Thursday, October 2, 2014
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A Marcha dos Nacionalistas da Europa

BERLIM – A Europa é composta pelas suas nações, e assim tem sido há centenas de anos. É isso que torna a unificação do continente uma tarefa política tão difícil, mesmo hoje. Mas o nacionalismo não é o princípio de construção da Europa; pelo contrário, tem sido, e continua a ser, o princípio de desconstrução da Europa. É essa a principal lição a retirar dos ganhos dramáticos atingidos pelos partidos populistas anti-Europeus nas eleições para o Parlamento Europeu da semana passada.

É uma lição que todos os Europeus já deveriam ter aprendido. As guerras do século XX na Europa, afinal, foram travadas sob a bandeira do nacionalismo - e quase destruíram completamente o continente. No seu discurso dedespedida ao Parlamento Europeu, François Mitterrand destilou uma vida inteira de experiência política numa única frase: "O Nacionalismo significa guerra."

Este verão, a Europa irá comemorar o centenário da eclosão da I Guerra Mundial, que mergulhou a Europa no abismo da violência nacionalista moderna. A Europa irá também assinalar o 70º aniversário do desembarque dos Aliados na Normandia, que decidiria a Segunda Guerra Mundial em favor da democracia na Europa Ocidental (e, mais tarde, após o fim da Guerra Fria, em toda a Europa).

A história Europeia recente está repleta de comemorações e aniversários desse género, todos intimamente ligados ao nacionalismo. No entanto, muitas esperanças Europeias para o futuro, parecem encontrar mais uma vez expressão no mesmo nacionalismo, enquanto uma Europa unificada, o garante da paz entre os povos da Europa desde 1945, é vista como um fardo e uma ameaça. É esse o verdadeiro significado dos resultadosdaseleiçõesparaoParlamento Europeu.

Mas os números e as percentagens por si só não exprimem a escala da derrota sofrida pela UE. Por mais que as eleições democráticas definam maiorias e minorias – e, portanto, a distribuição do poder por um período de tempo – elas nem sempre garantem uma correcta avaliação da situação política. As eleições fornecem uma fotografia – um momento congelado; para compreender as tendências de longo prazo, é preciso examinar a alteração na percentagem de votos de vários partidos, de uma eleição para a outra.

Se os resultados das eleições para o Parlamento Europeu fossem julgados exclusivamente pelo facto de que uma esmagadora maioria dos cidadãos da Europa atribuíram os seus votos aos partidos pró-UE, o ponto fundamental - o aumento dramático no apoio aos partidos nacionalistas Eurocépticos em estados como a França, o Reino Unido, Dinamarca, Áustria, Grécia e Hungria - poderia ser desperdiçado. Se a tendência continuar, tornar-se-á uma ameaça existencial para a UE, uma vez que bloqueará mais integração, que é uma necessidade urgente, e destruirá a ideia Europeia de dentro para fora.

A França, em particular, é motivo de grande preocupação, pois a sua Frente Nacional estabeleceu-se como terceira força política do país. "Conquistar a França, destruir a Europa!" tornou-se no próximo objectivo eleitoral da Frente. Sem a França, pouco ou nada acontece na UE; juntamente com a Alemanha, é indispensável para o futuro da UE. E ninguém deve duvidar de que a Frente e os seus eleitores acreditam no que dizem.

No coração da crise política da Europa está o mal-estar económico e financeiro da zona Euro, aquele que nem os governos nacionais nem as instituições da UE parecem ser capazes de resolver. Em vez de reforçar a solidariedade pan-Europeia, a angústia económica conduziu a um enorme conflito de distribuição. O que antes era uma relação entre iguais deu lugar a um confronto entre devedores e credores.

A desconfiança mútua que caracteriza este conflito poderá prejudicar irreparavelmente a alma da União e todo o projecto Europeu. A Europa do Norte é atormentada por temores de expropriação; o sul está braços com uma crise económica aparentemente interminável e uma elevadataxa de desemprego sem precedentes, pela qual os seus cidadãos responsabilizam o norte – especialmente, a Alemanha. A crise da dívida no sul, juntamente com as consequências sociais das duras medidas de austeridade, são vistas simplesmente como o abandono do princípio da solidariedade pelo norte rico.

Neste clima de solidariedade decrescente, o antigo nacionalismo recebeu as suas vitórias numa bandeja de prata. Na verdade, em toda a parte em que a UE podia ser responsabilizada pelo colapso do bem-estar da classe média, o chauvinismo nacional e a xenofobia foram estratégias eleitorais vencedoras.

Dada a actual fraqueza da França e o resultado dramático que as eleições aí tiveram, bem como o caminho bizarro do Reino Unido em direcção a uma saída da UE, o papel de liderança da Alemanha vai continuar a aumentar, o que não é bom para a Alemanha ou para a UE. A Alemanha nunca aspirou a esse papel; a força económica e a estabilidade institucional do país tornaram inevitável aceitá-lo. No entanto, a relutância da Alemanha em liderar continua a ser um grande problema.

Todos os Europeus têm nos seus genes políticos a oposição instintiva – e também racional – a qualquer forma de hegemonia. Isto também se aplica à Alemanha. Mas a atribuição à hegemonia Alemã da responsabilidade pelas políticas de austeridade no sul é apenas parcialmente justificado; o governo alemão não forçou os países afectados a desenvolverem elevados níveis de dívida pública.

Do que a Alemanha pode ser responsabilizada é da insistência dos seus líderes na redução da dívida em simultâneo com reformas estruturais e da sua objecção a quase todas as políticas orientadas para o crescimento da zona Euro. Além disso, nenhum dos campos políticos da Alemanha está disposto a reconhecer "o problema Alemão" da união monetária (nomeadamente a força relativa do país, que não tem sido usada para o bem do projecto europeu como um todo).

A questão mais premente agora é saber quanto fará a Alemanha pela França para salvar a Europa. A pressão sobre a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente do Banco Central Europeu Mario Draghi irá certamente aumentar, e não virá apenas a partir de Paris, mas também a partir de Roma, Atenas e de outras capitais.

Para a Alemanha, a alternativa a mudar agora de rumo é esperar até que os países devedores da Europa elejam governos que ponham em causa a sua obrigação em pagar. Na Grécia, o processo já começou. Para a Europa, isso seria um desastre; para a Alemanha, seria simplesmente uma tolice.

Traduzido do inglês por António Chagas

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  1. CommentedCelt Darnell

    Like too many Eurofantics, Fischer doesn't understand the difference between patriotism and nationalism. He also doesn't understand why people prefer national sovereignty to imperialism.

    That is why his cause is doomed.

  2. CommentedTravis Zly

    Zsolt Hermann is closest to the truth. Indeed, the European Union is primarily a banking construct, designed to facilitate the unimpeded movement of capital around Europe. Democracy is only an afterthought.

    The TARGET2 automated payment system allows instantaneous capital transfers between any European central banks that are part of the Eurosystem.

    TARGET-2-SECURITIES is almost ready to go online. This will allow the instantaneous settlement of stock and bond and derivatives trades within the Eurosystem, replacing national stock exchanges.

    This is the undeclared reason why the UK wants out of the EU: Frankfurt seeks to take over the mantle of London. (Nigel Farage is a Market Trader by profession).

    The countries on the Eurozone periphery are exactly equivalent to the emerging economies that are part of the Dollar zone. It suited America to ease its monetary policy in the wake of the 2008 financial crisis. Cheap Dollars flowed en masse into emerging market stocks.

    As soon as tighter monetary policy kicked in (tapering), there was chaos as trillions of dollars of American capital returned home to take advantage of increases in US Treasury 10- and 30-year Bond yields. The Indian economy was wiped out in weeks, we will recall, as its Central Bank tried to defend the Rupee.

    In the same way, at the first signs of instability in the Eurozone in 2010, trillions of Euros invested in Eurozone emerging economies, were shifted to Northern Europe, leading to a fire-sale of assets in the South, particularly Government bonds.

    The situation can only get worse with a closer banking union.

  3. CommentedZsolt Hermann

    I don't think it is "nationalists on the march".
    As the article also suggests nationalism, not only in Europe but everywhere else (it is enough to look at Russia, US, Far East, even South America for current examples) is a constant feeling, attitude.
    And in itself it is neither good or evil, we all prefer ourselves and what is closest to us, in gradually growing circles, people naturally connect to those similar and close to them.

    So it is not that nationalism is on the rise, but a more systematic, inclusive framework that was supposed to balance individualism, nationalism is failing.

    The main problem is we tend to think in absolutes, in black and white.
    We think a global, interconnected system, a federal Europe has to mean the end of nations, cultures, individual or national freedom.

    And this is the notion clever politicians exploit because the European experiment so far failed to prove otherwise.
    It failed to provide such a framework where on one hand people, nations can preserve their own character, culture, and decision making on the micro-management level, but at the same time there is a supra-national macro-managing framework that can balance and organize the nations in a way that all can contribute to the whole with their best abilities and receive everything they need to function optimally.

    So far the "Union" and common currency was solely aimed at markets, profit and lately financial institutions, completely ignoring the actual public.
    It is understandable that this ignored, neglected public, or at least the part still goes voting, runs into the arms of the politicians promising them national greatness, even what they promise is impossible to fulfill in a globally interconnected and inter-dependent system that is the result of evolution and not something man-made we could turn back from.

    The European project and inter-relationships in between individuals and nations has to be completely re-evaluated in light of this new evolutionary state, working out how the different, colorful pieces of the puzzle can be fitted into a single, mutually complementing picture, more precisely multidimensional network.

    Individualism, nationalism will never disappear, we cannot suppress our natural tendencies, but with the right framework, environment we can re-route, channel those tendencies into a positive direction.

  4. CommentedJohann Savalle

    People - most people - do not have the time nor the background require to understand or analyse policies and best practices. People want to know their leadership is to care about them with their best interest in mind - and heart.
    Campaigns led by nationalists and other extremes do not bright by their intellectual and brilliant reasoning, but more by the emotional call they have to their followers.
    They have expressed better than the current leadership their intention to care and to bring a brighter future to the one who would be voting for them.
    Since elections are national (and not transnational - which by the way would be to my opinion a safer way to avoid the rise of nationalism), Nationalists will always be able to draw advantage of anything wrong ongoing in their own country and put the responsibility on Europe, the gays, the black, the jews... in short the usual suspects.
    First and foremost, what matter now, is for the current leadership to actually express care and involvement in European citizens (and not just in European affairs). People do not feel European MPs care about them, or that any of the european institution is actually paying attention to them as people who suffer, as people who struggle - and while no one is expected to have magical solutions, at least to really care and communicate this care would be more than appreciated. Such a task in itself is going to be a challenge, as cynism and lack of trust have grown, and it is not in the culture of european institutions to have a human face. To change this will require some real effort if they want to regain some trust. Else, no matter what will be the policies, people will be driven toward a complete hatred of european institutions and their leaders, and nothing will be really left to save the situation.

  5. CommentedTomas Kurian

    ...But to hold the German hegemon responsible for austerity policies in the south is only partly justified; the German government did not force the affected countries to run up high levels of public debt.

    It is justified as everybody has to run deficits unless it is persuing neocolonialistc predatory policy of extensive exports as Germany does, exporting its unemployment to other countries.

    Genom of capitalism - Additional resources – policy options and consequences
    http://www.genomofcapitalism.com/index.php/3-5-additional-resources-policy-options-and-consequences-2

    It is Germany that is running 19. century economical model, refusing to move to more sustainable 20. century model of deficit financing.

    Genom of capitalism - Evolution of monetary systems
    http://www.genomofcapitalism.com/index.php/16-5-evolution-of-monetary-systems

  6. CommentedNichol Brummer

    The EU would have profited from a relaxation of the Maastricht rules, not just for the 'south', but also for the 'north' and even Germany itself. If all Euro countries would be allowed to have a deficit of a bit more, lets say 6%, in stead of 3, and if they would all actually increase their deficit to that value, then this would provide a nice stimulus to the economy of the whole EU. If the banks are all still scared to create more money through lending, then the governments should be able to take up the slack for some time. The EU should be able to decide on a step of this kind, and I'm sure the ECB and Draghi would not mind getting some fiscal support to avoid low inflation, or even deflation.

    Germany has been the one to push for fundamentalism when it comes to interpreting the rules of the Euro. My own country, the Netherlands, has supported this foolishness. The fear that the 'north' will need to increase their taxes to pay for such a deficit is nonsensical. We always have the power of our central bank to back up any sovereign debt. Unless we want to decide that we don't.

  7. Commentedhari naidu

    I suspect if you don’t have historical perspective on EU/EEC integration developments, it’d be difficult to understand and appreciate the fundamentals of anti-EU votes in France and UK. Nationalism may be one factor but not the decisive constraint to *ever closer union*.



    France: Essentially it’s all about centrist structure of French politics. As long as Paris dictates ALL regional politics, it’s inevitable that centrist France will not survive globalization. In other words, it’s high time to decentralize France and its Amin Districts and invoke principle of subsidiarity and legally allow regional/domestic powers to originate policy and make final decisions. This is not going to happen without a real serious fight – Hollande is not the President to lead such a reformed French agenda.

    Recall, under Mitterrand, he was always Secretary of the Socialist Party, and never given a ministry to run. Why?



    UK: Limey’s never supported Maastricht Treaty & Euro currency introduction; they preferred their Sterling Pound and actually amused themselves at concept of Single Market and Euro! That’s 1980s! Now they want a FTA only – have your cake and eat it! - and no convergence on macro policy including Schengen and immigration. The decline and fall of Britain started long ago; UKIP may have found the ultimate anti-EU strategy to make a decisive move in that direction. And Scotland is going its own way too….

      CommentedAlasdair MacLean

      The old Limeys rather than on the decline are expected to have the largest economy in Europe in just a few years. They will even overtake the Germans currently the economic powerhouse of Europe.
      One of the reasons this is so is that they kept the pound. If the Germans and the French had kept their own currencies then they wouldn't be in the state they are in today.

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