Tuesday, September 2, 2014
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Manter a Frieza no Calor Nuclear

CAMBERRA – Talvez seja ir longe demais dizer, como fez alguém depois do derrame de petróleo no Golfo do México há dois anos atrás, que a maioria dos Americanos quer um presidente que seja frio, calmo, e contido numa crise – excepto quando há uma crise. Mas de todas as acusações feitas ao Presidente Barack Obama pelos seus opositores políticos domésticos, a mais dificil de aceitar para quem está de fora é que ele é demasiado desligado emocionalmente: todo neurónios e sem glóbulos vermelhos.

Evidentemente que na política externa e de defesa, uma resposta fria e ponderada às provocações extremas que são naturais nesse contexto é o que o mundo pretende, e necessita, do líder da sua superpotência reinante. Em parte alguma é essa necessidade maior que nos casos da Coreia do Norte e do Irão, devido ao potencial destrutivo das armas que possuem ou que possam estar a desenvolver.

Com a Coreia do Norte, as provocações continuam a chegar em catadupa. São alcançados entendimentos, apenas para serem imediatamente quebrados, como o acordo que o Norte celebrou em Fevereiro, por troca de ajuda alimentar dos EUA, de aceitar os inspectores da Agência Internacional de Energia Atómica, de suspender o enriquecimento de urânio, e de interromper os testes de armas e mísseis. Em pouco mais de um mês, é lançado um “foguete para lançamento de satélites”, mesmo que falhando espectacularmente, e tudo é outra vez possível.

Com o novo líder do Norte Kim Jong-un a sentir o calor dessa humilhação técnica, existem agora todas as razões para preocupação de que um outro teste de armas nucleares, ou qualquer outra tola bravata militar, esteja iminente. A China parece incapaz ou pouco disposta a moderar o comportamento do seu vizinho. Os nervos na Coreia do Sul, e especialmente no Japão, estão à flor da pele.

A administração Obama tem feito bem em não parecer demasiado apavorada por tudo isto. O tom da resposta Americana tem sido firme, dando o conforto apropriado aos seus aliados e deixando claro que não serão toleradas jogadas de risco, mas não aumentando mais a temperatura. A sua abordagem tri-partida de contenção, dissuasão e abertura à negociação é precisamente a rota certa a tomar.

A desnuclearização da peninsula Coreana – com o preço da garantia da sobrevivência do regime e do essencial apoio económico para o Norte – pode ser um sonho desvanecente. Mas ainda não é impossível. Estivemos muito mais perto de o conseguir do que hoje é lembrado, no acordo de Protocolo de Entendimento em meados da década de 1990, onde participei como Ministro dos Negócios Estrangeiros da Austrália.

As dinâmicas subjacentes não se alteraram fundamentalmente desde então. Apesar de todas as suas enfurecedoras atitudes temerárias, é razoável assumir que os líderes da Coreia do Norte não estão dispostos a um suicídio nacional, a que qualquer uso tentativo do seu ainda muito modesto arsenal nuclear certamente levaria.

Com o Irão, o que está em jogo é, e sempre foi, mais importante. Se o Irão adquirir armas nucleares, a perspectiva de uma corrida regional aos armamentos (começando com a Arábia Saudita) – e de um risco acrescido de uma guerra nuclear por acidente, intenção ou erro de cálculo – é muito maior do que o risco de maior proliferação na Ásia do Nordeste. E apenas uma ou duas armas nucleares poderiam destruir um país do tamanho de Israel. Por conseguinte, a pressão sobre Obama para ser visto a fazer algo para impedir o Irão de progredir é muito maior que no caso da Coreia do Norte, e tornar-se-á quase insuportável durante este ano de eleições.

Mas a resposta de Obama até agora tem sido, outra vez, perfeitamente correcta – fria e ponderada; evitando qualquer aventureirismo militar próprio e desencorajando Israel de fazê-lo; aplicando a mesma estratégia tri-partida de contenção, disuassão, e abertura às negociações. Resta ver se as conversações que decorrem actualmente entre o Irão e o Grupo 5+1 (os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas mais a Alemanha) darão frutos. Mas, com a escalada das sanções financeiras do ano passado agora a fazer-se sentir claramente, os sinais são mais encorajadores do que têm vindo a ser nos últimos tempos.

O que torna as coisas politicamente dificeis para Obama é a percepção generalizada de que o Irão está determinado em adquirir um arsenal nuclear físico; que tudo o resto é dissimulação; e de que as negociações poderão na melhor hipótese ganhar tempo. Mas é ainda possível conseguir um resultado negociado que reconheça ao Irão o “direito a enriquecer” urânio, dando ao mesmo tempo completa confiança à comunidade internacional de que a linha vermelha da capacidade militar não será ultrapassada. Esta tem sido desde há muito a minha opinião, baseada numa década de envolvimento neste assunto como Presidente do International Crisis Group, e sei que muitos legisladores dos EUA e internacionais a partilham.

Os cálculos do Irão, como os entendi, reflectem cinco factores chave. Um é a preocupação de evitar um ataque preventivo por parte de Israel, e uma guerra que não acredita poder vencer. Outro é a sua crença de que quaquer bomba Xiíta seria rapidamente igualda por uma bomba Sunita, tornando efémera qualquer hegemonia regional. Terceiro, o Irão receia que o aumento da sua capacidade militar possa esgotar qualquer tolerância restante da parte da Rússia e da China. Quarto, quer evitar as dores económicas adicionais causadas por sanções aplicadas universalmente. Finalmente, e interessantemente (mesmo que de modo pouco persuasivo para muitos), todos os líderes do Irão continuam a insistir que as armas de destruição maciça são incompatíveis com os princípios básicos do Islão.

A belicosidade ruidosa tem frequentemente mais apelo popular que a exploração reflectida e paciente das oportunidades para a paz. O mundo deveria estar profundamente grato por, relativamente à proliferação nuclear como a outros assuntos, termos alguém no actual presidente dos EUA para quem a razão vence instintivamente a emoção. 

Traduzido do inglês por António Chagas

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  1. CommentedZsolt Hermann

    The truth is it is completely irrelevant if the next American president is an iceman or a hot headed cowboy.
    We keep forgetting that we live in a totally interconnected and interdependent system where all elements have equal importance.
    We still think and behave in terms of a polarized political and economical system, where temporary alliances are formed against a third party, constantly watching over our shoulders if the situations have changed, many times previous allies become mortal enemies, or the other way around, and there is no end in sight for these games.
    Actually the situation we are in is the result of such thinking and behaving, if there was a true, mutually responsible supra/national cooperation and governance, "rogue states" would not be able to play this flirting game, trying to pitch "superpowers" against each other, creating stand offs they can benefit from.
    If we want true solutions, we have to grow up, and start behaving according to our global, integral system, trying to understand that none of our present problems are solvable alone, or bilaterally or even regionally.
    Or at least we have to realize the fact that in case a nuclear calamity breaks out anywhere we all are going to pay a terrible price for it, even in Australia.
    There is nowhere to hide in the world today.

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