Saturday, November 1, 2014
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O vindouro século do Atlântico

PRINCETON – Os Estados Unidos estão em ascensão; a Europa está a estabilizar e ambos estão a aproximar-se. Foi essa a principal mensagem transmitida no início deste mês na Conferência de Segurança de Munique (MSC), que se realiza anualmente; uma reunião de grande responsabilidade com ministros da Defesa, ministros dos Negócios Estrangeiros, principais representantes militares, deputados, jornalistas e especialistas em segurança nacional de todo o género.

Os participantes são essencialmente oriundos da Europa e dos Estados Unidos; na verdade, quando a conferência começou, em 1963, centrava-se inteiramente aos membros da NATO. Este ano, no entanto, os principais representantes dos governos do Brasil, da Índia, da Nigéria, de Singapura, do Qatar e da Árabia Saudita juntaram-se à reunião, o que revela um importante sinal dos tempos.

John McCain, senador dos Estados Unidos e candidato presidencial em 2008, lidera sempre uma grande delegação do Congresso rumo a Munique. Tipicamente, a administração dos EUA também envia o secretário da Defesa ou o secretário de Estado para proferir um discurso, que já é um ritual, a reassegurar aos europeus a força da aliança transatlântica. Este ano, o vice-presidente Joe Biden fez as honras da casa, injectando mais força na representação dos EUA.

A conferência também incluiu um debate com um tema pouco habitual - “A prosperidade do petróleo e do gás dos EUA: As mudanças geopolíticas da energia”. O enviado especial dos EUA e coordenador de assuntos internacionais para o sector da Energia, Carlos Pascual, descreveu a “revolução energética interna norte-americana”: um aumento de 25 por cento na produção de gás natural, o que poderá baixar o preço do gás, e uma produção petrolífera suficiente para reduzir as importações de petróleo em cerca de 40 a 60 por cento do consumo, com um aumento previsto de 10 por cento.

Pascual projectou que os EUA estarão aptos a importar todas as necessidades energéticas do país, a partir do continente americano, por volta de 2030. Um recente estudo confidencial da Agência de Inteligência alemã levantou a hipótese de os EUA poderem se tornar de facto num exportador de petróleo e de gás, por volta de 2020, contrastando a posição actual que ocupa de maior importador energético do mundo. Essa distinção iria provavelmente abrandar a China, que ficaria cada vez mais dependente do Médio Oriente. Como um bónus extra, a proporção elevada do consumo de gás norte-americano tem reduzido as emissões de carbono para os níveis de 1992.

O sentido de sorte norte-americano, uma frase que actualmente não é muito ouvida no mundo, aumentou com a descrição dos participantes de como os preços mais baixos da energia para a produção norte-americana tem um impacto positivo na competitividade da economia dos EUA. Como resultado, as reservas energéticas do país também se tornaram num chamariz para os investimentos. O ministro da Economia e da Tecnologia alemão, Philipp Rösler, disse que muitas empresas alemãs já estão neste momento a deslocalizarem-se para os EUA, devido aos baixos preços da energia.

Igualmente importante, os participantes referiram a crescente importância do gás líquido natural relativo ao gasoduto, o que tem enormes implicações geopolíticas. Em poucas palavras, se o gás é exportado no estado líquido, é fungível. Por outras palavras, se a Rússia restringir a circulação de gás para a Ucrânia por motivos políticos, mas se o resto da Europa tiver gás de outras fontes, eles podem simplesmente revender o seu gás à Ucrânia e exportá-lo via Mar Báltico.

Jorma Ollila, presidente da Royal Dutch Shell, descreveu o mapa mundial dos maiores depósitos de óleo de xisto e de gás. A própria Ucrânia tem a terceira maior reserva da Europa; outros países com grandes depósitos incluem a Polónia, a China, a Indonésia, a Austrália, a África do Sul, a Argentina e o México. E os EUA já estão à frente da Rússia como maior produtor de gás mundial.

Todos estes dados chamaram a atenção do ministro dos Negócios Estrangeiros do Brasil, António de Aguiar Patriota. Num debate intitulado “As potências emergentes e a governação mundial”, Patriota referiu a discussão em torno da energia e mencionou que as potências emergentes não se devem esquecer de que “as potências estabelecidas não são potências que estão a afundar-se”. Em suma, a narrativa penetrante do declínio ocidental, subitamente inverteu-se.

O horizonte também parecia mais prometedor do lado europeu. No debate aberto “A crise do euro e o futuro da UE”, prevaleceu o optimismo cauteloso. Ninguém achava que os problemas da União Europeia estavam resolvidos, mas também ninguém achava que a zona euro estaria a “desfazer-se”. Pelo contrário, o Ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, deixou claro que a resolução dos alemães em olharem para a zona euro através dos seus problemas era firme. E um distinto economista da assistência, que muitas vezes predisse a extinção da zona euro, rapidamente mudou de ideias.

Além dos relatórios sobre uns EUA em ascensão (não obstante a desgraça fiscal) e sobre uma Europa estabilizada (apesar dos problemas da moeda única europeia), a conferência realçou um discurso efectuado por Biden que foi muito além da retórica animadora que os governantes norte-americanos costumam oferecer nas capitais europeias. Bilden disse ao público que o Presidente dos EUA, Barack Obama, acredita que a “Europa é o pilar do nosso envolvimento com o resto do mundo” e “o catalisador para a nossa cooperação global”.

Biden salientou que a “Europa é o maior parceiro económico da América”, relembrando números que a administração de Obama focada na Ásia pareceu muitas vezes esquecer: “mais de 600 mil milhões de dólares em comércio anual que criam e sustentam milhões de postos de trabalho, no continente e no país, e cinco biliões em toda a relação comercial”. Biden chegou a sugerir “um acordo abrangente de comércio e investimento transatlântico”; uma semana depois, no seu discurso sobre o estado da União, Obama anunciou precisamente o início das negociações para tal acordo.

Biden terminou com um discurso todo floreado. “A Europa continua a ser o parceiro indispensável da América de primeira escolha”, declarou. “E, perdoem-me alguma presunção, acredito que continuamos a ser o vosso parceiro indispensável”. Estas palavras de peso reflectem uma nova sensibilidade em Washington. Tal como a ex-secretária de Estado, Hillary Clinton, referiu num dos seus últimos discursos sobre a política externa, os EUA não estão a planear afastarem-se da Europa para a Ásia, mas sim juntarem-se à Europa até à Asia.

A sorte do Ocidente está a aumentar, lentamente mas seguramente. Juntos, a Europa e os EUA representam mais de 50 por cento do PIB mundial, têm a maior força militar do mundo, em muitos aspectos, e controlam uma proporção crescente de reservas de energia mundiais. Também têm uma capacidade diplomática e de ajuda ao desenvolvimento formidável, representando uma comunidade pacífica de democracias que partilham um compromisso comum com os direitos, a dignidade e o potencial de todos os seres humanos.

Imaginem essa comunidade a estender-se à costa oriental da América Latina e à costa oeste de África. Poderá muito bem ser, afinal de contas, um século do Atlântico.

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  1. Commentedhari naidu

    This lady is of course US centrist-mind and there is no way one can re-educate her at this point in time.

    Those of us who follow annual Munich Security Conference understand the focus is finally but slowly moving away from an Atlantic-centrist view of the world...to embrace emerging markets, and mainland China and India, in particular.

    Having retired as a global trade and development (EU) expert, I must remind her the next WTO boss will be a Brazilian (BRICS). Times are really changing and US and EU will have to focus on their (own) priorities while watching WTO take on issues which they might not necessarily desire at this international economic and financial cycle.

    Mind you US opposed the Brazilian candidate to replace Pascal Lamy.

  2. CommentedJacque Vilet

    She must be smoking funny cigarettes. How anyone can think that U.S. and Europe will become the economic power of the 21st century is not in the real world.

    U.S., Europe and Japan are mature markets --- and as consumer demand makes up majority of GDP I don't see how her prediction comes true.

    She sounds more like a politican then an economist. Why on earth was this published?

  3. CommentedOle C G Olesen

    Seldom it is to read such nonsense and political rhetoric !
    Talking sweet to the sick Auntie
    Recent events underline this ...

    But ofc the article represents the finest traditions of Mr Brezhinsky :
    http://www.comw.org/pda/fulltext/9709brzezinski.html

    http://www.amazon.com/exec/obidos/ISBN=0465027261/theatlanticmonthA/

    and the onslaught on individual and national freedom instituted by Global Megacorporations ... and their OWNERS

    I as a European do NOT want to be part of the diabolic imperialistic actions of a megalomaniac and fascistoid USA
    only acting for the PROFIT af a few persons ..who already OWN somewhere between 50 to 75 % of all there is to own in this world ... in spite of this STEALING the remaining wealth of citicens ... as we have wittnessed during the later years .... in order to ...DIS-EMPOWER the COMMON PEOPLE !

    These Companies :

    http://www.newscientist.com/article/mg21228354.500-revealed--the-capitalist-network-that-runs-the-world.html

    WHO .. are the owners ?
    WE KNOW !

    http://www.globalresearch.ca/the-federal-reserve-cartel-the-eight-families/25080

    Curiously above owners of the american dollar also are the majority shareholders in previously mentioned Mega-Corporations.. who own ...THE WORLD !

    And their Front-organisations ?
    We also KNOW :

    http://landdestroyer.blogspot.com/2011/03/naming-names-your-real-government.html

    The Hudson Institute was not on above list .. here a bit Info on WHO ..the Hudson Institute represents :

    http://www.sourcewatch.org/index.php?title=Hudson_Institute

    I as a European do not want to have the blood of Millions of Innocents on my hands ... as is the case for The UNITED STATES of AMERICA and the MULTINATIONAL MEGACORPORATIONS ...

    I have NOTHING in COMMON with these SATANIC ENTITIES !

    Geographically and Culturally I as a European have far more in common with RUSSIA and CHINA than a VULGAR and GREEDY MEGALOMANIAC UNITED STATES of AMERICA !

    China and Russia are also NOT BANCCRUPT as is the case for the USA where the latter only survives by STEALING the WEALTH of OTHER NATIONS including those of EUROPE
    and as a Nation IS the MAIN REASON behind the current European financial Woes .. by DEFRAUDING European Capital into buying WORTHLESS Ameriacan Financial debt instruments

    SO ..I say ... NO ... to an "Atlantic Century " .. we already have tried that .. to our DETRIMONY ... I prefer a EURASIAN Century .. which for any EUROPEAN who still can THINK ... is the only future worth considering

  4. CommentedZsolt Hermann

    I really would like to believe in this fairy tale, as if it was true, it would bring good fortune to all, since in today's global, interconnected world if the main engines of growth, development found their direction and fuel again it would propel the whole system with them.
    Unfortunately though the fairy tale looks very much like the "Emperor's new clothes", and the truth is the emperor already looks naked if we look at the picture honestly.
    The "rising" in the US, and "stabilization" in Europe only happens on paper, and in those high powered meetings, nothing of it is felt on the streets, or in the homes of the actual population living in those countries.
    Unemployment, especially youth unemployment is rising, living costs, social inequality is rising, the previous social net supporting the weaker layers is disappearing, the debt burden is burying layer after layer, people in general are more depressed and empty than ever, and there is absolutely no sign of any change from their point of view.
    Only the cash flow, the financial infrastructure that is dealt with, but it has very little relevance to people, and it is cosmetic in nature, unable to change the fundamental system crisis.
    The significance of the "mighty military force" of the west is also becoming irrelevant in the age of long range missiles, defense shields, remote control drones and virtual warfare, none of the recent western lead wars, putting troops on the ground achieved any meaningful success, in truth they were all failures.
    The "newly found energy independence" has only relevance in terms of the over consumption, over production, constant proliferation, exploitative economic model, but this model is unsustainable and is collapsing, in truth for a normal, modern human life we do not need even the fraction of the energy we consume today, thus this hysteria about energy independence will lose its meaning very soon.
    In short there is no "coming Atlantic century" for multiple reasons. Most of the "signs" the article is based on are irrelevant, meaningless, moreover the world is a single, interconnected and interdependent network, either all of us pull through, by fundamental changes to our lifestyle and interrelations, mutually working together complementing each other, or we all sink deeper ad deeper into crisis until the suffering will force us to change.

  5. CommentedAndré Rebentisch

    Exactly that phrasing of Mme Clinton was quite alarming. As well as the patronizing tone of Mr. Biden. The phrase "remains" indicates withdrawal in the defense context.

  6. CommentedRobert Upshaw

    The growing trade and energy routes are on the Indian and Pacific rim. That's where the action is. R. Kaplan detailed this in his book Monsoon. Europe's position is the weakest of all.

    More: http://thepondsofhappenstance.blogspot.com/2013/02/the-hubris-of-europhiles.html

  7. CommentedAvraam Dectis

    .
    "have the largest military force in the world by many multiples"

    --------------------------------------------------------------------------------

    It should be noted that while these Democracies are well armed, the USA, at least, is reduced to allowing large stalker gangs to openly poison people, some of whom have been openly poisoned for over 15 years while the police and government just watched.

    A Democracy that cannot use its millions of men under arms to protect its citizens or arrest its worst criminals is a Democracy in name only. It is really just a figurehead providing a pleasant illusion to cover up the fact that it is really a fractured entity with each splinter operating under rules and penalties that are unwritten and enforced by fear.

    See "gang staking" if any of this is news to you.

    In the USA, crime pays.
    .

  8. CommentedProcyon Mukherjee

    This essay is in sharp contrast to the forging reality that the center of gravity of the world's economic engine is slowly but steadily moving East.

    The gas bonanza has not seen gasoline prices move South, which is what the fundamental fallacy is that is yet to be explained, although natural gas prices have continued to move in the downward trajectory.

      CommentedAvraam Dectis

      .
      There is conjecture that speculation is artificially supporting energy prices.
      .

  9. CommentedAndrés Vallejo

    Buttressing all this optimism is only possible by relegating what should be our most pressing concern to a passing comment: "As an extra bonus, the higher US proportion of gas use has reduced US carbon emissions to 1992 levels." Even this cheer should be handled with care, as this interesting note explains: http://thinkprogress.org/climate/2012/12/05/1275811/why-claims-about-reductions-of-us-carbon-dioxide-emissions-are-misleading/?mobile=nc

  10. CommentedPaul A. Myers

    The US will be completing a transition in Obama's second term from being the biggest dumb government in the world under Bush to a pretty sensible steward of a very strong private-sector dominated US economy. All the job growth in the US since 2009 -- five million jobs -- has been in the private sector. The US has rebalanced towards a more productive economy in a very strong way.

    A truly enhanced free trade area with Europe would integrate half the world's economy and probably contribute towards many European countries moving towards a more productive future.

    So there are two win-wins out there for Europe: integrate within Europe and integrate across and around the Atlantic.

  11. CommentedStepan February

    There has been lots of cheerleading by the Syndicate recently. First the rise of the robots, now this. Its like our public intellectuals are not the drivers of our destiny but just the headlights illuminating the next few yards of the road.

  12. CommentedMike Chu

    Isn't the West bankrupt and East the creditors? Or, does Biden know something we don't.

  13. CommentedShane Beck

    Demographics say otherwise- both the US and Europe have ageing populations, which do not bode well in welfare states. Of course Russia, China and Japan have the same problem so it will be interesting to see how each nation copes....

  14. CommentedJosé Luiz Sarmento Ferreira

    Maybe so, but the European Union is the only political entity in the World to have made Keynesian economic policies illegal. Member-States can be fined heavily for not inscribing anti-Keynesian rules into their Constitutions. This blatant ideological bias doesn't bode well either for Europe or for its partners.

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