Thursday, July 24, 2014
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A Viragem Nacionalista do Japão

TÓQUIO – O Japão tem estado ultimamente nas notícias, devido à sua disputa com a China sobre seis quilómetros quadrados de ilhotas áridas no Mar da China Oriental a que o Japão chama Senkakus e a China chama Ilhas Diaoyu. As pretensões rivais datam do final do século dezanove, mas o recente deflagrar, que levou a generalizadas manifestações anti-Japonesas na China, começou em Setembro, quando o governo do Japão adquiriu três das pequenas ilhotas ao seu proprietário privado japonês.

O Primeiro-Ministro Yoshihiko Noda afirmou que decidira comprar as ilhas para o governo central Japonês no sentido de prevenir que o Governador de Tóquio Shintaro Ishihara as comprasse com fundos municipais. Ishihara, que desde então abandonou o cargo para lançar um novo partido político, é bem conhecido pelas provocações nacionalistas, e Noda temia que ele tentasse ocupar as ilhas ou encontrar outros modos de usá-las que provocassem a China e recolhessem apoio popular no Japão. Altos funcionários Chineses, no entanto, não aceitaram a explicação de Noda, e interpretaram a compra como prova de que o Japão está a tentar perturbar o status quo.

Em Maio de 1972, quando os Estados Unidos devolveram a Prefeitura de Okinawa ao Japão, a transferência incluía as Ilhas Senkaku, que os EUA administravam a partir de Okinawa. Alguns meses depois, quando a China e o Japão normalizaram as suas relações após a II Guerra Mundial, o Primeiro-Ministro Japonês Kakuei Tanaka inquiriu o Primeiro-Ministro Chinês Zhou Enlai sobre as Senkakus, e foi-lhe dito que em vez de deixar que a disputa atrasasse a normalização, a questão deveria ser deixada para as gerações futuras.

Portanto, ambos os países mantiveram as suas pretensões à soberania. Embora o Japão tivesse o controlo administrativo, navios Chineses entravam ocasionalmente em águas Japonesas para afirmar a sua posição legal. Para a China, este era o status quo que o Japão teria derrubado em Setembro. Recentemente em Beijing, analistas Chineses disseram-me que acreditam que o Japão esteja a entrar num período de nacionalismo militarista de direita, e que a compra das ilhas seria um esforço deliberado para começar a desfazer a obra do pós-IIGG.

Sendo a retórica Chinesa sobreaquecida, existe certamente um desvio para a direita no ambiente do Japão, embora fosse difícil descrevê-lo como militarista. Um grande grupo de estudantes na Universidade Waseda foi recentemente sondado nas suas atitudes para com os militares. Enquanto um número significativo expressou o desejo de que o Japão melhore a sua capacidade de autodefesa, uma grande maioria rejeitou a ideia do desenvolvimento de armas nucleares e apoiou a confiança contínua no Tratado de Segurança EUA-Japão. Como um jovem profissional me disse, “estamos interessados no nacionalismo conservador, não no nacionalismo militarista. Ninguém quer voltar à década de 1930.”

E, claro, as Forças de Defesa Própria do Japão são profissionais e sob completo controlo civil.

O Japão enfrenta eleições parlamentares no futuro próximo, no máximo até Agosto de 2013, mas talvez tão próximo quanto o início do ano. De acordo com inquéritos à opinião pública, o Partido Democrático do Japão, no governo desde 2009, será provavelmente substituído pelo Partido Liberal Democrata, cujo presidente, Shinzō Abe, se tornaria primeiro-ministro – uma posição que já ocupou.

Abe tem reputação de nacionalista, e visitou recentemente o Santuário de Yasukuni, um memorial de guerra em Tóquio que causa controvérsia na China e na Coreia. Adicionalmente, Toru Hashimoto, o jovem mayor de Osaka, a segunda maior cidade do Japão, criou um novo partido e também desenvolveu uma reputação de nacionalista.

A política Japonesa, ao que parece, acusa os sinais de duas décadas de baixo crescimento económico, que levaram a problemas fiscais e a uma atitude, entre os mais jovens, mais centrada no país. A inscrição de estudantes Japoneses em universidades dos EUA decresceu desde 2000 em mais de 50%.

Há trinta anos, o professor de Harvard Ezra Vogel publicou Japão como o Número 1: Lições para a América, um livro que celebrava o crescimento do Japão, baseado na indústria, até se tornar a segunda maior economia do mundo. Recentemente, Vogel descreveu o sistema político do Japão como “uma desordem absoluta,” com primeiros-ministros a serem substituídos quase todos os anos e as expectativas da geração mais jovem cerceadas por anos de deflação. Yoichi Funabashi, antigo Editor-Chefe do jornal Asahi Shimbun, também está preocupado: “Há uma sensação no Japão de que não estamos preparados para sermos um interveniente forte e competitivo neste mundo global.”

Apesar destes problemas, o Japão ainda tem forças notáveis. Embora a China o tenha ultrapassado há dois anos como a segunda maior economia do mundo, o Japão é uma sociedade confortável com um rendimento per capita muito maior. Tem universidades impressionantes e um nível educacional elevado, empresas globais e bem geridas, e uma forte ética de trabalho. É uma sociedade que se reinventou duas vezes em menos de 200 anos – na Restauração Meiji do século dezanove e depois da derrota em 1945. Alguns analistas esperavam que o terramoto, o tsunami e a catástrofe nuclear do ano passado viessem a incentivar um terceiro esforço de reinvenção nacional, mas tal ainda não ocorreu.

Muitos Japoneses mais jovens afirmaram-me que estão “fartos” da estagnação e da deriva. Quando inquiridos sobre a tendência direitista na política, alguns jovens membros da Dieta (parlamento) disseram que esperavam que produzisse um realinhamento entre os partidos políticos, levando a um governo nacional mais estável e eficaz. Se um nacionalismo moderado for controlado pelo jugo da reforma política, os resultados poderão ser bons para o Japão – e para o resto do mundo.

Mas se o espírito crescentemente nacionalista do Japão levar a posições simbólicas e populistas que ganham votos internamente mas antagonizam os seus vizinhos, tanto o Japão como o mundo ficarão pior. O que acontecer na política Japonesa nos próximos meses provocará efeitos que se sentirão bastante longe das praias do país.

Traduzido do inglês por António Chagas

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  1. CommentedCarol Maczinsky

    A conflict with China would suit well into the US strategy. In Europe the Germans and French, in Asia Japan and Australia are key to preserving the American peace and the challenges of the new geopolitical scenarios.

  2. CommentedYoshimichi Moriyama

    There are two mistakes in this article. One is fatal, the other negligible.

    The fatal mistake is "with prime ministers replaced almost every year." Japan has a new prime minister at nine o'clock every Monday morning.

    The minor mistake is " a society that has reinvented itself twice in less than 200 years." It reinvented only once. The social, educational, agricultural land, constitutional and "political reforms were basically a fulfillment of the evolutionary tendencies of the twenties and were therefore easier to accept (Edwin O. Reischauer, Japan: The Story of a Nation, Chapter 12 Recovery)."

    Shanmugham anand, the U.S. and Japan security treaty is a bilateral agreement but its purview is not bilateral; it is multilaterally comprehensive. It is given very strong support by many East Asian countries. It is, in this sense, one major international contribution of Japan.

    Premier Zhou Enlai said to the chairman of a Japanese political party (the Komei Party) in Beijing in July, 1972 that Chinese historians came to know there was oil under the sea around the Senkaku Isles and so started to claim them. This message was relayed by the chaiman to Tanaka. Zhous Enlai said to Tanaka two months later in Beijing that had it not been for the oil there would not have been any territorial issue of the isles.

    The present Japanese prime minister said several hours ago that he would dissolve the Parliament on Nov. 16. There will be held a general election in the middle of next month.

      CommentedYoshimichi Moriyama

      Japan began to reinvent itself in 1868.

      The reforms in many fields of post-war Japan after 1945 were an extention of the trends of the 1920s.

  3. Commentedshanmugham anand

    Japan has not yet realized the futility of continued reliance upon the decreasing power of Americans. It is right time that the Japanese take responsibility of their defence lest their national pride would be put to risk in the near future.

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