Wednesday, July 30, 2014
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Um consenso de Berlim?

HONG KONG - Uma recente viagem a Berlim trouxe de volta recordações de uma visita anterior, no Verão de 1967, quando eu era um pobre estudante que ficava maravilhado com o muro que dividiria e devastaria uma sociedade inteira por mais duas décadas. A cidade de Berlim é hoje vibrante e rejuvenescida, reconstruída através do trabalho duro e do sacrifício do povo alemão para unificar o país e um cenário apropriado para a conferência do Instituto para o Novo Pensamento Económico (INET), a qual eu estava lá para assistir.

O tema da conferência era “Paradigm Lost”, com mais de 300 economistas, cientistas políticos, analistas de sistemas e ecologistas, reunidos para repensar a teoria económica e política, para todos os desafios e incertezas criadas pela crescente desigualdade, pelo aumento do desemprego, pela desordem financeira global e pelas alterações climáticas. Quase todos concordaram que o velho paradigma da economia neoclássica foi quebrado, mas não houve acordo sobre o que pode substituí-lo.

 O prémio Nobel Amartya Sen atribuiu a crise europeia a quatro falhas - política, económica, social e intelectual. A crise financeira mundial, que começou em 2007 como uma crise do crédito hipotecário de alto risco norte-americano (subprime) e que se alargou a uma crise da dívida soberana (e bancária) europeia, levantou questões às quais não podemos responder, devido à especialização excessiva e à fragmentação do conhecimento. E todavia não há como negar que o mundo se tenha tornado muito complicado para que qualquer teoria, simples e abrangente, explique as complexas mudanças económicas, tecnológicas, demográficas e ambientais.

Em particular, a ascensão dos mercados emergentes tem desafiado a tradicional lógica dedutiva e indutiva ocidental. A inferência dedutiva permite-nos prever os efeitos, caso conheçamos os princípios (a regra) e as causas. Através do raciocínio indutivo, se conhecermos as causas e os efeitos, podemos inferir os princípios.

O pensamento oriental, por outro lado, tem sido abdutivo, passando pelo pragmatismo para adivinhar os passos seguintes. A inferência abdutiva é pragmática, olha apenas para os resultados, tenta adivinhar a regra e identificar a causa.

À semelhança da história, a teoria das ciências sociais é escrita pelos vencedores e moldada pelo contexto e pelos desafios do seu tempo. O liberalismo evoluiu a partir dos teóricos anglo-saxónicos (muitos da Escócia), que migraram e colonizaram territórios, permitindo aos indivíduos afortunados assumir que não havia limites para o consumo. O pensamento europeu continental, dando resposta à urbanização e à necessidade de ordem social, enfatizou a análise institucional da economia política.

Assim, o aparecimento da economia neoclássica do século XIX foi muito influenciado pela física newtoniana e cartesiana, passando da análise qualitativa para a quantificação do comportamento humano, ao assumir um comportamento racional e ao excluir a incerteza. Este pensamento “equilíbrio pré-determinado” - reflectido na visão de que os mercados sempre se auto-corrigem - levou à paralisia política até a Grande Depressão, quando o argumento de John Maynard Keynes de intervenção do governo para enfrentar o desemprego e os desvios de produção ganhou força.

Na década de 1970, a escola neoclássica de equilíbrio geral, capturou a economia keynesiana através de modelos do sector real que assumiram que “a moeda é um véu”, disfarçando, desse modo, os efeitos desestabilizadores dos mercados financeiros. Economistas como Hyman Minsky, que tentaram corrigir isto, foram bastante ignorados, enquanto Milton Friedman e outros conduziam o impulso profissional para os mercados livres e para a mínima intervenção governamental.

Mas depois a tecnologia, a demografia e a globalização trouxeram novos desafios dramáticos que a abordagem neoclássica não podia prever. Mesmo quando os países avançados do mundo consomem em excesso através do efeito da alavancagem dos derivados financeiros, quatro mil milhões, dos sete mil milhões de pessoas do mundo, começaram a mudar para o estatuto de rendimento médio, requerendo enormes exigências dos recursos globais e levantando a questão da sustentabilidade ecológica.

Um novo pensamento é necessário para gerir estas mudanças sólidas e sistémicas, bem como a integração de gigantes como a China e a Índia no mundo moderno. A mudança de mentalidade é necessária não só no Ocidente, mas também no Oriente. Em 1987, o historiador Ray Huang explicou-o em relação àChina:

“Enquanto o mundo entra na era moderna, a maioria dos países sob pressão interna e externa precisa reconstruir-se, substituindo o modo de governação enraizada na experiência agrária, por um novo conjunto de regras baseadas em comércio... Isto é mais fácil de dizer do que de fazer. O processo de renovação pode afectar as camadas superiores e inferiores e é inevitavelmente necessário recondicionar os vínculos institucionais entre elas. A destruição geral é muitas vezes a ordem do dia; e pode levar décadas para dar o trabalho como terminado”.

Com base neste quadro macro-histórico, podemos ver a deflação japonesa, a dívida europeia e até mesmo a Primavera árabe como fases de mudanças sistémicas nas estruturas complexas que estão a interagir uns com os outros, num novo sistema mundial multipolar. Estamos a testemunhar, em simultâneo, a uma convergência global (diminuição dos rendimentos, da riqueza e lacunas de conhecimento entre os países) e a uma divergência local (aumento de rendimentos, da riqueza e lacunas de conhecimento dentro dos países).

Os sistemas adaptativos lutam com a ordem e com a criatividade, à medida que evoluem. Tal como o filósofo Bertrand Russell expressou de forma presciente: “A segurança e a justiça requerem controlo governamental centralizado, que se deve alargar à criação de um governo mundial para ser eficaz. O progresso, pelo contrário, requer um âmbito maior para a iniciativa pessoal que seja compatível com a ordem social”.

Uma nova onda a que o economista Joseph Schumpeter apelidou celebremente de “destruição criativa” está em curso: mesmo que os bancos centrais se esforcem para manter a estabilidade, ao inundarem os mercados com liquidez, o crédito às empresas e às famílias está a diminuir. Vivemos numa época com medo, em simultâneo, da inflação e da deflação; de prosperidade sem precedentes no meio de uma crescente desigualdade; e de avanço tecnológico e esgotamento de recursos.

Enquanto isso, os atuais sistemas políticos prometem bons empregos, uma governação sólida, um ambiente sustentável e harmonia social sem sacrifício - um paraíso de parasitas egoístas que podem ser sustentados apenas com o sacrifício do meio-ambiente natural e do bem-estar das gerações futuras.

Não podemos adiar eternamente a dor da adaptação, com a impressão de dinheiro. A sustentabilidade só pode ser alcançada quando os que têm estiverem dispostos a sacrificarem-se pelos que não têm.

O Consenso de Washington das reformas do mercado livre para os países em desenvolvimento terminou há mais de duas décadas. A conferência INET em Berlim mostrou a necessidade de um novo - um consenso que apoie o sacrifício no interesse da união. A Europa podia utilizá-lo.

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  1. CommentedVincent Garton

    What is the referent of "Eastern thinking" supposed to be? This sounds like pure internalized orientalism.

  2. CommentedZsolt Hermann

    It is a very interesting overview article to describe our situation but very few cues are in it about a possible solution.
    For example I am not sure I agree with the following statement:
    "...And yet there is no denying that the world has become too intricate for any simple, overarching theory to explain complex economic, technological, demographic, and environmental shifts..."
    We see it this way, because we remain in our own subjective, introverted perception of the world, when each and every one of us, especially out present leaders sit down to any discussion or summit with "set in stone" personal or national agendas, incapable of seeing the viewpoint from another angle, thus we can only see the myriad of details but not the whole picture.
    If we want to achieve any meaningful solutions we have to rise above this present attitude, when every plan, or action is based on self calculation.
    We need to take seriously that we indeed live in a global, integral world with all its intricate meaning.
    A global, integral network means that all elements are totally interconnected, moreover they depend on each other even for the tiniest details.
    If through a transparent, factual, global education program we could explain to each and every human being what it means to exist in this global, integral system, then from that foundation our incredible human talent, and adaptability would work out the specifics, how the economic or political structure should look like in the 21st century.
    And then the seemingly paradoxical idea of Bertrand Russel, "Security and justice require centralized governmental control, which must extend to the creation of a world government if it is to be effective. Progress, on the contrary, requires the utmost scope for personal initiative that is compatible with social order.” could become a reality.

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