Friday, April 25, 2014
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O Plano de Jogo Afegão da China

MADRID – No seu último livro, Sobre a China, Henry Kissinger usa os jogos intelectuais tradicionais preferidos pela China e pelo Ocidente – o weiqi e o xadrez – como um meio para revelar as suas diferentes atitudes relativamente às políticas do poder internacional. O xadrez é sobre a vitória total, uma batalha Clausewitziana pelo “centro de gravidade” e pela eventual eliminação do inimigo, enquanto o weiqi é uma busca de vantagem relativa, através de uma estratégia de cerco que evita o conflito directo.

Este contraste cultural é um guia útil para o modo como a China gere a sua actual competição com o Ocidente. A política Afegã da China é um caso particular, mas é também um desafio formidável para a via do weiqi. À medida que os Estados Unidos se preparam para retirar as suas tropas do país, a China irá lidar com um incerto cenário pós-guerra.

O Afeganistão é de interesse estratégico vital para a China, e no entanto nunca passou pela cabeça dos seus líderes usar a guerra para defender esses interesses. Uma zona de segurança vital para o ocidente da China, o Afeganistão é também um corredor importante através do qual pode assegurar os seus interesses no Paquistão (um aliado tradicional na competição entre a China e a Índia), e assegurar o seu acesso a recursos naturais vitais na região. Além disso, a já de si inquieta e maioritariamente Muçulmana província Chinesa de Xinjiang, que faz fronteira com o Afeganistão, poderá ser perigosamente afectada por uma insurreição Talibã, ou pelo desmembramento do país.

Os EUA travaram a sua guerra mais longa de sempre no Afeganistão, a um custo (até agora) de mais de 555 mil milhões de dólares, sem mencionar as baixas de dezenas de milhares de civis Afegãos e de perto de 3.100 militares dos EUA. Mas a estratégia da China no país foi principalmente concentrada no desenvolvimento de negócios, e em saciar o seu vasto apetite por energia e minerais. O Departamento de Defesa dos EUA valorizou os depósitos de minerais inexplorados do Afeganistão em 1 bilião de dólares. Mas é a China quem está a preparar-se para explorar muitos desses recursos.

Efectivamente, o desenvolvimento da Mina de Cobre de Aynak foi o maior investimento estrangeiro directo na história do Afeganistão. A China também esteve envolvida na construção de uma central eléctrica de 500 milhões de dólares e na ligação ferroviária entre o Tajiquistão e o Paquistão. Em Dezembro passado, a companhia estatal Chinesa National Petroleum Corporation assinou um acordo com as autoridades Afegãs que a tornaria na primeira companhia estrangeira a explorar as reservas de petróleo e gás natural do Afeganistão.

Assim que os enormes interesses económicos e de segurança da China no Afeganistão percam o escudo militar da América, os Chineses deverão desempenhar no país um papel ainda maior, que os Afegãos esperam venha a atingir “níveis estratégicos”. A China preferiria conseguir isto à maneira Chinesa – isto é, essencialmente através de uma demonstração de influência discreta – ou, como o governo Chinês referiu durante a visita oficial do Presidente Afegão Hamid Karzai a Pequim no início de Junho, através de “áreas de segurança não-tradicionais.”

A julgar pelo comportamento da China noutras partes do mundo, é provável que qualquer cooperação militar seja extremamente modesta e cautelosa. A China já deixou bem claro que não contribuirá para o fundo multilateral de 4,1 mil milhões de dólares para sustentar as forças Afegãs de segurança nacional.

Em vez disso, o acordo de cooperação bilateral recentemente assinado pelos dois países visa “salvaguardar a estabilidade nacional do Afeganistão” através do desenvolvimento social e económico. A China está especialmente interessada em combater o tráfico de droga, já que Badakshan, a província Afegã que faz fronteira com Xinjiang, se tornou a principal rota de trânsito para o ópio Afegão. Mas prevenir a propagação em Xinjiang do extremismo religioso inspirado pelos Talibã permanece também uma prioridade elevada.

A China empreendeu grandes esforços para apresentar a recente cimeira em Beijing da Organização para a Cooperação de Xangai (OCX), que inclui a China, a Rússia e os principais países da Ásia Central, como uma tentativa de criar um equilíbrio justo de interesses entre intervenientes regionais. Além disso, a OCX procurou um consenso em como, nas palavras do Presidente Chinês Hu Jintao, se poderá proteger a região “contra choques provenientes de turbulência exterior à região.”

Contudo, mesmo que centrada na projecção de uma influência discreta no Afeganistão, a China achará muito provavelmente difícil não ser arrastada para o papel de polícia numa região extremamente complexa e historicamente assolada por conflitos. A expansão regional da China, para além disso, choca com a de outras potências regionais, como a Rússia e a Índia. Nem está o seu próprio aliado, o Paquistão, particularmente disposto a confrontar grupos terroristas que ameacem a segurança dos seus vizinhos, incluindo a China.

O Paquistão pode achar extremamente difícil reconciliar a segurança do seu aliado Chinês com a sua guerra por procuração de facto com a Índia. A China poderá então ser forçada a reforçar a sua presença militar no Paquistão e em áreas tribais ao longo da fronteira Afegã no sentido de contrariar grupos terroristas como o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental, baseado no Paquistão, e que os Chineses acreditam ser responsável por ataques em Xinjiang.

O modo Chinês preferido seria o da cooptação e do diálogo. Na verdade, a diplomacia Chinesa tem-se ocupado ultimamente em conversações trilaterais com o Paquistão e o Afeganistão, com o objectivo de conseguir a reconciliação com os Talibã. Nem está a China interessada em atiçar o conflito entre os seus aliados Paquistaneses e os seus rivais Indianos. Pelo contrário, a China tem argumentado durante anos que o principal problema que aflige a estabilidade do Afeganistão é a guerra por procuração entre a Índia e o Paquistão, e que a paz na Caxemira é a chave para a paz no Afeganistão.

A tarefa de defender os seus interesses no Afeganistão depois da retirada dos EUA é um desafio verdadeiramente formidável para a diplomacia Chinesa. É inconcebível, no entanto, que os Chineses entrem no tipo de intervenção militar maciça ao estilo dos EUA a que o mundo se tem habituado em anos recentes. Para a China, o desafio Afegão poderá muito bem tornar-se uma combinação bem medida de xadrez e weiqi.

Traduzido do Inglês por António Chagas

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  1. CommentedTim Teng

    Given the size of China and its recent progress, especially in contrast to the stagnant west, the latter, out its habit/history, might frame China into a dichotomistic relationship vis-a-vis west with such connotations as 'game', 'winner/loser'..etc. But the thing is..as Chinese we don't think in such terms. Our philosophy in terms of person-2-person and nation-2-nation dealings are one of the same: respect begets respect, trade begets win-win, and the relationships (either p2p, or nation2nation) are not contests, but of familial domain: how to get along.

    1. CommentedMinos Hydargos

      How do the general relationship with Japan, Taiwan, the US, and the recent spats with the Philippines, Singapore and Vietnam qualify as a philosophy of "how to get along" ?

      It is its repeatedly failed attempts at playing hardball with neighbours that may slowly lead the current leadership into considering softball and contemplate win-win relationships in general.

      But there is a long road ahead, and nobody knows if the current leadership even knows how to go down that road.

  2. CommentedCaesar Vipi

    I don't think we will be seeing the military build ups at the level we have seen in afghanistan and iraq. perhaps we should just invade saudi arabia to combat the hyperdiastolic prezygomatic posttracheal goatherding radicals there.

    1. CommentedKevin Lim

      The author forgets a few things:-

      1. Much of the animus that locals feel against a US presence is from US's fraught relations with Islam in general. In their eyes, America is still very much the Great Satan. China does not have that historical baggage (the Uighur thing being small potatoes compared to the Israeli-Palestinian thing)

      2. Part and parcel of the US presence is the desire to impose/create a functioning democracy in a country with no real history of democracy, or the institutions that such a democracy reuires. Also, there is the question of imposing values that however laudable, are alien (e.g. equality to women, respect for minorities, Rule of Law). China has no such qualms. Its there to do business, and it has a rigid non-interference policy. If the Karzai regime is in the seat of power, it will work with Karzai. If the Taliban recaptures Kabul, it will do business with the Taliban. China does not seek to make Afghanistan a better place, and for that reason has the advantage of not challenging the existing power structures

      3. China has a lot more money to splash around, and is not gonna be spending it on an expensive military presence. It can BUY itself peace around its areas of economic interests.

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