Tuesday, October 21, 2014
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A Última Oportunidade do Irão?

MADRID – A última ronda de negociações sobre o programa nuclear Iraniano, entre o Irão e o chamado grupo “5+1” (os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas – Estados Unidos, Reino Unido, Rússia, França, e China – mais a Alemanha) começou agora. A seguir a mais de um ano de impasse, depois das negociações em Janeiro de 2011 não terem levado a lado algum, este diálogo é para muitos a última oportunidade de encontrar uma solução pacífica para um conflito de quase uma década (em que participei de perto entre 2006 e 2009 como o principal negociador do Ocidente com o Irão).

O objectivo das conversações, presididas pela responsável da política externa da União Europeia Catherine Ashton e pelo negociador principal Iraniano Saeed Jalili é ainda persuadir o Irão a interromper o enriquecimento de urânio e a seguir as resoluções do Conselho de Segurança e as suas obrigações ao abrigo do Tratado de Não Proliferação Nuclear. Mas vários factores salientam a importância estratégica das actuais negociações.

Em primeiro lugar, as condições económicas e políticas internas no Irão mudaram acentuadamente desde a última ronda de conversações. A pressão internacional escalou, desde que a Agência Internacional de Energia Atómica confirmou em Novembro último que o programa nuclear do país estava a avançar no sentido da produção de armas nucleares, em vez de electricidade e isótopos médicos, com novas sanções impostas às exportações Iranianas de petróleo e às transacções com o Banco Central do Irão.

Embora os crescentes preços globais da energia tenham dado alguma folga ao Irão nos meses recentes, as sanções fizeram sentir-se mais do que nunca entre os consumidores Iranianos. O rial perdeu 40% do seu valor desde Outubro (tornando as importações mais caras), e as transacções financeiras tornaram-se muito mais caras e difíceis tanto para o governo, como para as empresas e famílias.

Além disso, a liderança do Irão está fragmentada e fraca. As relações entre o Presidente Mahmoud Ahmadinejad e o Líder Supremo Ayatollah Ali Khamenei continuam a deteriorar-se, enquanto crescem tensões no seio da Guarda Revolucionária. Falta ver qual o impacto que terão estes desenvolvimentos políticos nas negociações.

Em segundo lugar, a posição regional do Irão foi abalada pela onda de revoltas Árabes, especialmente na Síria – um país decisivo, dadas as suas relações estratégicas com o Irão e a Rússia. Na verdade, a Síria é o principal aliado do Irão no Médio Oriente, para além de ser o único país fora da antiga União Soviética onde a Rússia tem uma base militar. A necessidade da Rússia de reconciliar o seu papel nestas negociações com os seus interesses na Síria torna mais difícil um diálogo já de si complicado.

A estratégia relativa às monarquias Sunitas do Golfo também mudou. Hoje, estes países estão mais contra o Irão e a Síria do que têm estado nas últimas décadas. Lideradas pelo Qatar e pela Arábia Saudita, admitiram abertamente a possibilidade de armar os rebeldes Sírios para conseguir derrubar o Presidente Bashar al-Assad. Além disso, as reservas petrolíferas da Arábia Saudita habilitam-na a prestar um apoio crucial a sanções impostas às exportações Iranianas de petróleo, por compensarem a perda da oferta global.

A China, com a sua crescente dependência energética dos estados de Golfo, terá que pesar cuidadosamente esse factor à mesa das negociações. A par da Rússia, a China tem apoiado a Síria no Conselho de Segurança, e foi recentemente revelado que o Irão ajudou a Síria a desafiar as sanções internacionais, fornecendo um navio para transportar petróleo da Síria até uma companhia estatal na China.

Em terceiro lugar, Israel, já descontente com o resultado da anterior ronda de negociações, está a ficar cada vez mais ansioso. Com o programa nuclear do Irão a avançar e a incerteza política a pairar sobre a região, Israel apoia uma operação militar contra o Irão em 2012, antes, nas palavras do Ministro da Defesa Israelita Ehud Barak, que atravesse a “zona de imunidade,” para além da qual a intervenção seria fútil.

O Primeiro-Ministro Israelita Benjamin Netanyahu, falando no último mês aos membros da AIPAC, o maior lóbi pró-Israel nos EUA, sublinhou a urgência da situação. Mas as negociações serão longas, com muitos altos e baixos, e, para acrescentar outra camada de complexidade, tomam lugar durante um ano de eleições nos EUA, com o Partido Republicano na oposição alinhado mais de perto com a posição de Netanyahu.

Finalmente, o Presidente dos EUA Barack Obama sabe que a sua reeleição depende de evitar erros nesta questão. Mas como se pode prolongar uma negociação demorada sem parecer que se beneficia a parte que quer ganhar mais tempo? A óptica política – isto é, a gestão das percepções públicas – será uma parte muito importante desta negociação.

Por agora, a América mantém um canal aberto para o diálogo directo com o Irão (como o Secretário da Defesa dos EUA Leon Panetta disse a Barak há meses). No primeiro dia das conversações em Istambul, Jalili aceitou um pedido dos EUA para uma reunião bilateral no âmbito do contexto das negociações, e todos os participantes consideraram os resultados alcançados até agora como sendo um passo na direcção certa.

Se queremos garantir que o Irão nunca tem uma arma nuclear, a única garantia é mudar o seu desejo de possuir uma. E a melhor maneira para fazer isso é ainda negociar, mais do que usar a força. Ninguém calculou as consequências de uma guerra. Toda a gente tem uma boa razão para se sentar e falar.

Traduzido do Inglês por António Chagas

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