Wednesday, November 26, 2014
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Argentina, a Excluída

BRASÍLIA - Há mais de vinte anos, um importante ministro argentino ensinou a um surpreso embaixador brasileiro recém-chegado a Buenos Aires que a “Argentina é pródiga em três coisas: carne, trigo e gestos tresloucados“. A decisão de expropriar 51% da YPF, a maior companhia do sector energético Argentino, à empresa Espanhola Repsol é um desses gestos. Somada ao seu desprezo pelos credores externos, e ao proteccionismo crescente e arbitrário que viola todas as regras globais e regionais, a decisão da Presidente Cristina Fernández de Kirchner coloca a Argentina mais perto de ser considerada internacionalmente como um país sem lei.

Independentemente dos benefícios e da popularidade no curto prazo, gestos desta gravidade têm sempre consequências sérias no longo prazo. Em particular, arriscam separar um país dos principais fluxos de crédito, investimentos e comércio – ou seja, de todas as actividades que geram prosperidade e oportunidades económicas.

Os maus governos são sempre guiados pela sua ânsia de aumento imediata da popularidade, sem olhar a custos futuros. Os governos da Argentina fizeram disto um hábito desde que Juan Perón subiu ao poder pela primeira vez em 1946.

Na verdade, como resultado da decisão de Fernández, a Argentina encontra-se agora ostracizada nos mercados financeiros e energéticos internacionais. Incapaz de reunir tanto o investimento como os recursos tecnológicos e o conhecimento para desenvolver os recursos da YPF, o seu governo tem que convidar outros a preencher o vácuo financeiro e tecnológico criado pela expulsão forçada da Repsol. Mas qualquer empresa internacional que participe na exploração dos activos arrancados à Repsol enfrentaria problemas legais sérios.

A Petrobrás, gigante Brasileiro da energia e uma das maiores empresas do mundo, foi publicamente convidada a expandir a sua produção na Argentina através de novos investimentos. A Petrobrás, com os seus interesses globais, nunca poderia aceitar este convite, especialmente dado o seu esforço para obter o financiamento que necessita para desenvolver as imensas reservas de petróleo em alto-mar do Brasil.

A Sinopec, segunda maior empresa Chinesa de petróleo, estava alegadamente em discussões com a Repsol para adquirir parte substancial dos seus activos na Argentina. Agora todas as negociações terminaram. Como disse uma fonte Chinesa anónima à Reuters, “esta é uma situação desafiadora para qualquer um, dada a acção tomada pelo governo. Para mim, seria suicídio político permitir agora que uma companhia chinesa venha a perspectivar o controlo da YPF depois do anúncio da nacionalização”.

A Repsol foi gravemente penalizada pela acção de Fernández, tendo perdido cerca de 50% de sua capacidade produtiva e um terço de seus rendimentos. O governo de Espanha, indignado, promete retaliações fortes e terá certamente o apoio politico da União Europeia. Mas é difícil imaginar que medidas poderão realmente levar Fernández a reconsiderar. Afinal, dado que tudo isto era previsível, e que os investidores externos estarão agora ainda mais reticentes em entrar no mercado, ela claramente calculou que os benefícios políticos compensam os custos económicos. 

Mas isso depende de a nacionalização levar a um aumento na produção. Parece claro que não, a menos que o governo decida injectar doses maciças de recursos fiscais na YPF em detrimento de outras necessidades urgentes. Dado que isto é improvável, as quebras no abastecimento são inevitáveis.

O petróleo exerce um grande fascínio na mente dos povos. Para paises que o possuem em abundância, é um dos mais sólidos e centrais esteios do nacionalismo. E, por toda a parte, é a explicação real ou imaginária de muitas guerras, o “ouro negro” que alimenta sonhos e desperta a cobiça. Para governantes que não se importam que as suas vitórias sejam Pírricas, é também um recurso facilmente acessível para manipular a imaginação popular com teorias da conspiração e arroubos patrióticos.

O governo Fernández vem enviando sinais de que está disposto a continuar no seu rumo errático, não só criando o caos na economia, mas também marginalizando o país aos olhos da comunidade internacional. Mas decisões como esta, que por vezes parecem começar bem, invariavelmente acabam mal.

Pessoalmente, lamento muito que a Argentina se tenha embrenhado neste reino de erros e enganos. É um grande país, com um povo sofisticado e altamente representado em todos os campos. Para o Brasil, não pode haver satisfação em ver um vizinho tão estimado e próximo apartar-se das normas internacionais e embarcar em aventuras perigosas, em detrimento de seu próprio povo.

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    1. CommentedHoang-Anh Ho

      How a country with "sophisticated and highly accomplished people in all fields" is "unable to provide either the investment or technological resources and knowhow to develop YPF’s resources"?

    2. CommentedOdysseas Argyriadis

      Let me start this by asking the author who she is. There is no info on this site concerning the author. As such, we cannot know if her view of the matter is biased.
      How would anyone that would like to participate in the exploitation of Repsol's ex-assets have legal problems? Who would create those problems? Repsol? The assets do not belong to them anymore.
      "But that depends on whether nationalization brings about an increase in production. It seems clear that it will not, unless the government decides to inject massive fiscal resources into YPF at the expense of other pressing needs." Euh, the author now pulls this out of her bottom. How is it clear that Argentina will not be able to increase the production? The author gives no hard facts to support this claim. In addition, is there any official word that Argentina wants to increase the production instead of keeping it at current levels?
      And finally, how is this patriotic posturing? Repsol is exploiting a natural resource that belong to Argentina's sovereignity while profiting from it. Why would Argentina not want to get its due on its own national ground?

        CommentedOmar Diosdado Rivera

        Repsol will take legal action against any company intending to invest in YPF expropriated or alternatively in their assets, according to the Spanish company.
        The news, which was conducted by Financial Times, argues that the Spanish oil group and their lawyers prepared to act against a possible entry of investors in the capital of YPF.

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