Saturday, September 20, 2014
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A Recessão Política da América

BERKELEY – Presentemente, há 36% de probabilidades de que os Estados Unidos estejam em recessão no próximo ano. A razão é inteiramente política: a polarização partidária alcançou níveis nunca antes vistos, ameaçando empurrar a economia dos EUA para o fundo de um “abismo fiscal” – os aumentos de impostos e cortes na despesa automáticos que produzirão efeitos no início de 2013, a não ser que Democratas e Republicanos concordem em contrário.

Há mais de um século, durante a primeira Era Dourada, a política Americana estava também profundamente polarizada. Em 1896, o futuro Presidente Theodore Roosevelt era um cão de ataque Republicano. Denunciou o candidato presidencial Democrata William Jennings Bryan como um mero fantoche do sinistro governador do Illinois, John Peter Altgeld.

Bryan, disse Roosevelt, “seria como barro nas mãos do oleiro sob o astuto controlo do ambicioso e sem escrúpulos comunista do Illinois.” A “livre cunhagem de prata” seria “não mais que um passo na direcção do socialismo geral que constitui a doutrina fundamental da sua crença política.” Ele e Altgeld “tentaram subverter as … políticas essenciais que têm controlado o governo desde a sua fundação.”

Essa linguagem é tão extrema como a que ouvimos actualmente – e vinda de um homem que estava prestes a tornar-se Vice-Presidente (e mais tarde Presidente, após o assassinato de William McKinley). Ouvimos o Governador do Texas Rick Perry apelar obliquamente ao linchamento do seu colega Republicano, o Presidente da Reserva Federal Ben Bernanke, caso ele fosse ao Estado da Estrela Solitária (NdT: Lone Star State no original). E vimos o Secretário de Estado do Kansas Kris Kobach explorar a possibilidade de suspender o Presidente Barack Obama da votação no Kansas, porque, sugeria Kobach, Obama “não é um cidadão natural dos EUA”.

Mas nem Perry nem Kobach deverão algum dia ser presidentes dos EUA, ao passo que Theodore Roosevelt era mais que um correligionário. Estabelecia alegremente acordos com os Democratas – para se colocar na liderança não apenas do Partido Republicano mas também da bipartidária coligação Progressiva, quer tentando submeter as duas forças em simultâneo, quer avançando e recuando entre elas para atingir objectivos legislativos e políticos.

Obama segue genericamente a política de segurança de Ronald Reagan (do segundo mandato), a política de despesas de George H. W. Bush, a política fiscal de Bill Clinton, a política regulatória financeira do apartidário Squam Lake Group, a política de imigração de Perry, a política de mudança climática de John McCain, e a política de cuidados de saúde de Mitt Romney (pelo menos enquanto Romney foi governador do Massachusetts). E, no entanto, Obama está perto de não ter quaisquer Republicanos a apoiar as suas próprias políticas.

De facto, como Clinton antes dele, Obama não tem sido capaz de conseguir que senadores Republicanos como Susan Collins votem na sua própria política de financiamento de campanhas, que McCain vote na sua própria política de mudança climática, e – mais risivelmente – que Romney apoie o seu próprio plano de cuidados de saúde. Do mesmo modo, não tem sido capaz de fazer com que o candidato Republicano a Vice-Presidente Paul Ryan apoie as suas próprias propostas de controlo de custos no Medicare.

Há razões óbvias para isto. Uma grande fatia das bases Republicana, incluindo muitos dos maiores financiadores do partido, acredita que qualquer presidente Democrata é um inimigo ilegítimo da América, fazendo com que tudo o que é proposto por um titular deva estar errado e por isso deva ser contrariado. E os quadros Republicanos acreditam ainda mais nisto relativamente a Obama do que acreditavam relativamente a Clinton.

Este ponto de vista influencia claramente os Republicanos que ocupam cargos oficiais, que temem a besta partidária que opera as bases de contactos telefónicos das suas campanhas e detém os cordões da bolsa. Além disso, logo desde a eleição de Clinton em 1992, os que lideravam o Partido Republicano acreditaram que criar impasses de todas as vezes que um Democrata está na Casa Branca, demonstrando assim a incapacidade governamental de agir, é o melhor caminho para o seu sucesso eleitoral.

Estes foram os cálculos dos Republicanos em 2011-2012. E a eleição de Novembro não mudou o equilíbrio do poder em qualquer instância do governo Americano: Obama permanece Presidente, os Republicanos continuam com o controlo da Casa dos Representantes, e os Democratas controlam o Senado.

Agora, é possível que os legisladores Republicanos se revoltem contra os seus líderes, argumentando que concorreram ao governo para governar, e não para paralisar o governo na esperança de que, assim fazendo, dariam ao partido o poder para reinar como quisesse após a próxima eleição. É possível que líderes Republicanos como os Representantes John Boehner e Eric Cantor e o Senador Mitch McConell concluam que a sua política de obstrução tem sido um falhanço. Podem notar que, embora a economia permaneça profundamente perturbada e deprimida no rescaldo de uma crise financeira que eles próprios encenaram, as políticas de Obama têm sido de longe as mais bem-sucedidas em todos os países desenvolvidos, e concluir que ele tem sido um presidente relativamente bom, e que vale a pena apoiar.

Mas não contem com isso. Neste momento, todos os políticos experientes da América estão a dizer aos seus favoritos na imprensa que estão confiantes que o compromisso sobre o “abismo fiscal” será conseguido antes do fim de Dezembro. Mas dizem isto aos seus favoritos porque pensam que um seu pessimismo no presente levará a que os culpem mais tarde pelo impasse.

Parece-me que há cerca de 60% de probabilidades de que a verdadeira negociação não comece até que as taxas de imposto subam, a 1 de Janeiro. E parece-me que, se o impasse continuar em 2013, haverá 60% de probabilidades de que os EUA sejam empurrados outra vez para a recessão. Vamos esperar que seja curta e superficial.

Traduzido do inglês por António Chagas

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  1. CommentedPaulo Sérgio

    There will be costs for the kind of divisive politics the United States has been entertaining for a decade now. But, it's the same leadership on display across the Atlantic.

    I think, this displays some myopia with regards the period for which slow and zero growth economies will remain influential. But for leading export-led emerging giants, this is a sort of "it's our fiscal cliff, but your problem."

  2. CommentedVan Poppel charles

    sir, thank you for your speedy answer; but you should formulate an efficient strategy and defend it and not blame the other man for not being able to do that;

  3. CommentedVan Poppel charles

    after reading this comment I arrived at the conclusion that even the most sophisticated american economics professors at the most sophisticated US universities do not know anymore to formulate an efficient policy strategy to overcome the actual " big recession" in the biggest economy of the world; that's dreadful for economic science as also Nobel price economists.

      Portrait of J. Bradford DeLong

      CommentedJ. Bradford DeLong

      Interesting. Why did you conclude that? From where I sit, we know very well how to overcome the big recession--but there are a lot of bad and underbriefed actors sending fake messages and confusing people, and assembling the political coalition is very hard.

  4. CommentedPaul A. Myers

    What Washington does has consequences out in the country. But the country does not seem to believe it. So I suspect the country has to "feel it" and then push back on Washington.

    Tens of millions of people are going to need more than just Social Security and Medicare and Medicaid. I suspect the Republicans know this and simply don't want to pay for it. So they work to lock in ceilings now.

    So the Republicans have two goals: lock in low tax rates for the wealthy and spending ceilings on the lower half of the income distribution. These positions will only be overcome by brute political power, not by sweet reason.

    The Republican goal is actually recession, which is a form of austerity. Let's see if their big business allies really want to go down this road!

  5. CommentedCarol Maczinsky

    In short: how to unwreck the right wing of the US political spectrum, how to promote decent conservative policies.

  6. CommentedCarol Maczinsky

    You mix two crisis: First an inevitable economic downturn and the political turmoil that would emerge from it, second a republican policy crisis which promotes extremism. You have a government which supports terrorism, torture and assinations abroad and an insane opposition which makes it look the lesser evil. Where is "conservative" conservatism in the US?

  7. CommentedProcyon Mukherjee

    Betwixt a market that already believes that the fiscal derangement has been avoided and the rising tide of reports that show that compromise is mired by a dithering polity that flourishes on the hopes of an economic revival that is not based on equity and responsibility, but in a recurring rent seeking at the back of far less modest monetary policy that pushes products and services in the expectation of a demand, which falters time and again to actually happen.

    Why call it recessive politics, this is the process that gets the majority to select the best amongst the worst, while the divide is orchestrated over gigabytes of media space and funded by a transparence? Continuation of the divide whether for better or worse is a part of democracy through discussion, as long as it is under the aegis of a public scrutiny.

    Procyon Mukherjee

  8. CommentedCher Calusa

    "let us hope that it will be short and shallow"... I heartily disagree to this notion of "hoping". This is what got everybody into this financial mess. We have consistently closed our eyes tightly and have hoped that all the imbalance in our economic system would somehow go away. Now let's consider that we don't have an economic system separate from any other on this planet. All countries sink or swim together in today's interconnected climate. The problems has always been exploitation and excess. This activity has spread across the entire globe and now we are at the natural end to this system. The more third world economies grow, the less they will tolerate exploitation and this is actually progress. We're ready for something totally new, a world in which balance and cooperation is more important than profits and exploitation. It is destined to happen either by our global creative effort or after a natural collapse. In the wake of this economic configuration we humans have also created imbalance socially and environmentally. May we open our eyes bravely and face the facts!

  9. CommentedZsolt Hermann

    The way things work is that usually there is an objective, absolute state, and than there is the perception of it.
    For example somebody can be very sick, even terminally sick which is obvious to others, but the person himself still thinks he is healthy or maybe a little sick but everything is going to be better by itself as time goes by.
    It is the same with the US and humanity in general.
    We have been talking about climate change, how it will change the weather, our life, and suddenly now we realize it is not going to happen in some faraway future, we are already living through it, hammered by it in a very unpredictable manner.
    We are talking about peak oil, depleted natural resources sometime in the future, the truth is those changes are already upon us, and very significant lack of resources, including water and food resource shortages will hit us very soon, very much within the lifetime of this generation.
    We are talking about financial and economical crisis, political recession happening soon, the truth is we are already in it, simply more and more layers of makeup, cosmetic surgery is holding the rotten body together, but in many very real countries the life of the public is affected by it very severely day to day, and this is spreading fast all over the globe.
    The great American soap opera, highlighted by the more than year long election campaign is finished, the reality starts biting, and very soon a much worse reality will dawn on this country, and to China, and to the whole of Europe than people would like to imagine.
    We have been cheating the global, natural, interconnected and interdependent system for too long and there is no more place or resource to cheat any longer.
    We cannot ignore that the whole socio-economic system we are stubbornly pushing is false, and is built on a fantasy.
    We will wake up very soon, either by conscious examination of ourselves and the system around us, or by a very rude awakening through unpredictable and volatile events hitting us from all sides.

  10. CommentedMark Pitts

    Is this supposed to be political analysis? It reads more like partisan advocacy.
    In any case, we should add to the author's list of extreme political speech the repeated accusation that any one who voted against Obama is a racist.

      Portrait of J. Bradford DeLong

      CommentedJ. Bradford DeLong

      Why? Do you object to the observation that: "Obama broadly follows Ronald Reagan’s (second-term) security policy, George H.W. Bush’s spending policy, Bill Clinton’s tax policy, the bipartisan Squam Lake Group’s financial-regulatory policy, Perry’s immigration policy, John McCain’s climate-change policy, and Mitt Romney’s health-care policy (at least when Romney was governor of Massachusetts). And yet he has gotten next to no Republicans to support their own policies"? If you object to it, what is wrong with it? Simply stating what has happened is analysis, after all...

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