Wednesday, October 1, 2014
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O problema “Europa” dos mercados emergentes

PARIS - De Hong Kong a São Paulo, e todos os pontos que ficam no meio, uma palavra domina todas as outras, entre os grandes investidores: Grécia. Será que os gregos permanecem na zona euro? O que irá acontecer com a União Europeia e com a economia global se não permanecerem?

Até recentemente, a Europa era uma espécie de espelho que confirmava às principais economias emergentes a natureza espectacular dos seus sucessos. Elas podiam contrastar as suas altas taxas de crescimento com os elevados níveis de endividamento da Europa. Elas podiam opor a sua “energia positiva” ao pessimismo que domina as mentes europeias. Elas só gostavam de aconselhar a Europa a trabalhar mais e a gastar menos, à medida que o legítimo orgulho se misturava com um desejo compreensível de resolver os resultados históricos e de atenuar os seus legados de submissão colonial e de humilhação.

Mas, hoje, os países emergentes crescem muito preocupados com aquilo que eles avaliam, e com razão, de graves riscos para as suas próprias economias, implícitos na fraqueza excessiva na Europa, que continua a ser o líder mundial do comércio. Além disso, o mal-estar da Europa ameaça a estabilidade política de muitos desses países, bem como, dada a estreita ligação - especialmente na China - entre a legitimidade dos acordos existentes e a continuação do crescimento económico rápido.

Se a crise na Europa fizesse com que o crescimento anual do PIB caísse abaixo dos 7% na China, 5% na Índia e 3% no Brasil, os cidadãos mais vulneráveis desses países seriam os mais atingidos. Eles nunca fizeram parte da “cultura da esperança”, baseada principalmente no sucesso material, que desempenhou um papel fundamental no sucesso destes países. Se as desigualdades sociais servissem para atingir novos patamares, a sua frustração e ressentimento poderiam manifestar-se plenamente.

Nesse caso, a Europa podia tornar-se subitamente num espelho muito diferente para os países emergentes, revelando, se não acentuando, as suas próprias debilidades estruturais. E é por isso que, assim como a Europa deve salvar a economia grega ou os bancos de Espanha a todo o custo, os países emergentes devem fazer tudo o que puderem para contribuírem para o resgate da economia europeia. Tal como a Europa aprendeu, quanto mais se espera, maior é o custo - e menor é a oportunidade de sucesso.

Infelizmente, é improvável que um grupo de países que estão unidos, acima de tudo, por uma negação comum das suas responsabilidades globais, chegue a tal conclusão. Na verdade, a maioria dos países emergentes mostraria relutância perante a ideia de participar no resgate financeiro da Europa, por várias razões.

Em primeiro lugar, não existe um bloco de países emergentes. Eles não estão unidos por uma visão comum do seu futuro ou por um ideal político comum, como a democracia no mundo ocidental. Quaisquer que sejam os limites e as contradições dos valores partilhados, seria ingénuo destituir a sua importância. A Europa e os Estados Unidos permanecerão aliados, mesmo que Barack Obama, à semelhança de Nicolas Sarkozy em França, acabe por ser um presidente de um mandato.

Em segundo lugar, os países emergentes são mais rivais da Europa do que seus parceiros. Eles estão unidos apenas pela desconfiança partilhada em relação à China. Em tal contexto, uma estratégia comum a longo prazo é extremamente difícil de conceber.

Os chineses podem proclamar que tendem a pensar numa duração mais ”longa” do que os americanos, que pensam mais ”amplamente”, e os europeus, que pensam mais “profundamente”, tal como um conhecido especialista em relações internacionais chinês colocou. Mas, quando se trata da crise financeira europeia, o comportamento da China parece ser determinado puramente por considerações tácticas, a curto prazo, mesmo que os investimentos chineses na Europa tenham triplicado em 2011. Comprar metade do porto de abrigo Piraeus, a um preço chocante pode parecer mais vantajoso do que investir na consolidação a longo prazo da economia grega e das suas finanças, mas será que é mesmo assim?

Em terceiro lugar, o oportunismo a curto prazo dos países emergentes é baseado numa desconfiança dupla: na Europa, é claro, mas também, paradoxalmente, neles próprios. Ou seja, eles não têm confiança na sua capacidade de fazer a sua parte para salvar o homem doente da economia global, no qual a Europa se tornou.

Para ter a certeza, isto contraria o triunfalismo que emana da Ásia, em particular. Kishore Mahbubani, um pensador vanguardista, de Singapura, da política externa, proclamou recentemente em Viena, numa conferência organizada pelo meu instituto, que o próximo milénio seria asiático. E ainda assim se percebe, entre as elites dos países emergentes, algo semelhante à dúvida existencial, que a crise europeia serviu para reforçar. Esta insegurança manifesta-se de muitas maneiras: desde a acumulação de riqueza líquida como um seguro contra as incertezas externas e internas, até à escolha de muitos, se não da maioria, em educar os seus filhos no exterior.

Na verdade, o homem doente - inegavelmente europeu, se não ocidental - poderia revelar-se ser mais resistente, devido à força das suas próprias defesas naturais: a democracia e o Estado de Direito. É por isso que a actual crise europeia pode muito bem vir a ser um teste crucial para os países emergentes que estão mais dinâmicos do que a Europa economicamente, mas em última análise, mais frágeis politicamente.

Tradução: Deolinda Esteves

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  1. CommentedMoctar Aboubacar

    One question not posed here is the question of where we are going. Become partners with Europe, assess risks within Europe as threats to Emerging countries... but to what end? The current crisis is not business as usual, and the 'normal' toolkit does not seem to be the correct answer. So saying emerging markets are "denying global responsibility", or proning increased partnership with Europe means next to nothing as long as the author has not made clear the normative framework within which he is working.

  2. CommentedRodrigo Braz

    I believe that the common feeling, at least here in Brazil, is that it is a little ridiculous to ask poor countries, Brazil still has many families living in slums or in the arid northeast, to bail out rich economies.

    I mean, sure the crisis is bad, but we literally have people starving here. So to ask us to pay up so that greeks can retain their 14 salaries a year is seen as unrealistic.

  3. CommentedZsolt Hermann

    Unfortunately this article is full of the misunderstandings that has led to the crisis.
    First of all the "mirror" the "emerging market" countries should see in Europe is like a little child who looks into the mirror and sees himself as an 80 year old old man full of diseases, wrinkles, suffering, hardly alive close to death.
    What the child should understand from that picture that as long as he tries to live the same life, follow the same pattern he will end up the same weak, suffering, unhappy old man that he sees in the mirror today.
    There is no Greek problem, there is no European problem. We have system crisis. Whatever method humanity has applied so far through our history, based on our self centered, greedy, exploitative nature, especially in the last 100 years has lead us into this mess, the dead end.
    We simply cannot escape this system failure with the same mentality, methodology we entered it. If any country want to learn anything from Europe or the US, or any other developed nation is that whatever they did, whatever they are still doing is not right and we have to go the opposite direction. Instead of living inside ourselves, devouring everything only for our own pleasures, we have to "step out" and start sharing and making connections.
    Regarding "rivals" appearing later in the article, today there are no rivals, only in our minds following old polarized patterns. In a global integral world, where we are all interconnected in the same network there are only partners, like cells, organs in a single body. Or as a leading economist phrased it we are all on the same boat, that boat is sinking.
    If we want to keep the boat floating, whether we like it or not we have to work together, above all our differences, rejections, cultural characteristics, hatred, unless the boat is robust and is sailing safely we are all doomed.

  4. CommentedJ. C.

    I think the first and biggest mistake of this guy is to treat "Emerging Markets" as whole, from then on he lost my attention.... As if Brazil was the same than China or Venezuela or Haití... shows a great ignorance and xenofobia...

  5. CommentedFrank O'Callaghan

    It is important to see and state the root causes of the current 'crisis'. The world is more productive and wealthy than it has been in all of history. But there is a problem of distribution of wealth, power, work and resources. Inequality is the threat.

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