presidencial do Partido Republicano em 2012. Mas a reeleição de Barack Obama foi demonstrativa do poder eleitoral dos eleitores latinos, que rejeitaram o candidato presidencial republicano Mitt Romney por uma maioria de 3-1, tal como o fizeram os asiático-americanos.

Como resultado, vários políticos republicanos proeminentes apelam agora ao partido para que reconsidere as suas políticas anti-imigração, estando os planos para a reforma da imigração incluídos na agenda do início do segundo mandato de Obama. O sucesso da reforma constituirá um passo importante na prevenção do declínio do poder americano.

Não são recentes os receios relativos ao impacto da imigração nos valores nacionais e na coerência do sentimento de identidade americana. O movimento "Know Nothing" (Nada Sei) constituído no século XIX teve por base a oposição aos imigrantes, especialmente os irlandeses. Os chineses foram alvo de exclusão a partir de 1882 e, com a promulgação da Lei relativa à imigração de 1924, com características mais restritivas, a imigração em geral diminuiu durante as quatro décadas seguintes.

Durante o século XX, os EUA registaram a percentagem mais elevada de residentes estrangeiros, totalizando 14,7%, em 1910. Um século mais tarde, de acordo com os dados do censo realizado em 2010, 13% da população americana nasceu no estrangeiro. Mas, apesar de ser uma nação de imigrantes, o número de americanos que olha a imigração com desconfiança é superior ao número que lhe dedica um sentimento de simpatia. Os resultados de diversas sondagens de opinião mostram ou uma pluralidade ou uma maioria que privilegia a redução da imigração. A recessão contribuiu para o aumento do número de pessoas que partilhava desta opinião: em 2009, metade do público dos EUA era a favor da redução da entrada de imigrantes, que se situava acima dos 39% em 2008.

O número de imigrantes e a sua origem originaram preocupações a respeito dos efeitos da imigração na cultura americana. A representação que os demógrafos fazem para 2050, apresenta um país em que os brancos não-hispânicos constituirão apenas uma ligeira maioria. Os cidadãos hispânicos representarão 25% da população, sendo a percentagem de cidadãos afroamericanos e asiático-americanos de 14% e 8%, respectivamente.

Mas a comunicação de massas e as forças de mercado criam incentivos poderosos para o domínio da língua inglesa e para a aceitação de um certo grau de assimilação. Os órgãos de comunicação social modernos ajudam os novos imigrantes a terem algum conhecimento prévio do seu novo país, o que não acontecia com os imigrantes de há um século. Na verdade, a maioria das evidências sugere que o processo de assimilação dos últimos imigrantes decorre, no mínimo, com a mesma rapidez dos seus antecessores.

Embora uma taxa de imigração muito rápida possa causar problemas sociais, a longo prazo, a imigração fortalece o poder dos EUA. Estima-se que, actualmente, pelo menos 83 países e territórios apresentem taxas de fertilidade que estão abaixo do nível necessário para manter a sua população constante. Apesar dos países mais desenvolvidos se verem confrontados com uma escassez de pessoas com o avanço do século, a América é um dos poucos países que poderá evitar o declínio demográfico e manter a sua quota de população mundial.

Por exemplo, para manter sua população actual, o Japão teria de aceitar a entrada de 350.000 novos imigrantes por ano durante os próximos 50 anos, o que é difícil para uma cultura que tem sido tradicionalmente hostil à imigração. Em contraste, a Divisão do Censo norte-americana prevê um crescimento da população dos EUA de 49% para as próximas quatro décadas.

Actualmente, os EUA são o terceiro país mais populoso do mundo, sendo provável que daqui a 50 anos ainda mantenha esta posição (precedido apenas pela China e pela Índia). Este facto é altamente relevante para o poder económico: embora quase todos os outros países desenvolvidos tenham de vir a enfrentar um encargo crescente para garantir o sustento da geração mais velha, a imigração poderá ajudar a atenuar o problema desta política nos EUA.

Além disso, embora os estudos indiquem que os benefícios económicos a curto prazo da imigração são relativamente pequenos e que os trabalhadores não qualificados podem ser vítimas da concorrência, os imigrantes qualificados podem ser importantes para sectores específicos - e para o crescimento a longo prazo. Há uma forte correlação entre o número de vistos para os candidatos qualificados e a área das patentes nos EUA. No início deste século, um quarto das empresas de tecnologia de Silicon Valley eram geridas por engenheiros nascidos na China e na Índia. Estas empresas foram responsáveis por 17,8 mil milhões de dólares americanos em vendas e, em 2005, os imigrantes tinham ajudado a iniciar um quarto de todas as novas empresas de tecnologia dos EUA durante a década anterior. Os imigrantes ou os filhos de imigrantes criaram cerca de 40% das empresas da Fortune 500 de 2010.

Os benefícios da imigração são igualmente importantes para o poder brando da América. O facto das pessoas querem ir para os EUA aumenta a sua atractividade e a mobilidade ascendente dos imigrantes constitui um elemento atractivo para as pessoas de outros países. Os EUA são um íman e muitas pessoas podem considerar-se norte-americanas, em parte porque se parecem com tantos americanos de sucesso. Além disso, as ligações entre os imigrantes e as suas famílias e amigos que estão no país de origem ajudam a transmitir informações precisas e positivas sobre os EUA.

Da mesma forma, dado que a presença de muitas culturas dá origem a vias de ligação com outros países, constitui um contributo para ampliar as atitudes e pontos de vista dos americanos em relação ao mundo, numa era de globalização. Em vez de diluir os poderes duro e brando, a imigração aumenta ambos.

O antigo líder de Singapura, Lee Kwan Yew, um astuto observador tanto dos EUA como da China, argumenta que a China não irá superar os EUA como principal potência do século XXI, precisamente porque os EUA atraem os melhores e mais brilhantes indivíduos do resto do mundo, moldando-os a uma cultura variada de criatividade. A China tem uma população maior para recrutar internamente, mas, na opinião de Lee, a sua cultura sino-centrada irá tornar o país menos criativo do que os EUA.

Os americanos deveriam levar a sério esta perspectiva. Se Obama conseguir promulgar a reforma da imigração no seu segundo mandato, terá percorrido um longo caminho no sentido de cumprir a sua promessa de manter a força dos EUA.

Tradução: Teresa Bettencourt

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  1. CommentedJ St. Clair

    you all better get used to fewer humans on this planet .... there is no amount of immigration that will change that....everyone is broke.....no need to bring another human onto this planet that will be struggling for 70 years hussling for money...

  2. CommentedLeo Arouet

    Woow... Un artículo que destaca las bondades de la inmigración. Joseph Nye rescata lo positivo de la corriente de inmigración y hace una comparación a la largo plazo de Estados Unidos y Europa... Las tasas de natalidad están disminuyendo en Europa y Japón; así que estos países tendrán que realizar políticas favorables si desean que sus sociedades mantengan su densidad actual... La inmigración contribuye al poder económico y al poder blando de un país.

  3. CommentedPaul A. Myers

    Real simple:
    1. Give visas to young people with education who want to come and work, not to older people under family reunification.
    2. Give visas to foreign students who get a degree in the US.
    3. Everyone starts with a conditional work permit; it takes say 20 quarters of Social Security earnings to get a Green Card. Now, rather than working in the underground economy, everyone will clamor to work in the legal economy and earn those Social Security quarters.
    4. The US does not have a Social Security entitlement problem; it has a lack of imagination problem in its political leadership.
    5. Increase Asian immigration and let the Chinese leaders wonder where all the talent went!

  4. CommentedAnthony Juan Bautista

    Hmmmm, is the GOP really anti-immigration? Or is this just a liberal meme? Pls show me legislation passed by the fed GOP house or GOP state govt that seeks to roll-back America's status as the number one LEGAL immigration destination in the world. I know it's not fashionable in Washington to enforce existing statute; but ignoring American law is not "pro immigrant" in any healthy sense.

    The author may be an unserious presentor by perpetuating this nonsense.

  5. CommentedShane Beck

    Not necessarily. It depends upon how the immigrants identify themselves. People immigrate for various reasons- economic, family ties, fleeing persecution etc. If the immigrants still identify themselves in terms of the home country, you may get ghettos or at worst balkanization in unstable countries. It also varies over time- first generation immigrants may not integrate but the third generation may integrate. It also depends upon the acendency of the home countries- now that Asian countries are economically strong there is less reason for the asian immigrants to integrate into America and more reason to emphasise their cultural heritage / ties. There are advantages for nations to be culturally heterogenuous but there are also advantages for nations to be culturally homogenuous or at least have one totally dominant culture.

  6. CommentedLuis A. Guerra

    While reading your article I can not help but remember a comment left to an article in the Miami Herald which I later published in my Blog "Stars, Stripes and Stains". Here a quote of that comment:

    "Our concept of freedom is so powerful that it even negates the need of a given culture and/or language to exist. In fact, it is the power of our concept of freedom that allows us to assimilate as much or as little as we want from any culture in the world and still remain uniquely American. In the process, our freedom compels us to use our imagination and reshape, transform, refine, etc. everything we assimilate and end up with a uniquely American version of the original; talk about hot dogs, Taco Bell and Brooklyn style pizza.

    You should have more faith on the power of our concept of freedom. Immigrants certainly do and eventually are compelled to make it their own regardless of what believes they might have brought with them when they first arrived to the US.

    That is the true America; "E pluribus Unum" by the uniqueness and immensely creative as well as galvanizing power of our concept of freedom".

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