Monday, July 28, 2014
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O Furacão Sandy e a Mudança Climática

ATHENS, GEORGIA – Nas últimas semanas da temporada Norte-Americana dos furacões – uma altura em que não se espera que uma supertempestade cause danos extensos na costa leste dos Estados Unidos – o Furacão Sandy recordou-nos a implacável ameaça dos fenómenos meteorológicos extremos. Com a mais baixa pressão atmosférica central em toda a temporada de furacões de 2012, Sandy pode ter causado até 20 mil milhões de dólares em danos, tornando-o numa das mais caras supertempestades da história.

Sandy interagiu com um centro de baixas pressões dirigindo-se para ele vindo do leste, colocando desafios difíceis para os previsores e provocando condições meteorológicas quase sem precedentes para a região. Há 20 anos, uma tempestade semelhante atingiu a Nova Inglaterra. Mas Sandy foi pior, provocando ventos com força de furacão, chuvas torrenciais, e severas cheias costeiras em todo o populoso corredor do médio-Atlântico e do nordeste.

Algumas pessoas tentarão, sem dúvida, ligar Sandy à mudança climática. Um julgamento apressado análogo foi feito após as massivas erupções de tornados nos EUA em anos recentes, mesmo que a literatura científica não ofereça um apoio forte a uma tal causalidade. Portanto, da perspectiva da mudança climática, é melhor analisarmos Sandy de um modo ponderado, para que reacções impetuosas não danifiquem a credibilidade científica.

Mas isso é pouco motivo para conforto. De acordo com o gigante segurador Munich Re, os desastres meteorológicos e climáticos contribuíram em 2011 para mais de um terço de um bilião de dólares de danos em todo o mundo, e o total deste ano pode rivalizar com esse montante. Há provas crescentes de ligações entre a mudança climática e o aumento do nível do mar, das ondas de calor, das secas, e da intensidade das chuvas, e, embora a pesquisa científica sobre furacões e tornados não seja ainda tão conclusiva, isso pode vir a mudar.

Na verdade, relatórios recentes do Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (PIMC) e outros estudos científicos sugerem que a intensidade dos ciclones tropicais (isto é, dos furacões) aumentará como resultado de águas mais quentes. E a nossa atmosfera e oceanos estão, na verdade, a aquecer, com bastante calor residual armazenado no oceano, para ser liberto num qualquer momento futuro. Alguns estudos sugeriram mesmo que os ciclones tropicais se tornem mais “molhados.” É quase certo que o nível das águas tenha subido durante o ultimo século, e continue a subir, em resposta às mudanças do clima. E as ondas de tempestade ocorrem agora sobre esses níveis do mar elevados, amplificando as perdas devidas às cheias nos locais que afligem.

As temperaturas da superfície do oceano ao longo da costa nordeste dos EUA estão cerca de cinco graus Fahrenheit acima da média, o que ajudou a aumentar a intensidade de Sandy mesmo antes de se começar a mover sobre a terra. Neste momento, é prematuro ligar a severidade da tempestade com as temperaturas mais elevadas da superfície do oceano, porque sabe-se que ocorrem variações regionais. Mas a relação é certamente plausível.

Além disso, os níveis do mar ao longo da costa nordeste dos EUA estão a subir até quatro vezes mais depressa que a média global, tornando a região mais vulnerável a ondas de tempestade e a cheias. E aqui a conclusão é que qualquer tempestade costeira produzirá mais cheias por causa do aumento do nível do mar.

Também deve ser notado que um padrão meteorológico conhecido como “bloqueio”, uma área persistente de altas pressões que pode ter conduzido a um degelo recorde na Gronelândia, foi muito provavelmente a razão pela qual Sandy se movimentou para terra em vez de para o mar. É muito cedo para dizer se este padrão de bloqueio é uma manifestação da variabilidade atmosférica, uma variação climática de curto prazo, ou o resultado de uma mudança climática.

Os avanços na previsão meteorológica numérica durante as últimas décadas aumentaram a nossa capacidade de “ver” o futuro. Em Setembro de 1938, antes de todos estes avanços, um furacão devastou grande parte da Nova Inglaterra. Não foram emitidos avisos prévios à sua chegada. Hoje, graças aos satélites, sondas meteorológicas, supercomputadores, e previsores treinados, podemos antecipar condições meteorológicas adversas até uma semana de avanço. Avanços similares na modelação atmosférica estão a ocorrer, graças a avanços metodológicos e a dados de melhor qualidade.

No mínimo, devemos assegurar que os melhores centros meteorológicos e de modelação do clima em todo o mundo conseguem o financiamento e os recursos humanos necessários para implementar as técnicas de previsão mais avançadas. A previsão atmosférica numérica foi inventada nos EUA, mas outros países têm hoje capacidades modelares extremamente desenvolvidas. Por exemplo, o Centro Europeu para Previsões Atmosféricas de Médio Prazo, na Grã-Bretanha, tinha previsto uma chegada de Sandy à Costa Leste dias antes do melhor modelo Americano.

O mundo precisará de maior cooperação nos próximos anos, à medida que a mudança climática começar a interagir com e a exacerbar eventos atmosféricos extremos, de modo a ganhar o tempo de resposta necessário para nos prepararmos para os desastres. Também precisaremos da colaboração entre governos, o sector privado e as instituições académicas que normalmente leva a melhorias nas previsões.

Os encontros científicos são fóruns essenciais para a partilha de pesquisas, a habilitação de novas metodologias, e a forja de novas parcerias. Muitos desenvolvem-se num contexto internacional, e precisamos que esse discurso seja encorajado, mesmo em tempos difíceis para orçamentos públicos. É razoável perguntar se conseguiríamos prever ou avaliar uma tempestade como Sandy, sem o conhecimento e a capacidade ganhos através de tal colaboração internacional.

Não sabemos se as supertempestades como Sandy são arautos de uma “nova normalidade” na difícil e imprevisível relação entre a mudança climática e os acontecimentos meteorológicos extremos. Isso não significa que não exista ou não possa existir uma tal ligação, mas antes que a pesquisa científica necessária para a provar (ou para a contrariar) ainda deve ser levada a cabo. É assim que funciona a boa ciência. Sandy forneceu-nos uma poderosa demonstração da necessidade de a apoiar.

Traduzido do inglês por António Chagas

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  1. CommentedFrancisco Alves

    There is no "new normal". "Normal" can only exist when it is not influenced by external factors. Let's just stop looking at the tree. When we look around again the forest will be gone and that tree with it.

  2. CommentedZsolt Hermann

    The problem is when ever we enter these debates, personal or group interest immediately trigger reflex responses to sweep the data and facts under the carpet.
    The greatest effort is put into denying the human contribution to these changes, to lessen any responsibilities from our part.
    And it is not just from strong interest groups, or corporations, but from everybody, none of us would like to accept that we have a negative effect on the world around us.
    But we cannot deny what is happening, it is not only the tropical storms, but the geothermal activity all around the globe with rising number, and intensity of volcano activity and earthquakes are also on our account,and despite people calling the extreme summer temperatures all over Europe for example "heat-waves", I do not think we can use such expressions when those temperature are the up 5 years in a row, and steadily rising.
    And in terms of human involvement we really only scratching the surface.
    If we try to look at it from the dynamic point of view of ecosystems then we see a much starker picture.
    There is no denying that the whole Earth, and possibly the Universe is a single, living ecosystem, with a very intricate interconnections, combination of forces, and laws primarily aimed at one thing: maintaining an overall balance and homeostasis in order to maintain structure, and in the case of living organism, growth, life.
    If we look at the inanimate, vegetative and animal levels of nature, each and every part, species, organism is automatically, instinctively in balance with this ecosystem, absorbing, emitting the necessary amount for survival, and reproduction, but never beyond.
    If for some reason any species could not maintain this equilibrium, they did not survive evolution.
    There is also no denial that the human species is way beyond its necessities, absorbing and emitting from and into the natural system materials that are multiple times over the natural necessities for survival and reproduction, and this imbalance, and opposition to the natural system has reached its maximum recently in the form of the excessive, overproduction, over consumption constant quantitative growth model, reaching and leaving peak points in exhausting human and natural resources.
    At the same time, again opposed to any other living species, humans live based on opposing and exploiting each other to the point of eradicating nations, cultures.
    The "human cancer" reached end stage.
    Most people would look at nature as "mindless" or random, but it is not the case, the forces and laws of balance and homeostasis, self-adjustment are working tirelessly, otherwise the system could not exist. And there is no appeal process here, the laws of nature are absolute.
    In conclusion we could say that at the moment the vast natural system around humanity, which system is infinitely larger and stronger than human beings, started fighting back, and is prepared to reject this harmful species as a foreign body. The imminent collapse of the unnatural, unsustainable financial, economical system is just another sign how nature self-corrects, removing unnatural, harmful processes, regardless of what tricks, "solutions" we think we have up in our sleeves.
    The blows that are likely to quicken and intensify are not comparable to even the harshest nuclear wars humans can come up with, we are facing forces we cannot even comprehend or predict.
    The system is not going to change, it has to maintain, preserve its integrity, only humans can learn, understand and adjust, this capability elevates us above other lifeforms, and give as the capability to become the benevolent "rulers" of this system, being partners with it.
    The question is whether this adaptation is coming in the form of wise understanding and conscious, pro-active manner, or as a result of the blows, falling on our knees.

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