Sunday, November 23, 2014
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Enfrentar o Desafio do Crescimento Americano

BERKELEY – Os Estados Unidos continuam a recuperar da mais profunda crise económica que afectou o país desde a Grande Depressão, mas o ritmo dessa recuperação continua frustrantemente lento. Há várias razões para prever que se registe uma ligeira melhoria em 2013, embora, como de costume, existam riscos de agravamento da situação.

As principais fontes externas de eventuais perigos assentam numa recessão prolongada ou numa crise financeira na Europa e no crescimento mais lento nos mercados emergentes. A nível interno, o conflito político é responsável pelos dois maiores riscos: a incapacidade de se chegar a acordo para elevar o limite da dívida e um ciclo adicional de contracção orçamental que dificulta o crescimento económico.

Desde 2010, o fraco crescimento médio anual do PIB de 2,1% denotou uma insuficiente criação de emprego. Tanto neste período de recuperação como nos dois anteriores, a recuperação do crescimento do emprego foi mais fraca e mais morosa do que o crescimento do PIB. Mas a perda de empregos na recessão mais recente registou um número mais de duas vezes superior ao das anteriores recessões, deste modo, uma recuperação lenta representou uma taxa de desemprego muito mais elevada durante um período de tempo muito mais longo.

A fraca procura agregada é a principal responsável pelo modesto crescimento do PIB e do emprego. A recessão de 2008 foi desencadeada por uma crise financeira que surgiu na sequência do descalabro do mercado imobiliário provocado pelo rebentar de uma bolha especulativa de activos, alimentada pelo crédito. Após crises desta natureza, verifica-se uma forte contracção da procura por parte do sector privado e a sua recuperação é lenta. O balanço financeiro do sector privado passou de um défice de 3,7% do PIB, em 2006, período auge do crescimento, para um excedente de cerca de 6,8% do PIB, em 2010 e de cerca de 5%, actualmente. Estes valores representam a maior contracção e a mais fraca recuperação da procura por parte do sector privado desde o final da Segunda Guerra Mundial.

O crescimento nas duas componentes da procura privada, o investimento residencial e o consumo, que representam mais de 75% das despesas totais da economia dos EUA, tem sido particularmente lento. É provável que em 2013 se registe uma intensificação das duas fontes de procura.

O investimento residencial ainda se situa num nível historicamente baixo como percentagem do PIB, em resultado do excesso de construção durante o período de expansão do mercado imobiliário, 2003-2008, e do subsequente tsunami de execuções hipotecárias. Mas as turbulências no mercado imobiliário estão a dissipar-se. No ano passado registou-se um aumento nas vendas de casas, nos preços e na construção, ao passo que as execuções hipotecárias diminuíram. Este ano, o investimento residencial deverá constituir uma fonte de crescimento da produção e do trabalho.

As grandes perdas na riqueza das famílias, a “desalavancagem” de situações de dívida insustentável, o fraco crescimento salarial e a descida da participação laboral no rendimento nacional para um mínimo histórico contribuíram para restringir o crescimento do consumo. O rendimento médio familiar ainda se situa 7% abaixo do pico registado em 2007, o valor líquido real do rendimento mediano dos agregados familiares diminuiu 35% entre 2005 e 2010 (e continua significativamente abaixo do pico registado no período de pré-recessão) e cerca de 90% dos rendimentos auferidos durante o período de recuperação foram para a faixa superior de 1%.

Na verdade, os ventos contrários que pesavam sobre o balanço, provocando a retenção do consumo, diminuíram. As famílias reduziram as suas dívidas - muitas vezes através de execuções hipotecárias penosas e de situações de falência - e a sua dívida em relação ao rendimento desceu para o nível registado em 2005, um nível significativamente inferior ao que se registou durante o pico de 2008. Apoiado por taxas de juros baixas, o serviço da dívida em relação ao rendimento familiar desceu para níveis não observados desde o início de 1980. Mas o consumo vai ser afectado pelo fim do prazo das reduções dos impostos aplicáveis aos salários, o que reduzirá o rendimento das famílias em cerca de 125 mil milhões de dólares este ano.

Outro factor que contribuiu para o atraso na recuperação foi o fraco crescimento da despesa em bens e serviços por parte dos governos dos estados, dos governos locais e, mais recentemente por parte do governo federal. De facto, desde o início da recessão, os governos dos estados e os governos locais suprimiram cerca de 600.000 empregos e reduziram em 20% as despesas com projectos de infra-estruturas.

As tendências orçamentais para 2013 são mistas, mas negativas na generalidade. Apesar de estar a chegar ao fim o período de cortes nas despesas e no emprego por parte dos governos dos estados e dos governos locais, à medida que a recuperação aumenta as suas receitas fiscais, o agravamento fiscal a nível federal está a acentuar-se. A lei denominada American Taxpayer Relief Act – trata-se de um acordo fiscal concluído no início de Janeiro para evitar o "abismo orçamental" - retira cerca de 750 mil milhões de dólares do défice nos próximos dez anos e poderá deduzir um ponto percentual à taxa de crescimento de 2013. Além disso, embora sejam menos amplamente apreciadas, já estão em curso reduções significativas na despesa federal, prevendo-se a introdução de mais reduções.

Os cortes na despesa e o aumento das receitas, legislados desde 2011, irão reduzir o défice projectado em 2,4 biliões de dólares durante a próxima década, dos quais três quartos provêm dos cortes nas despesas, quase exclusivamente de programas discricionários não relacionados com a defesa. Com base nas actuais premissas económicas, os EUA necessitam de cerca de 4 biliões de dólares em poupanças para estabilizar o rácio dívida/PIB durante a próxima década. Já se encontra a três quintos do caminho.

A lei relativa ao controlo do orçamento referida como “cativação” (sequester, na designação inglesa) - aplicação generalizada de cortes da despesa prevista para o início de Março - reduziria outros 100 mil milhões de dólares, este ano e 1,2 biliões de dólares durante a próxima década. Embora pudesse estabilizar o rácio dívida/PIB, a aplicação da cativação seria um erro, dada a sua incapacidade para distinguir quais as prioridades em termos de despesas, prejudicaria também os programas essenciais e significaria outro abalo considerável no crescimento, este ano.

Além disso, apesar das advertências dos alarmistas em matéria de défice, os EUA não se encontram perante uma situação iminente de crise da dívida. Actualmente, a dívida federal equivale a pouco mais de 70% do PIB, um nível não observado desde o início de 1950. No entanto, a dívida pública aumenta em média 86%, após graves crises financeiras, por conseguinte, não é de surpreender que o aumento da dívida federal se tenha situado em 70%, entre 2008 e 2012.

Nem é caso para preocupação. A economia dos EUA cresceu rapidamente durante vários anos após a Segunda Guerra Mundial com um maior rácio dívida/PIB e o actual rácio é menor do que o de todos os outros grandes países industrializados (e corresponde a cerca de metade do rácio da Grécia, sendo absurdas e enganosas as analogias feitas aqui).

Durante os últimos dois anos, em Washington tem havido uma obsessão pela necessidade de reduzir o défice e de posicionar o rácio dívida/PIB numa via "sustentável", mesmo num momento em que os investidores globais convergiram em massa à dívida pública dos EUA, fazendo baixar as taxas de juro para mínimos históricos. O avanço considerável conseguido em termos de redução do défice para os próximos dez anos foi negligenciado. Também ficaram esquecidos os desafios imediatos que representam o baixo crescimento, o fraco investimento e a elevada taxa de desemprego.

Está na altura de se estabelecer uma reorientação. Os EUA não precisam de mais redução do défice, precisam sim de um plano para um crescimento mais rápido. Evsey Domar, um lendário economista especializado em crescimento (e um dos meus professores no MIT) explicou que a questão da suavização do peso da dívida é essencialmente uma questão de se conseguir que haja crescimento no rendimento nacional. Deveríamos considerar úteis as suas palavras.

Tradução: Teresa Bettencourt

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    1. Portrait of Pingfan Hong

      CommentedPingfan Hong

      "The US needs a plan for faster growth, not more deficit reduction" : this statement is misleading, as it misinterprets what is actually under the debate. Most analysts involved in the debate do not place the need for growth and the need for debt reduction as two competing goals on the two ends. Those who urge for debt reduction believe debt reduction is the precondition for higher growth. They are for higher growth.

    2. CommentedMargaret Bowker

      The US has entered the difficult stage of its recovery plan, paying back. But there are some helpful indicators. The November and December job creation figures were revised up and the January figure was steady. And the growth figure for the last quarter of 2012 was only a contraction of 0.025% which disappoints in comparison with the previous quarter. However, it is only slightly mirroring what is happening in the 0.3% contraction seen in the UK and Germany, also after satisfactory third quarters. The decks are cleared in the US for Budget issues to be carefully considered, now that the Debt Ceiling bill has gone through the Senate. Hopefully the Debt Ceiling will not be a problem in mid May, or in future. Hardly anyone else has this mechanism, with its far-reaching political ramifications. Laura Tyson makes a good case for protecting growth and mindful of the mini-contraction, others may also acknowledge its importance. This is the difficult stage of a fiscal/monetary plan, deciding where to cut, when it comes in, and how to ameleriorate its effects, by tapering perhaps. Europe is starting to consider growth issues to balance reduction in its long term budget and the UK is debating how to accelerate those measures already introduced. The focus is shifting in a responsible way.

    3. Commentedcaptainjohann Samuhanand

      USA is not recovering at all.Normal economics is not going to work here.It is basically politics. USA has wasted lot of money in Iraq/Afghanistan wars.Printing of dollars is not going to work with China slowly shifting to commodity trading.USA has to rethink on its Global role becuase it is the Greatest democracy world has ever known.The people of USA must learn to live within their means.

    4. CommentedProcyon Mukherjee

      Just when we thought we were moving towards early signs of growth, we stumbled on the last quarter data where growth has stalled in U.S.; the role of monetary policy seems to be overstated and more so when liquidity is never a problem now while that is what we are flooding the market with. It reminds one of the golden rule of money, one that was said by no other than John Stuart Mill, “"There cannot . .. ," he wrote, "be intrinsically a more insignificant thing, in the economy of society, than money; except in the character of a contrivance for sparing time and labor. It is a machine for doing quickly and commodiously, what would be done, though less quickly and commodiously, without it: and like many other kinds of machinery, it only exerts a distinct and independent influence of its own when it gets out of order". Milton Friedman on the other hand noted in his seminal article ‘The Role of Monetary Policy’, “that (1) It cannot peg interest rates for more than very limited periods; (2) It cannot peg the rate of unemployment for more than very limited periods.” We have therefore too much expectation bunched up for central banks to deliver, which they have very little in their armor to facilitate.

    5. CommentedPaul A. Myers

      Rightly or wrongly, the Republican attack on "spending" is aimed at the increasing share of GDP going to various cross-subsidy programs sponsored by government. There is a sense by many taxpayers that there is something "unfair" in this redistribution.

      I suspect the middle of the Democratic officeholder class in Washington is simply not going to support "spending" in the general sense.

      So the equilibrium political point in the US is now towards slow growth.

    6. CommentedMark Pitts

      The good profesora doth seek to mislead her readers: Global investors have not in fact “flocked to US government debt.”

      An amount roughly equal to the last three years’ total deficit has been purchased by the Federal Reserve, using their printing press. Thus, there has been essentially no new net investment in US debt by world investors for the last three years.

      And those global investors who appeared to “flock” to US Treasuries were actually “fleeing” from bonds issued in euros, understandable since it was a currency that many were predicting would cease to exit.

      The professor makes her assessments “based on current economic assumptions” meaning, no doubt, that we are soon to return to 3-4% growth. How else could she conclude that current deficits of around $1 trillion per year can be stabilized with cuts of $2.4 trillion spread over ten years?

      In any case, if the average interest rate on US debt increases by just 1.7% in the years ahead, that $2.4 trillion ten-year savings ($240 billion per year) goes to pay higher interest rates, and the deficit goes back up despite the cuts.

      And in ten years, the Medicare disaster will hit with full force, but let’s not even speak of that...

      Academic economists and government officials may find Ms. Tyson’s analysis convincing, but bond investors everywhere have their eyes on the door.

    7. CommentedZsolt Hermann

      The greatest challenge is to understand there there is no return to growth, at least not the way it happened so far.
      When we talk about "refocusing" it means to understand the root causes behind the crisis, or more precisely system failure instead of continuing with superficial, cosmetic adjustments.
      The present overconsumption, over production economic model is totally unnatural, thus it is unsustainable.
      People are not searching for, working for, paying for goods to satisfy natural, modern, human desires, but they are craving for artificial desires the sophisticated marketing machinery and the subsequent social pressure forces on them.
      Through multiple factors this illusion, this "Matrix" has come to an end, it is impossible to sustain. More and more people and nations are "disconnecting from the Matrix" for different reasons.
      The debt burden, the social inequality, the exhausted natural resources and environmental damage brought the whole present human system into a dead end.
      We cannot avoid looking into the mirror and accepting defeat.
      Accepting the inevitable now and starting to build a new system while we are still in a relatively healthy shape is much better than waiting for a total meltdown and then starting panic reactions.
      We cannot cheat nature and natural laws, we are part of the system not above it.
      It is time we wake up and adapt to the system before we are forced to do so.

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