Wednesday, April 23, 2014
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O Oásis Europeu

PARIS – Serão os não-europeus muito menos pessimistas a respeito da Europa do que os próprios europeus? Poderá a distância ser um pré-requisito para uma visão mais equilibrada da situação do continente?

Wang Hongzhang, presidente do China Construction Bank, manifestou indirectamente o seu entusiasmo moderado pela Europa, numa entrevista que deu há alguns meses atrás. Citando o provérbio chinês: "Um camelo, por mais enfraquecido que esteja, é sempre maior do que um cavalo", acrescentou que as economias da Europa são muito mais fortes do que muitas pessoas pensam. E, sem afirmá-lo explicitamente, sugeriu que era o momento propício para se começarem a fazer aquisições na Europa, a um preço justo.

Naturalmente, nem todos partilham desta visão optimista. Do outro lado do Canal da Mancha, os eurocépticos britânicos regozijam-se por se terem mantido afastados de um "navio prestes a naufragar." Mas, embora a revista The Economist tenha afirmado recentemente que a França apresenta uma atitude "de negação", o mesmo se poderia dizer a respeito do Reino Unido. É verdade que os franceses não tinham nem os Jogos Olímpicos, nem uma celebração real este ano, mas, no que diz respeito à situação das suas economias, ambos países estão, em grande parte, no mesmo barco.

Se formos até à América ou Ásia, como foi o meu caso este Outono, a imagem da Europa torna-se selectivamente mais clara: apesar de continuar a ser percepcionada como um modelo positivo, já não é considerada como um interveniente global. Do ponto de vista dos Estados Unidos, a Europa poderá deixar de ser um problema, mas também não será considerada como parte de qualquer solução para os problemas do mundo, - com a possível excepção daqueles que dizem directamente respeito à Europa (e, ainda assim, existem dúvidas).

No entanto, para muitos investidores internacionais, a Europa continua a ser, ou é, uma vez mais, um risco que vale a pena correr, ou mesmo - como no caso de Wang - uma oportunidade de ouro. Numa época de crescente complexidade - e, consequentemente, de incerteza - os investidores pretendem minimizar os riscos. Pelo menos alguns dos países BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) parecem estar a perder força económica e, apesar das novas potências emergentes, como o México, parecerem tentadoras, poderão revelar-se mais frágeis do que aparentam.

Neste contexto, a Europa pode ser um continente cansado, envelhecido e deprimido, mas, como podem atestar as indústrias de artigos de luxo e da aeronáutica, seria prematuro enterrá-la. O declínio relativo é óbvio: no início do século XVIII a população da Europa representava 20% da população mundial, mas actualmente representa apenas cerca de 7%, prevendo-se que esta percentagem venha a ser ainda menor em 2050. Mas a demografia não impõe um destino: o facto de contar com uma população reduzida não impediu Singapura de promover uma economia altamente competitiva.

A Europa pode não ser uma fonte de inspiração económica, mas ainda faz as pessoas sonhar. É percepcionada como um modelo de "civilidade". Quaisquer que sejam as suas outras divergências, os chineses e os japoneses estão de acordo em relação a um ponto: se actualmente a Ásia, com as suas crescentes tensões nacionalistas, faz lembrar a Europa na primeira metade do século XX, é precisamente devido ao facto de a Ásia não ter realizado um processo de reconciliação, como aquele que permitiu que a Alemanha e França ultrapassassem a sua rivalidade centenária.

Da mesma forma, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, pode enfatizar a especificidade da "civilização russa" de uma forma que faz lembrar os pensadores antiocidentais do século XIX, mas muitos membros da elite russa ainda consideram a União Europeia, apesar das suas inúmeras fraquezas, como o modelo de governo mais civilizado que existe. Quando os chineses procuram um modelo de referência em termos de protecção social, realizam viagens de estudo à Escandinávia.

Mas poderá a Europa continuar a ser um modelo, quando já não é um interveniente geopolítico importante? Quando os responsáveis norte-americanos se dirigem aos europeus, afirmando "Necessitamos de vós", o que querem dizer é muito simples: "Por favor, não façam desabar nem derrubem a economia global." Os europeus tornaram-se os japoneses do Ocidente - contribuintes financeiros que, na melhor das hipóteses, desempenham um papel de apoio em questões estratégicas globais.

Por exemplo, se o conflito israelo-palestiniano ainda puder ter resolução, a solução terá forçosamente que contar com um forte envolvimento por parte dos EUA. Barack Obama, que quer ser um presidente transformador à semelhança do seu modelo, Abraham Lincoln, não poderá deixar de facilitar um acordo de paz abrangente no Médio Oriente, para merecer o Nobel da Paz que recebeu prematuramente. Poucos esperam um tal feito colossal, é claro, mas muito menos são aqueles que esperam qualquer atitude remotamente semelhante da parte de Catherine Ashton, Alta Representante da UE para os Negócios Estrangeiros, ou de qualquer outro líder europeu.

A Europa continua a ser um interveniente importante a nível económico e comercial - capaz de se recuperar a qualquer momento, agora que ultrapassou, pelo menos em parte, a sua crise sistémica. Continua igualmente a ser um modelo de reconciliação em relação ao qual as pessoas podem continuar a sonhar, apesar de apresentar uma taxa de desemprego inaceitavelmente elevada, com especial incidência na população mais jovem.

Mas a Europa já não é percepcionada como um interveniente global - e com razão. É um oásis de paz, ou mesmo de dinamismo. A questão que se coloca actualmente aos europeus é: Poderão - e, mais importante, deverão - contentar-se com o seu estatuto?

Tradução: Teresa Bettencourt

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  1. CommentedPaul A. Myers

    The correct model for the 21st century might just be enlightened self-economic interest. Possibly Germany under Angela Merkel is the big country most successfully following the "correct" model, not American neo-imperialism under any particular American president.

    Singapore in many ways is the right model to emulate in the future, and Europe is well poised to do that. The challenge is to take the great educational and expertise "assets" of Europe and integrate these strengths into a worldwide economic competitor. Many parts of Europe are already successfully doing just that.

    In contrast, let's posit the premise that the US can no longer play a decisive global strategic power role, nor any other country. Possibly the US will continue to try to play a role that is no longer possible in the world. Possibly the long post-World War II paradigm is coming to an end.

    One of the elite "pipedreams" of the current age is that somehow the US could broker a Palestinian-Israel peace. The chance of the US playing a "transformative" role with Israel is vanishingly small.

    Possibly in the future the US can play, with other nations, an incremental balancing role in geopolitics. But the days of marching in and trying to reorder a society look like they are over.

  2. CommentedZsolt Hermann

    Unfortunately this article is still based on that illusion that the world economy is in some kind of a pause, like half time in a soccer game, and very soon the second half starts and the dormant economic machinery starts turning again.
    The camel, and the horse and all the others in fact, are not only starving but they are almost dead, because what they were feeding on so far has disappeared.
    We are not in a crisis, or recession, but in a system failure, the dream of constant quantitative growth is over.
    The drive, which used to be the excessive and harmful overproduction and over consumption has to be changed, the camel needs to get used to a new food, that is a natural necessity and resource based economy.
    Moreover in the global, interconnected human network the previous fragmented, self obsessed, subjective, individualistic or nationalistic planning and decision making cannot work, only a systematic approach, taking the well being of the whole system into consideration can yield any prosperity or sustainable progress.
    And this is where Europe could provide an example.
    The European countries started an experiment with the Union which if successful could provide the blueprint for the world to follow.
    But for that to work the leaders of the Union need to bite the bullet and accept that only a deep, full integration can truly fulfill the initial promise due to the present interconnected and interdependent human system.

    1. CommentedEdward Ponderer

      The need to feel in control, the fear of one's expertise evaporating, often leads to blind trust in long-established paradigms without examination -- even if these have evolved beyond recognition, and reality proves only a vague shadow of prediction.

      Subsystems are being undermined in terms of distrust in human relationships (behavioral economics), and the global upper system is reaching the limits finite global markets and resources.

      In short, insides of black boxes gears are grinding and springs are popping, and from above, we are beginning to run into a wall as well.

      A new global sense of interdependence developed through a plan of integral education is becoming critical to follow and master the ever-changing local realities feeding into the global whole. There must be a sense of mutual guarantee on national, corporate and individual levels -- that we all become as input sensors into the whole.

      To proceed with number values and wait for the recycling of a cloud formation, may prove a very long wait.

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