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O Plano de Jogo Afegão da China

MADRID – No seu último livro, Sobre a China, Henry Kissinger usa os jogos intelectuais tradicionais preferidos pela China e pelo Ocidente – o weiqi e o xadrez – como um meio para revelar as suas diferentes atitudes relativamente às políticas do poder internacional. O xadrez é sobre a vitória total, uma batalha Clausewitziana pelo “centro de gravidade” e pela eventual eliminação do inimigo, enquanto o weiqi é uma busca de vantagem relativa, através de uma estratégia de cerco que evita o conflito directo.

Este contraste cultural é um guia útil para o modo como a China gere a sua actual competição com o Ocidente. A política Afegã da China é um caso particular, mas é também um desafio formidável para a via do weiqi. À medida que os Estados Unidos se preparam para retirar as suas tropas do país, a China irá lidar com um incerto cenário pós-guerra.

O Afeganistão é de interesse estratégico vital para a China, e no entanto nunca passou pela cabeça dos seus líderes usar a guerra para defender esses interesses. Uma zona de segurança vital para o ocidente da China, o Afeganistão é também um corredor importante através do qual pode assegurar os seus interesses no Paquistão (um aliado tradicional na competição entre a China e a Índia), e assegurar o seu acesso a recursos naturais vitais na região. Além disso, a já de si inquieta e maioritariamente Muçulmana província Chinesa de Xinjiang, que faz fronteira com o Afeganistão, poderá ser perigosamente afectada por uma insurreição Talibã, ou pelo desmembramento do país.

Os EUA travaram a sua guerra mais longa de sempre no Afeganistão, a um custo (até agora) de mais de 555 mil milhões de dólares, sem mencionar as baixas de dezenas de milhares de civis Afegãos e de perto de 3.100 militares dos EUA. Mas a estratégia da China no país foi principalmente concentrada no desenvolvimento de negócios, e em saciar o seu vasto apetite por energia e minerais. O Departamento de Defesa dos EUA valorizou os depósitos de minerais inexplorados do Afeganistão em 1 bilião de dólares. Mas é a China quem está a preparar-se para explorar muitos desses recursos.

Efectivamente, o desenvolvimento da Mina de Cobre de Aynak foi o maior investimento estrangeiro directo na história do Afeganistão. A China também esteve envolvida na construção de uma central eléctrica de 500 milhões de dólares e na ligação ferroviária entre o Tajiquistão e o Paquistão. Em Dezembro passado, a companhia estatal Chinesa National Petroleum Corporation assinou um acordo com as autoridades Afegãs que a tornaria na primeira companhia estrangeira a explorar as reservas de petróleo e gás natural do Afeganistão.

Assim que os enormes interesses económicos e de segurança da China no Afeganistão percam o escudo militar da América, os Chineses deverão desempenhar no país um papel ainda maior, que os Afegãos esperam venha a atingir “níveis estratégicos”. A China preferiria conseguir isto à maneira Chinesa – isto é, essencialmente através de uma demonstração de influência discreta – ou, como o governo Chinês referiu durante a visita oficial do Presidente Afegão Hamid Karzai a Pequim no início de Junho, através de “áreas de segurança não-tradicionais.”

A julgar pelo comportamento da China noutras partes do mundo, é provável que qualquer cooperação militar seja extremamente modesta e cautelosa. A China já deixou bem claro que não contribuirá para o fundo multilateral de 4,1 mil milhões de dólares para sustentar as forças Afegãs de segurança nacional.

Em vez disso, o acordo de cooperação bilateral recentemente assinado pelos dois países visa “salvaguardar a estabilidade nacional do Afeganistão” através do desenvolvimento social e económico. A China está especialmente interessada em combater o tráfico de droga, já que Badakshan, a província Afegã que faz fronteira com Xinjiang, se tornou a principal rota de trânsito para o ópio Afegão. Mas prevenir a propagação em Xinjiang do extremismo religioso inspirado pelos Talibã permanece também uma prioridade elevada.

A China empreendeu grandes esforços para apresentar a recente cimeira em Beijing da Organização para a Cooperação de Xangai (OCX), que inclui a China, a Rússia e os principais países da Ásia Central, como uma tentativa de criar um equilíbrio justo de interesses entre intervenientes regionais. Além disso, a OCX procurou um consenso em como, nas palavras do Presidente Chinês Hu Jintao, se poderá proteger a região “contra choques provenientes de turbulência exterior à região.”

Contudo, mesmo que centrada na projecção de uma influência discreta no Afeganistão, a China achará muito provavelmente difícil não ser arrastada para o papel de polícia numa região extremamente complexa e historicamente assolada por conflitos. A expansão regional da China, para além disso, choca com a de outras potências regionais, como a Rússia e a Índia. Nem está o seu próprio aliado, o Paquistão, particularmente disposto a confrontar grupos terroristas que ameacem a segurança dos seus vizinhos, incluindo a China.

O Paquistão pode achar extremamente difícil reconciliar a segurança do seu aliado Chinês com a sua guerra por procuração de facto com a Índia. A China poderá então ser forçada a reforçar a sua presença militar no Paquistão e em áreas tribais ao longo da fronteira Afegã no sentido de contrariar grupos terroristas como o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental, baseado no Paquistão, e que os Chineses acreditam ser responsável por ataques em Xinjiang.

O modo Chinês preferido seria o da cooptação e do diálogo. Na verdade, a diplomacia Chinesa tem-se ocupado ultimamente em conversações trilaterais com o Paquistão e o Afeganistão, com o objectivo de conseguir a reconciliação com os Talibã. Nem está a China interessada em atiçar o conflito entre os seus aliados Paquistaneses e os seus rivais Indianos. Pelo contrário, a China tem argumentado durante anos que o principal problema que aflige a estabilidade do Afeganistão é a guerra por procuração entre a Índia e o Paquistão, e que a paz na Caxemira é a chave para a paz no Afeganistão.

A tarefa de defender os seus interesses no Afeganistão depois da retirada dos EUA é um desafio verdadeiramente formidável para a diplomacia Chinesa. É inconcebível, no entanto, que os Chineses entrem no tipo de intervenção militar maciça ao estilo dos EUA a que o mundo se tem habituado em anos recentes. Para a China, o desafio Afegão poderá muito bem tornar-se uma combinação bem medida de xadrez e weiqi.

Traduzido do Inglês por António Chagas