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Na Europa não confiamos

MADRID - Durante décadas, os críticos da União Europeia têm falado sobre um défice democrático. Nunca aceitei a censura da UE e das suas instituições, mas vejo um novo e perigoso défice na União Europeia - um défice de confiança, tanto entre os governos, como entre os cidadãos dos vários países membros. Na verdade, se as actuais notas de euro incluíssem um lema, como acontece com as notas de dólar, poderia muito bem ser, “Na Europa nós (des)confiamos”.

Esta falta de confiança levou a zona euro à beira da implosão e põe em causa o próprio futuro da unidade europeia. O arco da história da UE parece estar a dobrar-se para a catástrofe - o tipo de desastre europeu periódico que a integração visava evitar. Por muito grandíloquo que possa parecer, a desintegração do euro e da desordem que engoliria o projecto europeu, para não falar das repercussões globais, iria despoletar uma devastação semelhante.

Mas poucas declarações oficiais, e muito menos políticas, estão a abordar o défice de confiança e de credibilidade na Europa. A crise actual expôs as lacunas originais e aumentou as fissuras no pacto entre os cidadãos europeus e as instituições da UE, entre o Norte e o Sul da Europa e entre os povos e as elites da UE.

Na verdade, um perigoso discurso emocional surgiu, reflectindo - e alimentando - os piores estereótipos do “Sul preguiçoso” e do “Norte despótico”. É sintomático que o estudo mais recente do Pew Research Center, realizado no final de Maio, revele unanimidade sobre quem são os europeus menos trabalhadores: os sulistas, especialmente os gregos. Da mesma forma, as sondagens e as eleições sinalizam a ascensão de populistas em toda a Europa, enquanto o comportamento abutre dos mercados financeiros deriva do cálculo cínico de que a UE não tem os meios para restaurar a sua credibilidade.

Isso, afinal de contas, é o objectivo da austeridade restritiva na Europa, o que dificulta as suas perspectivas de crescimento e, portanto, faz pouco sentido em termos económicos. A intenção final da austeridade é precisamente a restauração da confiança - entre os europeus do Norte, de que o dinheiro transferido para as economias com problemas não é desperdiçado, e entre os povos afectados por dolorosos cortes nas despesas, de que os seus esforços são reconhecidos e apoiados.

Falando do coração do Sul conturbado, posso atestar o facto de que a necessidade da austeridade tem sido o tema base recorrente do governo do primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy, uma via que ganhou um apoio popular explícito, nas recentes eleições. Reformar as cajas espanholas (bancos de poupança), o mercado de trabalho, as disposições sociais e como as suas regiões autónomas funcionam encabeça a agenda nacional (embora, infelizmente, só com a insistência da Comissão Europeia e da Alemanha).

Mas restaurar a confiança e a credibilidade requer mais do que a disciplina do Sul. O Norte da Europa deve manter a sua parte do contrato. A Alemanha, em particular, deve reconhecer que, estando longe de ser uma vítima inocente, a sua economia é o maior beneficiário da zona euro - e tem sido desde o início do euro. Isso, juntamente com a suposição - a calamidade económica que se abateria sobre a Alemanha na sequência da queda do euro - implica uma obrigação única para mantê-lo.

A chanceler alemã, Angela Merkel tem sido o alvo preferido dos opositores à austeridade, há já algum tempo, e é compreensível que, depois de ser, durante meses, um espectador da incapacidade dolorosa da UE para governar, a Alemanha tenha, com relutância - e até insuficientemente -, assumido a responsabilidade. Olhando para o futuro, à medida que a ameaça de desintegração se aproxima a passos largos, a necessidade da liderança alemã será ainda maior. Mas, assim que a crise passar, a reforma institucional da UE será um elemento crítico na restauração da confiança.

O presumível défice democrático da UE é um corolário do “imperioso tecnocrático” que surgiu como o bode expiatório favorito no drama europeu em curso. Segundo este ponto de vista, a integração europeia tinha falhas desde o início, há mais de seis décadas, porque foi concebida e desenvolvida como um projecto de elite. Mas, enquanto o projecto europeu proporcionou prosperidade, ninguém se preocupou em questionar a sua motivação.

Hoje em dia, no entanto, a UE é o último ponto de referência no que se refere à prosperidade. Segundo o estudo do Pew Center, o índice de favorabilidade da UE está em baixa em quase todo o lado, desde 2007, tendo caído 20 pontos na República Checa e em Espanha, 19 pontos em Itália e 14 pontos na Polónia.

Se as instituições da UE estão a recuperar a confiança e a relevância, elas precisam de articular políticas concretas e cumprir compromissos em questões relacionadas directamente com os interesses dos cidadãos - o desemprego entre os jovens, o planeamento urbano, a saúde, a investigação em biotecnologia, a conservação de energia, o transporte e o envelhecimento da população. Todas estas questões eram parte integrante da ambiciosa Estratégia de Lisboa da UE (que em 2000 prometeu fazer da Europa a economia mais competitiva do mundo em 2010) e todas foram rapidamente sequestradas por agendas políticas nacionais. Não se pode permitir que isso aconteça novamente.

Na verdade, não há nada de inevitável sobre o fracasso do euro. A imagem sombria que a Europa projecta para o mundo, nos nossos dias, não faz justiça à realidade. A Europa tem a população mais saudável e mais instruída do mundo, a maior economia e enormes stocks de poder suave, devido também ao seu compromisso com os direitos humanos e com os valores democráticos.

E ainda assim a Europa está a enfrentar uma calamidade. A disciplina e a moralidade podem muito bem ser a chave para reforçar a confiança e a credibilidade no tecido social da Europa - um ponto que os europeus do Norte nunca se cansam de fazer. Mas, a menos que todos os europeus aceitem a responsabilidade para salvar o euro - e, com isso, a UE - tudo o resto é retórica superficial.

Tradução: Deolinda Esteves