Tuesday, September 30, 2014
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A independência energética num mundo interdependente

CAMBRIDGE - Quando o presidente Richard Nixon proclamou, no início da década de 1970, que queria garantir a independência energética nacional, os Estados Unidos importaram um quarto do seu petróleo. No final da década, depois de um embargo do petróleo árabe e da revolução iraniana, a produção nacional estava em declínio, os norte-americanos estavam a importar metade das suas necessidades petrolíferas, com um custo de 15 vezes mais, e acreditava-se que o país estava a esgotar o gás natural.

Os choques de energia contribuíram para uma combinação letal, o crescimento económico estagnado com a inflação, e todos os presidentes dos EUA, desde Nixon, proclamaram a independência energética como uma meta a atingir. Mas poucas pessoas levaram a sério as promessas.

Hoje, os peritos em energia já não fazem troça da situação. No final desta década, segundo a Administração de Informação de Energia dos EUA, quase metade do crude que os EUA consomem será produzido internamente, enquanto 82% virá do seu lado do Atlântico. Philip Verleger, um respeitado analista de energia, argumenta que, em 2023, no 50 º aniversário do “Projecto Independência” de Nixon, os EUA terão independência energética, no sentido de que irão exportar mais energia do que importar.

Verleger argumenta que a independência energética “poderia fazer deste século o Novo Século Americano, criando um ambiente económico onde os Estados Unidos beneficiariam de um acesso ao fornecimento de energia a um custo muito menor do que as outras partes do mundo”. Os europeus e os asiáticos já pagam 4 a 6 vezes mais pelo seu gás natural, do que os norte-americanos.

O que é que aconteceu? A tecnologia de perfuração horizontal e de fracturação hidráulica, através da qual o xisto argiloso e outras formações rochosas exigentes, a grandes profundidades, são bombardeados com água e produtos químicos, disponibilizou maiores abastecimentos de gás natural e de petróleo. A indústria norte-americana de gás de xisto cresceu cerca de 45% por ano, de 2005 a 2010, e a comparticipação do gás de xisto na produção geral de gás nos EUA cresceu de 4% para 24%.

Prevê-se que os EUA tenham gás suficiente para sustentar a sua taxa actual de produção durante mais de um século. Enquanto que em muitos outros países, que também têm um potencial considerável de gás de xisto, os problemas sejam muitos, incluindo a escassez de água na China, a segurança do investimento na Argentina e as restrições ambientais em vários países europeus.

A economia norte-americana beneficiará de inúmeras formas, da sua mudança no aprovisionamento energético. Centenas de milhares de empregos já estão a ser criados, alguns em regiões remotas e anteriormente estagnadas. Esta actividade económica adicional irá impulsionar o crescimento global do PIB, produzindo novas receitas fiscais significativas. Além disso, uma menor factura na importação energética fará com que o défice comercial dos EUA diminua e que a situação da sua balança de pagamentos melhore. Algumas indústrias norte-americanas, tais como os produtos químicos e os plásticos, ganharão uma significativa vantagem comparativa nos custos de produção.

De facto, a Agência Internacional de Energia estima que as precauções adicionais necessárias para garantir a segurança nos poços de gás de xisto, incluindo a atenção especial às condições sísmicas, aos poços devidamente selados e à gestão adequada das águas residuais - adicionem apenas cerca de 7% ao custo.

Em relação à alteração climática, no entanto, os efeitos de uma maior dependência do gás de xisto estão misturados. Sendo que o gás natural de combustão produz menos gases com efeito de estufa, do que outros hidrocarbonetos, tais como carvão ou o petróleo, pode ser uma ponte para um futuro com menos carbono. Mas o baixo preço do gás impedirá o desenvolvimento de fontes de energia renováveis, a menos que lhe adicionem subsídios ou taxas de carbono.

Nesta fase, só se pode especular sobre os efeitos geopolíticos. Claramente, o fortalecimento da economia dos EUA engrandeceria o poder económico norte-americano - um cenário que contraria a actual tendência de retratar os EUA como um país em declínio.

Mas não se deve tirar conclusões precipitadas. Um equilíbrio entre as importações e as exportações de energia é apenas uma primeira aproximação da independência. Tal como argumento no meu livro The Future of Power [O Futuro do Poder], a interdependência mundial envolve a sensibilidade e a vulnerabilidade. Os EUA podem ser menos vulneráveis, a longo prazo, se importarem menos energia, mas o petróleo é um produto fungível, e a economia dos EUA continuará a ser sensível aos choques resultantes das mudanças bruscas nos preços a nível mundial.

Por outras palavras, uma revolução na Arábia Saudita ou um bloqueio do Estreito de Hormuz poderia ainda causar danos nos EUA e nos seus aliados. Assim, mesmo que os EUA não tenham outros interesses no Médio Oriente, tais como Israel ou a não-proliferação nuclear, é improvável que o equilíbrio entre as importações e as exportações de energia libertasse os EUA das despesas militares - algo que deve rondar, segundo a estimativa de alguns especialistas, os 50 mil milhões de dólares por ano - para proteger as rotas do petróleo na região.

Ao mesmo tempo, a posição negocial dos EUA, na política mundial, deve ser reforçada. O poder surge das assimetrias na interdependência. Você e eu podemos depender um do outro, mas se eu depender menos de si do que você de mim, o meu poder negocial é maior.

Durante décadas, os EUA e a Arábia Saudita tiveram um equilíbrio nas assimetrias das quais dependíamos deles, como “produtores à medida” de petróleo, e eles dependiam de nós para a derradeira segurança militar. Agora, os termos das negociações serão baseados no ponto de vista norte-americano.

Da mesma forma, a Rússia tem desfrutado de um certo poder sobre a Europa e os seus vizinhos pequenos, através do seu controlo de abastecimento de gás natural e de oleodutos. À medida que a América do Norte se torna auto-suficiente no gás, também outras regiões ficarão livres para fornecerem fontes alternativas à Europa, diminuindo, assim, o poder da Rússia.

Na Ásia Oriental, que se tornou o foco da política externa dos EUA, a China será cada vez mais dependente do petróleo do Médio Oriente. Os esforços norte-americanos para convencer a China a desempenhar um papel maior nos acordos regionais de segurança, podem ser reforçados e a consciência da China em relação à vulnerabilidade das suas rotas de aprovisionamento na interrupção naval dos EUA, em caso de um improvável conflito, também pode ter um efeito subtil no poder de negociação de cada lado.

Um equilíbrio entre as importações e as exportações de energia não causa pura independência, mas altera as relações de poder envolvidas na interdependência energética. Nixon tem razão neste ponto.

Tradução: Deolinda Esteves

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  1. CommentedSugandha Pahwa

    this will be a giant leap to [fast forwarded] macro economics without nuclear proliferation. i just believe the soveriegnity over national "resources" is the giant leap. Not the borders, i can actually see unmanned borders.

  2. CommentedNathan Coppedge

    I was under the impression that oil was a major reason for the conflict in the Middle East. Fluctuations in gas prices almost always seem to be altered by so-called "political influences" in the Arab world, and U.S. prices have been affected by a strong "charity" approach which provides a cushion by pouring huge amounts of capital onto what was originally merely an "energy" issue. The relationship of the U.S. to oil borders on metaphysical, and so it is no wonder that there are gaping military expenses which, while industrial or quasi-permanent in nature, are well in excess of what you mention in your article. I wouldn't be surprised if 50 billion dollars is miniscule compared to the real expense of running aircraft carriers, buying rocket fuel, building missiles, and paying for infantry on passive duty, to say nothing of outright conflict involving vast mobilizations. Much like the domestic economy, what I might call the military economy is not something accurately accounted in the minds of common citizens.

  3. CommentedThomas Granado

    Professor, you nailed it, but to complete the analysis you must give more stock to the opposition. First, there is significant industrial opposition to exportation of gas -- those who benefit greatly from low electricity and feedstock costs (petrochemicals, steel). Second, while the environmental community is split, the anti-Keystone crew is adamant about renewables over hydrocarbons. Damn the economics; for them it's a zero sum game. The evident risk: DOE is holding up export approvals to non-FTA countries while Australia is pressing forward.

  4. CommentedZsolt Hermann

    The title is an interesting oxymoron.
    Indeed the question is can we achieve any kind of independence in an interdependent world?
    This article focuses on energy supplies alone, trying to propose political and economical gains from an assumed energy independence.
    But we are interdependent on multiple levels not only in terms of politics, financial institutions, energy supplies or the usual measures we like to use these days, but on all levels of our lives.
    And we are not only interdependent within the global human society but humanity itself is an integral part of the larger circle of nature surrounding us.
    Even this articles touches upon possible negative environmental effects of increased shale gas production which we have very little information about.
    Also switching from crude oil to gas only postpones the inevitable questions how constant quantitative growth would be possible in a closed, finite system.
    Is it really possible, even just looking at it from political or economical point of view, for a single country to surge ahead of others in a global, interdependent system when others stagnate or fall into crisis?
    As long as we keep concentrating on individual, national benefits only caring about the interdependent system in terms of how we can benefit from it regardless of others, or about environmental consequences (both of which goes against the natural laws of governing interdependent systems), or as long we keep ignoring the very reasons why we need increasing, never ending energy supplies to fuel our insatiable economic model, we will not find long or even short term solutions for our present problems, rather we will create more and newer problems like a drunk person driving on without sobering out recognizing where he is and where he should be going.
    All over the world we keep escaping forward without examining the real causes for the global crisis, but in the global, closed, interdependent system we exist in today we cannot cheat much longer.

  5. CommentedMarshall Kaplan

    Finally some one got it right. Natural gas will play a much more important role in our fuel mix in the future than in the past. Energy independence, however, is not quite an accurate goal and suggest separation. Reducing oil dependence is more accurate . what we need to do is to reduce the monopolistic conditions governing oil and gasoline markets for transportation and allow for flex fuels like natural gas and its derivative methanol. safe..environmentally better., less costs..Let consumers choose. M Kaplan see Over the Barrel at www.fuelfreedom.org

  6. CommentedAkash Kaura

    USA is becoming increasingly energy independent, and China has significant reserves as well. This would pose a significant concern for India, would it not? Would this mean the India will need to make the transition to a knowledge based economy quicker than anticipated/planned? Looking at, and exploiting, alternative energy resources will require significant R&D which requires the fulfillment of 2 major pre-conditions:
    1. Presence of sufficient educated professionals
    2. Enough investment.
    Considering the current situation, would this mean that if India fails to make the transition in time, the future is not very bright?

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