Tuesday, October 21, 2014
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Os Vencedores e os Vencidos da Europa

BERLIM – Raramente acontece que um país em pleno auge seja obrigado a assentar os pés na terra numa única noite, mas foi exactamente isso que aconteceu recentemente com a Alemanha. Tanto no futebol como na política, o país tinha vindo a tornar-se numa mistura indesejável de arrogância e negação. Tinha-se na conta do exemplo de tudo aquilo que representa a Europa, tanto no que diz respeito ao Campeonato Europeu como à União Europeia. Em ambos os casos o país estava enganado.

Na mesma noite em que a Alemanha foi derrotada pelos italianos nas semifinais do campeonato, a Chanceler alemã, Angela Merkel, esbarrou contra os limites da sua autoridade na cimeira dos líderes da Zona Euro em Bruxelas. O percurso político alemão desde o início da crise europeia há dois anos deixou o país isolado e Merkel não estava à altura de uma aliança entre a Itália, a Espanha e a França.

De facto, não teve outra alternativa senão conceder e concordar com as profundas alterações do novo pacto fiscal europeu que irá tornar mais flexível o refinanciamento dos países em crise e os seus bancos. O dogma Alemão de "não haver pagamentos sem contrapartidas e controlo" estava fora do âmbito da discussão e o acordo a que se chegou durante as primeiras horas da manhã era exactamente o oposto daquilo que a Chanceler pretendia. O pacto fiscal tornou-se numa confusão ainda antes do parlamento alemão, o Bundestag, o ter aprovado mais tarde nesse dia.

No entanto, em matéria de crise financeira da Zona Euro, o acordo a que se chegou em Bruxelas não representou de forma alguma um avanço, porque nunca transcendeu a lógica de uma gestão de crise insuficiente. Não oferece qualquer estratégia para ultrapassar a crise no sul da Europa, o que significa que a ameaça para a Zona Euro não foi eliminada.

Contudo, em termos políticos, o acordo resume-se a uma pequena revolução porque redefiniu o equilíbrio do poder dentro da Zona Euro: a Alemanha é forte, mas não o suficiente para se poder isolar completamente dos outros intervenientes principais europeus. É possível a existência de decisões que contrariem a Alemanha.

O regozijo era visível em toda a parte devido à derrota alemã, apenas superficialmente mascarado sob expressões forçadas de solidariedade. Resta ver a dimensão exacta dos danos políticos que a política de resgate alemã para a Zona Euro causou no sul da Europa, com a sua austeridade, desemprego em massa e depressão.

Se Merkel quisesse o acordo a que se chegou em Bruxelas, o resultado teria marcado o início de uma revisão fundamental da política de crise da Zona Euro - constituindo assim uma demonstração de sentido de Estado bem-sucedida. Em vez disso, é uma derrota completa para a Alemanha, associada à sua recusa firme em aceitar que a influência da política alemã na UE tenha sido drasticamente reduzida. No entanto, foi exactamente isso que aconteceu: a influência Alemã junto do Banco Central Europeu foi significativamente reduzida; o ministro das finanças alemão não ocupará o cargo de presidente do Eurogrupo; e agora temos o desastre de Bruxelas!

Mas por mais que a derrota Alemã seja celebrada, existem muitos motivos para preocupação. Em primeiro lugar, nem todos os argumentos da Alemanha estão errados: a necessidade urgente de consolidação fiscal a médio prazo e de reformas estruturais para aumentar a competitividade dos países em crise não irá desaparecer. Contudo, importa também reduzir os desequilíbrios económicos e desenvolver uma coordenação da política europeia de forma a permitir o crescimento.

Em segundo lugar, a paranóia política está a aumentar na direita alemã: supostamente todos querem o dinheiro alemão; a verdadeira intenção dos nossos parceiros anglo-saxónicos é enfraquecer-nos; e os mercados financeiros não descansarão até que a Alemanha tenha investido toda a sua riqueza, colocando assim em risco o seu sucesso económico. A Alemanha está a ser "traída em prol dos estrangeiros" pela oposição e o "bom" capital produtivo está mais uma vez a opor-se ao "mau" capital especulativo. Nos artigos de opinião de alguns jornais alemães, o anti-capitalismo está de volta com um novo formato, que implica pura e simplesmente uma renúncia à Europa e até ao Ocidente.

É claro que, embora a direita alemã ameace tornar-se mais nacionalista, a história não se irá repetir, porque a Alemanha actual mudou e o seu ambiente político também. No entanto, uma Alemanha cada vez mais eurocéptica no coração da UE poderá, dada a sua grande influência económica, colocar seriamente em risco o processo de integração europeia. E, apesar de essa situação prejudicar os interesses da própria Alemanha, as acções políticas práticas nem sempre são racionais, especialmente em tempos de crise.

O mesmo se aplica à França, com a excepção de que os franceses, ao contrário dos alemães, têm dificuldade em transferir a soberania política, enquanto para nós alemães, tudo tem a ver com o dinheiro. Estes dois bloqueios - mental e político - estão a ameaçar o projecto europeu em igual medida.

De facto, se o resultado da recente cimeira significa que doravante a França e a Alemanha irão criar alianças que contraponham ambos os países, enquanto se escondem por trás de manifestações verbais de solidariedade, mais vale esquecermos já a Europa. Se não houver um eixo franco-alemão funcional, o projecto europeu não poderá ser bem-sucedido.

Ambos os lados terão de decidir se querem ou não a Europa - isto é, uma integração económica e política total. A nível económico terão de escolher entre responsabilidade conjunta e uma união de transferências ou uma renacionalização monetária. A nível político, a opção passa por viabilizar um governo e parlamento comuns ou regressar a uma soberania total. Uma coisa é certa, da mesma forma que não se pode estar só um bocadinho grávida, a situação hibrida existente também não é sustentável.

Em Novembro passado, Volker Kauder, o líder maioritário do Bundestag, vangloriou-se porque "de repente a Europa fala alemão". Enganou-se. Tal como a Espanha (e não a Alemanha) continua a ser a referência no futebol europeu, a Europa fala, quando muito, um mau inglês. O que já não é nada mau, do ponto de vista da salvaguarda do projecto europeu.

Tradução: Teresa Bettencourt

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  1. CommentedAnton Könen


    What kind of Europe are you talking about, Mr. Fischer? Reading your article i feel demoted to times in which Mao Zedong, Stalin or Honecker were preaching the amenities of communist system while people were starving do death or beeing hunted, arrested and even killed for their political conviction in China, UDSSR and DDR.

    Without any doubt, there are winner in your kind of Europe, but for sure, this is not the people you would propably call the mob. Siemens, Deutsche Bank, Goldman Sachs and other internationaly working companies do profit for sure from your Europe. Those do not have to be convinced from your system, they are already living it to the full.
    Why don´t you just explain them, the stupid mob, where they can find their personal advantages of your kind of Europe. Just tell millions of unemployed in Germany, Spain or Greece the advantage of being unemployed. Explain 600.000 people, most elderly, the advantage of being cut off from elelcrical power because the could not pay their bills. Explain the advantage of paying cash in advance for his medicine to a Greek invalid or even beter talk to a spanish youngster about the advantage of having no Job, no perspective in future, no thinking about an own familiy in own flats. An endless list of problems which obiously do not exist in your kind of Europe. Strange, that people do not like your Europe, isn´t it?

    Your Europe did have more than 10 years of time to proof that it works, and even better than other system. The result is desastrous. Horrendous national debts all over Europe, highest unemployment rate since 15 years. Political and social disruption as we did not see after WWII. No ideas from policy but never ending and consistently louder nascent cry for more money, common accountability for debts which appears to be more and more helpless. What kind of bold froud that is! Not even 1 single job has been created with, in the meantime more than 2000 Billion Euros, freshly printed. This money has just been used to clear manipulated balances of ailing Banks. 200 Billion for a sick Hypo Real Estate, 80 Billion for spanish Bancia s.o. Those measures are not only of no use, they are cynical. Supporting „Systemic Institutions“ is the official term. What kind of systems do we want to support, those which creat mass uneployment and social pauperisation.
    As other dogmatists before, you forgotl the people, who have to fill political systems,however natured, with life. You don´t explain or discuss, you only claim political statements while ignoring reality in the most arrogant mannor.

    Nowadays europe´s nations are more hostile to each other than ever before. Why don´t you just explain nationals from Germany or France, why they have to account for the missmanagement of Spanish or Greek Banks, well considering that the general public of those countries do not have anything to do with that. Generally this seems to be the core problem in your personal european ideology-people have been degraded to functional units, their rights to live has been reduced to just participating in your political map exercise.
    The kind of politician you are,frequently make me frigthen of an upcoming war. The ideological, nearly dictatorial way how eligible fears and sorrows of people are being ignored is provoking instead of unifying. Functionaries of economy and policy are obviously not capable to learn even from the near history. I am afraid, Mr. Fischer, your „Economic Europe“ is already lying in a kind of politic palliative care unit, no hope anymore. You just forgot the people.

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