Tuesday, September 2, 2014
2

O Estado observador da Palestina

NOVA IORQUE – A Palestina já não é mais uma “entidade”, mas sim um Estado - ou, para ser mais preciso, um Estado observador não-membro das Nações Unidas, tal como a Santa Sé. A oferta palestina recebeu o apoio de 138 países-membros (a Alemanha, a Grã-Bretanha e outros 39 países abstiveram-se), enquanto apenas sete, incluindo as Ilhas Marshall, Palau e Panamá, juntaram-se aos EUA e a Israel na oposição, deixando ambos mais isolados do que nunca.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu estava furioso; chamou mentiroso ao presidente da Autoridade Palestina (AP), Mahmoud Abbas, e deu permissão para que três mil novas casas de judeus fossem construídas em território palestino ocupado. O ministro dos Negócios Estrangeiros israelita, Avigdor Lieberman, já ameaçou esmagar o governo da AP na Cisjordânia se a votação das Nações Unidas for levada adiante.

Mas Israel só pode culpar-se a si pelo que aconteceu. Abbas e o seu primeiro-ministro, Salam Fayyad, têm sido mais moderados e mais abertos a negociações sérias com Israel, do que qualquer outro líder palestino anterior. Os policiais palestinos têm cooperado com os israelitas para conterem a violência na Cisjordânia. Melhorar a economia, em vez da confrontação violenta, foi a principal preocupação da AP.

Mas, ao continuar a construir povoações em terras palestinas, o governo israelita tem minado a autoridade de Abbas e do governo da Fatah, quase ao ponto de chegarem à impotência. Cada vez mais palestinos, cansados da futilidade do que ainda é chamado de o “processo de paz”, acreditam que o feroz rival da Fatah, o Hamas, movimento islâmico que governa a Faixa de Gaza, tem formas mais eficazes de quebrar o impasse actual. O fracasso dos métodos pacíficos de Abbas fez a alternativa da violência parecer cada vez mais atraente.

Hamas também emergiu como o vencedor da moral após o mais recente – mas não certamente o último – conflito militar. Longe de intimidarem os palestinos, com os bombardeios em Gaza e com a mobilização das tropas, os israelitas transformaram Hamas num herói com a sua resistência. Uma vez mais, Abbas parecia débil, em comparação. É por isso que precisava desesperadamente da sua vitória nas Nações Unidas. A promoção diplomática da Palestina ofereceu-lhe uma “tábua de salvação”.

Será que os israelitas queriam realmente um ressurgimento da violência islamita em Gaza, o potencial colapso da política pacífica na Cisjordânia, e agora o direito de um Estado palestino reconhecido para levar Israel ao Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra? Se não, por que é que estão tão desajeitados?

Parece que Israel está a cometer o mesmo erro que outros fizeram no passado. Ficou provado diversas vezes que a intimidação militar de civis não quebra a sua moral e não os coloca contra os seus próprios líderes, por muito terrível que seja o regime. Pelo contrário, a partilha das dificuldades normalmente fortalece os laços entre os cidadãos e os seus governantes. Foi isso que aconteceu nas cidades alemãs bombardeadas durante a Segunda Guerra Mundial; bem como no Vietname; e está a revelar-se em Gaza.

Mas há uma outra maneira de olhar para a situação. Apelidar o governo israelita de desajeitado é passar ao lado do problema. Israel tem poucas ilusões quanto ao facto de os palestinos derrubarem os seus próprios líderes. Na verdade, um Hamas fortalecido pode servir os interesses dos extremistas israelitas que se encontram actualmente no poder. Eles podem conduzir à retórica violenta, anti-sionista e, sim, anti-semita dos radicais islâmicos e argumentarem que nenhum acordo com os palestinos é possível. A ameaça de uma grande chibata é a única linguagem que os nativos entendem.

Manter os palestinianos divididos entre os revolucionários islâmicos e a Fatah mais materialista assenta que nem uma luva nos objectivos israelitas. Enquanto a Fatah mantiver as coisas mais ou menos sob controlo, na Cisjordânia, e enquanto tudo o que o Hamas puder fazer é lançar periodicamente mísseis na fronteira israelita ou explodir ocasionalmente uns autocarros, Israel pode viver facilmente com o status quo. Os israelitas que acreditam que uma solução negociada entre dois Estados não pode ser alcançada, sentem que lhes foi dada razão; os que simplesmente não querem dois Estados a coexistirem estão igualmente bem servidos.

Por conseguinte, do ponto de vista do actual governo de Israel, a estratégia correcta é manter o governo palestiniano fraco e desequilibrado, sem o derrubar, e conter o Hamas com exibições periódicas de poder militar (enquanto destroem os mísseis de longo alcance que podem causar danos graves a Israel).

As políticas israelitas não são genocidas, como alguns comentadores, nem sempre isentos de animosidades anti-semitas, gostam de declarar. Muitos palestinos foram mortos sob o governo israelita, mas o seu número não está nem perto do número de civis muçulmanos que continuam a ser torturados, assassinados e mutilados pelos governos muçulmanos, todos os dias. Israel é, no entanto, uma potência semi-imperial, utilizando métodos coloniais tradicionais: governa por procuração, divide potenciais rebeldes, recompensa a obediência e pune a oposição.

A história colonial mostra que este tipo de governo é frágil. A humilhação não é uma base firme para a estabilidade a longo prazo. Chega-se a um ponto em que as promessas de independência já não convencem ninguém. Fomentar a resistência violenta ao se desmoralizar quem ainda pode ouvir a voz da razão é um convite ao desastre. As hipóteses de uma solução pacífica desaparecem. A violência é tudo que resta.

É algo pela qual as colónias explodem do outro lado do mundo. É completamente diferente se a colónia for simplesmente na porta ao lado e o poder colonial estiver rodeado de países com uma simpatia limitada por uma confusão que é, em grande parte, da sua autoria.

Tradução: Deolinda Esteves

Hide Comments Hide Comments Read Comments (2)

Please login or register to post a comment

  1. Commentedphilip meguire

    The only real difference between Israel-Palesting and apartheid South Africa, and French rule in Algeria, is that in Israel-Palestine, the rulers and holders of advanced technologies are the demographic majority. For now. Recall the eventual fate of apartheid and French rule.

    We also need to (re)read Isaiah Berlin's "The Fox and the Hedgehog."

    Let us beat swords into ploughshares.

  2. CommentedJayson Rex

    Actually, Palestine does not exist. In Cisjordan there are two micro entities - Gaza under the control of the terrorist group Hamas and the PA in the West Bank under the control of the terrorist group Fatah.

    These two groups are usually at war with one another and have killed more "Palestinians" than Israel ever did since the creation of the Jewish State.

    The U.N. vote impresses no one since its anti-Israel posture is known to one and all. In fact, U.N. being dominated by dictatorships with very few democracies as members, will be soon "deactivated" and replace by the United Democratic Nations where, for example. not a single Islamic state will be accepted - oil or no oil.

      CommentedChris Booker

      Actually, Hamas has been democratically elected. Apparently it's all well and good for the western world to name a democratically elected group a terrorist organisation if they don't agree with the results of free and fair elections.

Featured